sábado, 11 de junho de 2016

INTRODUÇÃO ÀS CARTAS DE SÃO FRANCISCO XAVIER

As cartas de São Francisco Xavier




Ele foi o grande Apóstolo dos tempos modernos, como São Paulo foi o notável Apóstolo nos tempos antigos. Missionário de valor especial, hoje nos deixa admirados com suas obras portentosas. Foi o grande conquistador do Oriente que abriu caminho para um exército de missionários, porque verdadeiramente ele despertou o espírito missionário na cristandade. Dizia o Jesuíta Araoz, “Xavier com suas cartas não fazia menos frutos na Espanha e Portugal, do que nas Índias com sua pregação direta”. Suas cartas maravilhosas eram copiadas e enviadas por todas as partes. São Ignácio de Loyola as multiplicava! João III Rei de Portugal, queria que as cartas de Francisco fossem lidas em todas as Igrejas, porque elas suscitavam as vocações missionárias e revelava o extraordinário exemplo de sua vida para as pessoas.
Mesmo depois do falecimento de Xavier, os Jesuítas durante dois séculos continuaram partindo de Goa para evangelizar o Oriente.


ÍNDICE GERAL


Ordem
Destinado a
Onde escreveu
Data
Pág.
1535
1.
A João de Azpilcueta
Paris
25 de Março
16
1539
2.
Declaração dos primeiros jesuítas sobre o voto de obediência
Roma
15 de Abril 
18
1540
3.
Determinação da Companhia de Jesus
Roma
4 de Março
19
4.
Declaração, voto, votos
Roma
15 de Março
20
5.
Aos Padres Inácio de Loyola e Pedro Codácio
Bolonha
31de Março.
21
6.
Aos Padres Inácio de Loyola e Nic. Bobadilha
Lisboa
 23 de Julho
22
7.
Aos Padres Inácio de Loyola e Pedro Codácio
Lisboa
 26 de Julho
25
8.
A Martin de Azpilcueta
Lisboa
28 de Setembro
27
9.
Aos Padres Pedro Codácio e Inácio de Loyola
Lisboa
22 de Outubro
28
10.
A Martin de Azpilcueta (seu tio)
Lisboa
4 de Novembro
29
1541
11.
Aos Padres Inácio de Loyola e João Coldre
Lisboa
18 de Março
30
12.
Aos Padres Cláudio Jaio e Diogo Laínez
Lisboa
18 de Março
32
Índia - Introdução aos escritos 13-51
34
1542
13.
Aos seus companheiros residentes em Roma
Moçambique
1 de Janeiro
36
14.
Doutrina cristã (Catecismo breve)
Goa
Maio  
37
15.
Aos seus companheiros residentes em Roma
Goa
20 de Setembro
40
16.
Ao Padre Inácio de Loyola
Goa
20 de Setembro
44
17.
Ao Padre Inácio de Loyola
Goa
20 de Setembro
47
18.
Licença para rezar o Breviário novo
Goa
21 de Setembro
49
19.
Ao Padre Inácio de Loyola
Tuticorim
28 de Outubro
49
1544
20.
Aos seus companheiros residentes em Roma
Cochim
15 de Janeiro
52
21.
A Francisco Mansilhas
Punicale
23 de Fevereiro
58
22.
A Francisco Mansilhas
Manapar
14 de Março
59
23.
A Francisco Mansilhas
Manapar
20 de Março
60
24.
A Francisco Mansilhas
Manapar
27 de Março
60
25.
A Francisco Mansilhas
Manapar
8 de Abril
61
26.
A Francisco Mansilhas
Livar
23 de Abril
62
27.
A Francisco Mansilhas
Nar
1 de maio
63
28.
A Francisco Mansilhas
Tuticorim
14 de Maio
63
29.
A Francisco Mansilhas
Virapandyan-patanam
11 de Junho  
64
30.
A Francisco Mansilhas
Manapar
16 de Junho  
64
31.
A Francisco Mansilhas
Manapar
30 de Junho  
65
32.
A Francisco Mansilhas
Manapar
1 de Agosto  
66
33.
A Francisco Mansilhas
Manapar
3 de Agosto  
67
34.
A Francisco Mansilhas
Manapar
19 de Agosto  
68
35.
A Francisco Mansilhas
Manapar
20 de Agosto 
68
36.
A Francisco Mansilhas
Punicale
29 de Agosto  
69
37.
A Francisco Mansilhas
Alendale
5 de Setembro  
70
38.
A Francisco Mansilhas
Alendale
5 de Setembro  
70
39.
A Francisco Mansilhas
Trichandur
 7 de Setembro  
71
40.
A Francisco Mansilhas
Manapar
10 de Setembro  
72
41.
A Francisco Mansilhas
Manapar
11 de Setembro  
73
42.
A Francisco Mansilhas
Manapar
12 de Setembro  
74
43.
A Francisco Mansilhas
Tuticorim
20 de Setembro  
75
44.
A Francisco Mansilhas
Manapar
10 de novembro 
75
45.
A Francisco Mansilhas
Cochim
18 de Dezembro  
76
1545
46.
A D. João III
Cochim
20 de Janeiro 
78
46b
Graças e indulgências que peço…
Cochim
20-27 Janeiro
81
47.
Pe. Inácio de Loyola
Cochim
27 de Janeiro  
82
48.
Aos seus companheiros residentes em Roma
Cochim
27 de Janeiro..
83
49.
Pe. Simão Rodrigues
Cochim
27 de Janeiro  
86
50.
Francisco Mansilhas
Negapatão
7 de Abril  
88
51.
Ao Mestre Diogo e a Senhor Paulo
Meliapor
8 de Maio  
90
Extremo oriente - Introdução aos escritos 52-81
91
52.
Aos seus companheiros da Europa
Malaca
10 de novembro  
93
53.
Instrução para os catequistas da Comp. de Jesus
Malaca
10 de novembro
94
54.
Aos seus companheiros residentes em Goa
Malaca
16 de Dezembro
96
1546
55.
Aos seus companheiros da Europa
Ambóino
10 de Maio  
97
56.
Aos seus companheiros residentes na Índia
Ambóino
10 de Maio  
103
57.
A D. João III
Ambóino
16 de Maio  
106
58.
Explicação do símbolo da fé
Ternate
agosto/setembro  
107
1548
59.
Aos seus companheiros residentes em Roma
Cochim
20 de Janeiro  
113
60.
Ao P. Inácio de Loyola
Cochim
20 de Janeiro  
121
61.
A D. João III
Cochim
20 de Janeiro  
122
62.
A D. João III
Cochim
20 de Janeiro  
125
63.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Cochim
20 de Janeiro  
128
64.
Instrução para os missionários jesuítas da Pescaria e Travancor
Manapar
Fevereiro
129
65.
A Diogo Pereira (Em Cochim)
Goa
2 de Abril  
132
66.
Modo de rezar e salvar a alma
Goa  
Junho/Agosto ?
133
67.
Oração pela conversão dos gentios
Goa
Junho/Agosto ?
138
68.
Ao Pe. Francisco Henriques (em Travancor)
Punicale-Cochim
22 de Outubro  
139
69.
Os Padres Fernandes, Xavier, António do Casal, João de Vila a D. João III, rei de Portugal
Cochim
22 de Outubro  
140
1549
70.
Ao Pe. Inácio de Loyola (Roma)
Cochim
12 de Janeiro  
142
71.
Ao Pe. Inácio de Loyola
Cochim
14 de Janeiro  
147
72.
Ao Pe. Inácio de Loyola
Cochim
14 de Janeiro  
149
73.
Ao Pe. Simão Rodrigues (Portugal)
Cochim
20 de Janeiro  
150
74.
Ao Pe. Simão Rodrigues (Portugal)
Cochim
20 de Janeiro  
153
75.
Memória para o P. Pedro Fernandes Sardinha
Cochim
20 de Janeiro 
154
76.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Cochim
25 de Janeiro  
154
77.
A D. João III (Rei de Portugal)
Cochim
26 de Janeiro  
155
78.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Cochim
1 de Fevereiro  
157
79.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Cochim
2 de Fevereiro  
157
80.
Instrução para o Padre Barzeu  
Goa
princípios/Abril
162
81.
Instrução para o Padre Paulo  
Goa
7 / 15 de Abril
169
Japão - Introdução aos escritos 82-100
171
82.
Instrução para o Padre João da Beira com os seus companheiros (Em Molucas)
Malaca
20 de Junho
172
83.
A D. João III
Malaca
20 de Junho
174
84.
Aos PP. Paulo Camerte, António Gomes e Baltasar Gago (em Goa-Índia)
Malaca
20 / 22 de Junho
175
85.
À Companhia de Jesus na Europa
Malaca
22 de Junho  
180
86.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Malaca
23 de Junho  
184
87.
A D. João III (Portugal)
Malaca
23 de Junho  
184
88.
Aos Pe. Paulo Camerini e António Gomes (Goa)
Malaca
23 de Junho  
185
89.
Instrução ao noviço João Bravo (Malaca)
Malaca
23 de Junho  
186
90.
Aos seus companheiros residentes em Goa
Kangoshima
5 de Novembro 
187
91.
Aos PP. Gaspar Barzeu, Baltasar Gago e Ir. Domingos Carvalho (Goa)
Kangoshima
 5 de Novembro
200
92.
Ao Padre Paulo Camerini (Goa)
Kangoshima
5 de Novembro
200
93.
Ao P. António Gomes (Goa)
Kangoshima
5 de Novembro
201
94.
A D. Pedro da Silva (Gov. Malaca)
Kangoshima
5 de Novembro
204
1551
95.
Ao P. Francisco Pérez (em Malaca)
Singapura
24 de Dezembro
205
1552
96.
Aos seus companheiros da Europa [jesuítas]
Cochim
29 de Janeiro
206
97.
Ao P. Inácio de Loyola
Cochim
29 de Janeiro
216
98.
Ao P. Simão Rodrigues
Cochim
30 de Janeiro
219
99.
A D. João III
Cochim
31 de Janeiro
221
100.
Ao Pe. Paulo Camerini (Goa-Índia)
Cochim
4 de Fevereiro
224
China - Introdução aos escritos 101-137
225
101.
Patente e Instrução ao P. Belchior Nunes Barreto
Goa
29 de Fevereiro
226
102.
Ao P. Gonçalo Rodrigues (Em Ormuz)
Goa
22 de Março
227
103.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Goa
27 de Março
229
104.
Ao P. Belchior Nunes Barreto (Em Baçaim)
Goa
3 de Abril
230
105.
Patente e Instrução para o P. Barzeu
Goa
6 de Abril
231
106.
Cédula de sucessão do Vice provincial por morte
Goa
6 de Abril
233
107.
Ao P. Simão Rodrigues ou reitor do colégio de Lisboa (Portugal)
Goa
7 de Abril
234
108.
Ao P. Simão Rodrigues (Portugal)
Goa
 8 de Abril
237
109.
A D. João III  (Portugal)
Goa
8 de Abril
239
110.
Ao P. Inácio de Loyola (em Roma- Itália)
Goa
9 de Abril
241
111.
Nomeação do procurador M. Alves Barradas
Goa
12 de Abril
243
112.
Mandato ao Pe. Gaspar Barzeu
Goa
6/14 de Abril
245
113.
Ao P. Alfonso Cipriano (em Meliapor)
Goa
6 / 14 de Abril
246
114.
Instrução I ao P. Barzeu sobre administração temporal
Goa
6 / 14 de Abril
247
115.
Instrução II ao P. Barzeu sobre governo
Goa
6/14 de Abril
250
116.
Instrução III ao P. Barzeu sobre humildade
Goa
6/14 de Abril
251
117.
Instrução IV ao P. Barzeu sobre o modo de proceder
Goa
6/14 de Abril
252
118.
Instrução V ao P. Barzeu sobre evitar escândalos
Goa
6/14 de Abril
258
119.
Ao P. Gaspar Barzeu
Cochim
24 de Abril
259
120.
Instrução ao P. António de Herédia
Cochim
24 de Abril
262
121.
Libelo suplicatório ao vigário de Malaca João Soares
Malaca
Junho
264
122.
A Diogo Pereira
Malaca
25 de Junho 
265
123.
Ao P. Gaspar Barzeu (Em Goa)
Malaca
13 de Julho
266
124.
Ao P. Gaspar Barzeu
Malaca
16 de Julho
267
125.
Ao P. Gaspar Barzeu
Singapura
21 de Julho
268
126.
Ao P. João da Beira    (em Malaca)
Singapura
21 de Julho
270
127.
Ao P. Gaspar Barzeu  (Goa)
Singapura
22 de Julho
271
128.
A João Japão     (em Malaca)
Singapura
22 de Julho
271
129.
A Diogo Pereira (Malaca)
Singapura
22 de Julho
272
130.
Mandato ao Pe. Francisco Pérez (Malaca)
Sancião
22 de Outubro
274
131.
Mandato ao Pe. Francisco Pérez
Sancião
 22 de Outubro
274
132.
A Diogo Pereira (Malaca)
Sancião
25 de Outubro
276
133.
Ao P. Gaspar Barzeu (Goa)
Sancião
25 de Outubro
277
134.
Mandato ao Pe. Francisco Pérez (Malaca)
Sancião
12 de novembro
279
135.
Mandato ao Pe. Francisco Pérez
Sancião
12 de novembro
279
136.
A Diogo Pereira (Malaca)
Sancião
12 de novembro
281
137.
Aos padres. Pérez (Malaca) e Barzeu (Goa)
Sancião
13 de novembro
282


Sobre a publicação no Brasil: "...cartas e outros es­critos de S. Francisco Xavier, recolhidos e autenticados na edição crítica da Monumenta Historica Societatis Iesu com o título Epistolae S. Fran­cisci Xaverii aliaque eius scripta, Roma 1944-1945 levada a cabo por G. SCHURHAMMER, S.I. e I. WICKI,S.I.
A partir dessa edição crítica, já existia entre nós uma pequena seleção de Cartas e escritos de S. Francisco Xavier, Porto 1952, orga­nizada por Mário Martins, S.I. Completamo-la agora, conservando a magnífica Introdução geral aos escritos do santo, que reproduzimos a seguir. Nessa edição orientava-se o autor pelo seguinte critério: «(Dos escritos em castelhano ou latim) não hesitamos em de­sarticular os períodos longos e embrulhados. Porém, não pusemos em estilo, como antigamente se dizia, o que fora escrito sem pre­tensões literárias de espécie alguma. As cartas não eram nossas. Ficaram, pois, na rudeza primitiva das obras mal desbastadas, às vezes um pouco confusas e sem gramática, mas com a beleza das coisas verdadeiras.
(Os escritos em português) ficaram na sua estrutura antiga, no ritmo dos períodos ou na falta dele. Estavam na nossa língua, não podíamos traduzi-los. Só modernizamos a ortografia. Não substituímos os vocábulos arcaicos. Porém, pusemos, em nota, o significado dessas palavras fora de uso, muito poucas por sinal. E prevenimos, desde já, que nem sempre é fácil entender estas pági­nas ditadas e escritas à pressa» (Mário Martins).
Nós procuramos seguir um critério, nem tão livre quanto aos escritos a traduzir do castelhano ou latim, nem tão rígido quanto aos escritos em original português. Mas, uns e outros, transpomo-los da edição crítica o mais à letra possível, para facilitar pequenos ajustamentos e retoques em edições futuras. Dentro da maior fidelidade, conservando até o próprio giro de frase em que nos chegaram, queremos torná-los facilmente legí­veis a qualquer leitor. Por isso:
– A pontuação não temos especial escrúpulo em aperfeiçoá-la, pois antigamente era pouco cuidada. Até o P. Vieira não olhava muito a isso.
– A concordância gramatical dentro de cada frase, também é afina­da sempre que valer a pena.
– O vocabulário desconhecido é substituído, ou conservado explican­do-o em nota.
Cremos que não deve haver tanta rigidez em reproduzir exatamente a versão primitiva porque já existe uma edição crítica para isso (a da MHSI); além disso, porque a maior parte das cartas não são autógrafas, mas cópias feitas por outros e em diversas línguas. Dos 137 documentos escritos que se conservam de Xavier, são:
– Autógrafos: doc. 4, 5, 7, 8, 9, 11, 51, 97 = 8
Modo como assinava: "Vosso amigo e irmão em Cristo# Francisco#"







– Originais ditados a um secretário (em português, ou castelhano): 3, 46 bis, 56, 57, 62, 68, 69, 77, 81, 82, 91, 96, 99, 100, 104, 106, 107, 110, 112, 113, 118, 125, 126, 128, 130, 133, 135 = 27
– Cópias em segunda mão (em português, espanhol ou latim): os restantes.
Como dissemos, não pretendemos substituir a edição crítica, difi­cilmente superável e sempre necessária pela extraordinária riqueza de dados que encerra.
É dificilmente superável, como nota Robert Ricard, especialista em História da espiritualidade e das missões portuguesas e espanholas:
«Nunca, a meu parecer, a coleção Monumenta Historica mereceu com tanta justiça o seu nome, como com esta novas edição da cor­respondência de S. Francisco Xavier. Porque estes dois volumes são um monumento no pleno sentido da palavra, um monumento admirável de paciência, de trabalho, de saber e de honradez. Tudo foi buscado, tudo foi feito, tudo foi esquadrinhado e estudado. Não se pode pedir mais a um empreendimento humano» (Arch. Hist. Soc. Iesu 15 (1946) 177).
E sempre necessária, pela sua riqueza de dados, como faz notar o reeditor da obra, Francisco Zurbano, S.I.:
«A cada carta ou documento fazem preceder uma introdução especial com 7 apartados:
I. Bibliografia;
II. Autores que tratam da carta ou seu conteúdo;
III. Textos. Enumeram-se e descre­vem-se os distintos manuscritos da carta e respectiva história e os impressos que derivam dos manuscritos perdidos. Os textos são ordenados cronologicamente e divididos em famílias, examinan­do as relações entre uns e outros. São indicados o amanuense e as vias (ou naus) por onde foi enviada a carta. Estuda-se o papel, a filigrana ou marca de água e as notas dos arquivistas;
IV. Impres­sos: principais coleções onde se edita a carta ou suas traduções;
V. História dos impressos: fontes dos textos impressos e suas mútuas relações;
VI. Dia: indicam-se as datas falsas atribuídas aos manuscritos e fixam-se as verdadeiras;
VII. Declara-se qual dos textos se edita; antepõe-se-lhe um sumário e indica-se no aparato crítico as variantes dos restantes textos. Geralmente publica-se um só texto de cada carta; se possível, o melhor de todos. Se há dois de igual valor, o mais antigo. Os erros do texto corrigem-se, indi­cando a leitura falsa no aparato crítico. Publica-se o texto intacto, pondo unicamente os acentos e sinais de pontuação necessários. As abreviaturas resolvem-se. As lacunas preenchem-se indicando as suas fontes se as há; se não, dá-se razão do que se faz. O que se acrescenta vai entre parêntesis quadrados. O aparato crítico é negativo, quer dizer que, contanto que se não diga o contrário, os outros textos aduzidos no aparato coincidem com o texto editado» (Epistolae S. F. Xaverii… Roma, 1996: I, p. L)".
Francisco de Sales Baptista, S.J.

INTRODUÇÃO GERAL
Na História de Deus, S. Francisco Xavier foi o maior conquistador do Oriente, embora não fosse o primeiro. E o terríbil Albuquerque († 1515), domador de povos, assegurando o policiamento das estradas marítimas e alicerçando o nosso império da Ásia, recebera de Deus uma função quase messiânica: preparar os caminhos asiáticos, para o arauto do Grande Rei.
Sem os portugueses, a vida do santo jesuíta poderia ter sido grande; mas tinha, forçosamente, de ser diferente. E o seu aspecto mais simpá­tico, para nós, consiste, precisamente, nisso – no ritmo paralelo da sua vida com a gesta marítima dos nossos argonautas e mercadores. Neles se apoiava S. Francisco Xavier, sobre o dorso inquieto do mar. Por isso, ao vermos os nossos barcos a transportá-lo, através das ondas indomáveis, recordamos a figura tradicional de S. Cristóvão, a vadear as águas, com o Menino Jesus às cavaleiras.
De fato, Portugal foi o Hércules que o levou, carinhosamente, por todos os oceanos. Ainda mais. Se a ação missionária de S. Francisco Xavier subiu tão alto e abrangeu tão vastos horizontes, é porque ele ia na crista heróica duma vaga que percorria, então, o sul da Ásia, desde a embocadura do Mar Vermelho às costas da China: o desbravamento do paganismo, pelos portugueses, ao longo das rotas marítimas e comerciais, que se iam abrindo.
Quando ele chegou à Índia, já o sol do catolicismo brilhava alto, no céu da Ásia. Frades de S. Francisco, dominicanos, padres seculares, capitães e comerciantes de alma aberta ao ideal cristão, tinham-se espalhado ao longo da costa, desde Ormuz ao canal de Singapura, e mais além.
Foram eles que fundaram igrejas, instituíram misericórdias e ergue­ram hospitais em Ormuz, Goa, Cochim e outras terras. Organizavam-se confrarias, como a de Cananor, e os párocos governavam as suas pa­róquias, melhor ou pior, como em todos os tempos. Mas, havia-os bons. Em Cochim, por exemplo, morou muitos anos o vigário Sebastião Pires, no primeiro quartel de quinhentos, que «nos emsinou e doutrinou asy a nós como a nosas molheres, filhos e servidores, asy bem como compria e era posivell o bem fazer em seu cargo, e asy a toda a outra jemte christãa que na terra vive, e em seu tempo se tornaram muitos christãos».
Em 1510, Afonso de Albuquerque dava um missal grande ao vigá­rio de Ormuz, um tal Frei Pedro. E, dois anos mais tarde, pedia que lhe enviassem um pano da Paixão de Nosso Senhor, para mandá-lo à Etiópia, e que fosse igual ao que tinha ido para Malaca. Ele mesmo, Afonso de Albuquerque, procurou converter o rei de Cochim, alegando todas as razões que podem tornar um homem gentio à fé de Nosso Senhor. Nada conseguiu. Mas a sua atitude marca um estilo português de ação ultramarina, bem diverso do da Holanda ou da Inglaterra.
 Os nossos reis mandavam, para o Oriente, remessas sucessivas de livros piedosos e catecismos – muito antes de João de Barros ter escrito a sua famosa Cartinha para aprender a ler, que tanta influência havia de exercer no catecismo de S. Francisco Xavier.
Aos mosteiros da Índia entregou D. Manuel I uma boa quantidade de obras espirituais e de teologia. Os franciscanos de Cochim, em 1518, receberam bastantes: um Decreto, umas Decretais, uma Vita Christi em latim, outra em português, um Ricardo (talvez alguma obra de Ricardo de S. Vitor), dois Sacramentais, três Evangelhos, quatro Flos sanctorum, as Vitae Patrum, cinco saltérios, a Morte de S. Jerónimo, dez missais romanos, muitos livros de liturgia, três Espelhos de cons­ciência, uma Bíblia, três Sumas de S. Tomás, «trinta e quatro obras em latim», vinte Livros de Horas, em português, sete catecismos, cento e cinquenta cartilhas (cada uma delas com a doutrina cristã) quatro Boscos deleitosos, um Speculum minorum, o De Trinitate, de São Agostinho, etc.
Pouco depois, em 1521, nova remessa, desta vez para Goa, por or­dem de D. Duarte de Meneses: cinquenta cartilhas, cinco Flos sancto­rum e quatro evangelhos – para os moços aprenderem a ler por eles. Foi isto a 2 de Novembro. Pois bem, a 29 de Dezembro do mesmo ano, o número de livros a entregar ao feitor de Goa aumentava notavelmente: eram duzentas cartilhas, cinco Flos sanctorum e trinta e quatro livros de rezar.
Tudo isto serve para explicar como S. Francisco Xavier, ajudado pela graça de Deus, pôde imprimir ao catolicismo, na Ásia, um desenvolvi­mento enorme. É que outros tinham marchado à sua frente, abrindo veredas, através da floresta sombria e pagã, na preparação dos caminhos do Senhor.
S. Francisco Xavier foi o primeiro a entusiasmar-se, generosamente. Goa pareceu-lhe toda cristã: «é uma cidade toda de cristãos, coisa para se ver. Há um mosteiro, com muitos frades, da ordem de S. Francisco, uma Sé muito honrada e com muitos cónegos, além de muitas outras igrejas. É motivo para dar muitas graças a Deus Nosso Senhor ver como o nome de Cristo floresce de tal modo, em terras tão apartadas e no meio de tantos infiéis».
As cristandades espalhavam-se, ao longo da costa, de Ormuz à Indo­nésia. Em Malaca, a centenas de léguas da Índia, escreve o Santo, tinha ele uma bela igreja para pregar e um hospital para dormir. Porém, antes de ele lá chegar, já os portugueses comunicavam as conversões, em massa, das regiões de Macassar, na parte sul da ilha de Célebes, para onde os capitães das nossas fortalezas da Malásia se apressaram a enviar alguns clérigos.
António Galvão, governador das Molucas, à volta de 1536, tudo fizera para implantar o cristianismo nestas ilhas, quando S. Francisco Xavier ainda estava na Itália. Vale a pena deter-nos um pouco, diante desta figura tão rica de soldado, administrador e homem de letras, que fundou um colégio-seminário, para indígenas, em Ternate, e mereceu o cognome de Apóstolo das Molucas.
Conta João de Barros que António Galvão mandou o clérigo Fernão Vinagre conquistar a ilha de Moro. E ele fez muitos cristãos, depois de pacificar a terra. Vendo tão bom sucesso, Galvão «o tornou lá mandar, para ganhar a vontade daquelas gentes e os persuadir se convertessem à Fé de Cristo; o qual, com sua pregação e persuasões, fez muitos mais cristãos, cujos filhos trouxe consigo a Ternate, para se aí criarem entre os portugueses. Os quais António Galvão mandava doutrinar nas cousas da Fé, e ensiná-los a ler e escrever; e para os nossos serem mais seguros com os filhos daqueles homens nobres que tinha como arreféns de sua cristandade e amizade, aos pais, quando os vinham ver, dava peças e dádivas. Pelo que era António Galvão tão acreditado com aquelas gentes, por a justiça e equidade com que procedia com os homens, que entendiam que o Deus que ele adorava era o que se havia de crer e a re­ligião que ele professava se havia de seguir: tanta eficácia tem a virtude e o bom exemplo do que quer incitar ou converter a outros a bem viver.
«Sobre a conversão destes gentios houve outras muitas ocasiões que António Galvão buscou, porque a todos negócios a que mandava, sem­pre encomendava em primeiro lugar o de salvar almas.
«Como foi quando mandou Diogo Lopes de Azevedo, capitão-mor do mar de Maluco […]. Indo Diogo Lopes ao longo daquela costa, assentou paz e amizade com toda a gente dela; e aos moradores de três lugares que se chamam Ativá, Matelo e Nucivel, fez tornar-se cristãos.
«E destas partes trouxe consigo um irmão do Rei de Ternate, que lá andava retraído do tempo de Tristão de Ataíde, que o perseguia; e a Cachil Vaidua, a que D. Jorge de Meneses mandara afrontar, como atrás dissemos.
«Naquele mesmo tempo, vieram a Ternate dois irmãos macassares, homens nobres, que se fizeram cristãos, de que um se chamou António Galvão, como seu padrinho, e outro Miguel Galvão. Estes tornaram à sua terra; e, querendo depois vir visitar seu padrinho, trouxeram certos navios carregados de sândalo e algum ouro e mercadorias, que disseram havia nas suas ilhas e nas dos Celebes, aonde, se os portugueses fossem, se converteriam muitos e fariam proveito em suas mercadorias. Com estes vinham alguns mancebos fidalgos, com intenção de se fazerem cristãos, como de feito fizeram.
«Vendo António Galvão que de um caminho se podiam ganhar al­mas e fazenda, mandou àquelas partes um cavaleiro honrado, chamado Francisco de Castro, e com ele dois sacerdotes.
«Partido Francisco de Castro de Ternate […], soube que aquela [ilha] a que aportou se chamava Satigano, cujo povo e rei eram gen­tios. Assentou logo Francisco de Castro com ele amizade e, para firmeza dela, se sangraram ambos no braço, ao costume daquela terra, e bebeu um o sangue do outro. O Rei se fez cristão daí a poucos dias, e com eles se batizaram a Rainha e um seu filho, e três irmãos do Rei e muitos fidalgos e gente popular; e gastando nisso vinte e dois dias, se partiu Francisco de Castro, deixando a todos muita saudade; e, passando ao longo da ilha de Mindanau, chegou a um rio, ao longo do qual estava uma cidade chamada Soligano, cujo rei se fez cristão, e com ele a Rainha e duas filhas suas, e muitas pessoas outras. Na mesma ilha, se fez cristão o Rei de Butuano (a que chamaram el-Rei D. João o Grande) e o Rei de Pimilarano, que tomou o mesmo nome de D. João; e o Rei de Casi­mino, que se chamou D. Francisco, e assim se converteram as mulheres e filhos destes reis, e muita parte de seus vassalos.
«Querendo Francisco de Castro passar desta ilha à de Macassar, foi-lhe o vento tão contrário, que se houvera de perder, […] e voltou para Ternate com muitos filhos daqueles que se tornaram cristãos.
«Para os quais ordenou e fundou António Galvão, com muito gas­to de sua fazenda, um seminário, que foi o primeiro de todas aquelas partes orientais, em que, criando-se os moços no leite e doutrina cristã, pudessem vir a servir na conversão de seus naturais, meio que, para a reformação de toda a Igreja Católica, o Sagrado Concílio de Trento depois aprovou e escolheu».
No seu Tratado dos descobrimentos, António Galvão fala-nos também disto, numa escassa meia página, e o mesmo faz Diogo do Couto. Infelizmente, diz este, «como os ministros evangélicos eram mui poucos, ficaram estes tenros filhos da Igreja destetados, por não haver quem os fosse sustentando com o leite da doutrina de Cristo e de seu sagrado Evangelho, ficando cristãos só nos nomes». Diogo do Couto escrevia isto muitos anos depois de S. Francisco Xavier também ter pas­sado pelas ilhas da Malásia. Mas, já no tempo do grande jesuíta, havia algumas aldeias espiritualmente um pouco abandonadas, pelo menos em Ambóino, «onde me ocupei, diz ele, em batizar muitas crianças que estavam por batizar, à falta de padres, pois um, que deles tinha cui­dado, morrera havia já muitos dias». Porém, existiam, ainda, lugares inteiros de cristãos.
Quanto ao Japão, não há notícia de nenhum padre que lá tivesse aportado, antes de Xavier. No entanto, já alguns comerciantes portu­gueses tinham chegado àquele arquipélago e falaram certamente da re­ligião cristã, pois trouxeram consigo um japonês, para este se confessar a São Francisco Xavier.
Envolvamos, pois, no mesmo olhar de gratidão, todos estes frades, padres seculares, mercadores e capitães que, antes do grande jesuíta, es­palharam o reino de Deus pelo vasto mundo. E agora, falemos do arauto do Grande Rei, aquele que trouxe às cristandades do Oriente o sangue novo duma nova ordem religiosa e alargaram, na Ásia, os caminhos de Deus, abertos pelos portugueses.
São Francisco Xavier viera ao mundo a 7 de Abril de 1506, numa terça-feira santa. A mãe, D. Maria de Azpilcueta, havia de gostar dessa criança, por ser o último rebento que ela daria ao tronco fidalgo da sua casa. Se ela, então, lesse no futuro, talvez sentisse alguma pena do seu menino, perdido pelo mundo, com os pés sujos da poeira de todos os ca­minhos e levando, nos ouvidos, o barulho de todos os mares.
Porém, D. Maria de Azpilcueta morreu, antes de o filho embarcar nas caravelas portuguesas. Assim, não viu o seu sofrimento nem contem­plou a sua glória, quando S. Francisco Xavier se tornou uma candeia que alumia a Índia toda, conforme escrevia o seu amigo Fr. Vicente de Lagos.
Todos gostavam dele: «se ia a alguma casa e lhe davam de comer, comia; e se gracejavam com ele, gracejava, por se não mostrar hipócrita ou o não terem por escândalo; e quando se queria ir, sempre fazia uma consolação espiritual».
Os testemunhos, neste sentido, sucedem-se uns aos outros, como se os portugueses da Índia concordassem em fazer dele o homem de melhor modo daquele tempo: «não falava com os homens senão com a boca muito cheia de riso, e por bem e boas palavras alcançava deles quanto queria». Isto afirmava Francisco Lopes de Almeida, português de Co­chim. E Cristóvão de Carvalho acentuava o mesmo ponto: com a boca sempre cheia de riso e da graça de Deus. João da Cruz repete a mes­ma frase e recorda o jeito de S. Francisco Xavier para arranjar amigos:
Chegava-se ao pé dum português de mau viver e dizia-lhe: Foão (Fulano), eu vou jantar convosco! E acabava por trazê-lo ao bom caminho.
Em casa dos outros, aceitava o que lhe punham diante. Quando estava só, não comia pão nem bebia vinho. Alimentava-se, então, de peixe e leite azedo, misturado com arroz, ou de arroz simples e mal temperado.
Na Índia, trazia uma cabaia muito velha remendada, um saio e, na cabeça, um barrete muito safado. Deitava-se num catre de couro e gostava muito de rezar de noite. Desta forma, Deus e os homens amavam-no imensamente.
Mestre Francisco Xavier sempre anda buscando trabalhos onde re­ceba martírio, por terras estranhas, escreve Tomás Lobo, em 1548. E deste homem tão cheio de renúncia, pôde afirmar o Pe. Paulo Camerte, ao vê-lo a ponto de embarcar para o Japão: «todos os moços e moças, escravos e escravas ficam por ele perdidos, pela grande saudade que dele têm».
Que densidade humana devia ter este santo, para assim ficar, duma vez para sempre, no coração da gente!
Num romance famoso de Elizabeth Goudge, Green Dolphin Coun­try, o capitão dum barco aventureiro fala com duas crianças (um rapaz e uma rapariguita). Três coisas principais nos tornam superiores a um animal selvagem, diz ele: as terras por onde a vida nos leva; as pessoas com quem lidamos; finalmente, as coisas que a gente nunca pôde ter.
Talvez que este filho do mar e da aventura tivesse certa razão, dentro da sua filosofia. Por quantos caminhos andou, também, S. Francisco Xavier, desde os lados do Cantábrico até às ilhas japonesas! Com quan­tos homens teve ele de falar: reis, santos, professores e filhos do povo, homens de desvairadas gentes, aristocratas, comerciantes e soldados, ado­radores de todas as religiões, intelectuais de culturas estranhas e milená­rias. Enfim, quantas coisas ele nunca pôde conseguir, impotente para salvar toda a Ásia, até Deus o pôr de lado, naquela ilha perdida, em frente da China inviolada! E deste mundo, quantas coisas nem sequer procurou, pobre vagabundo, sem eira nem beira, a caminhar, sempre, para a realização do reino de Deus!
E por tudo isto, foi superior aos outros – por tudo isto e pela graça de Deus.
Talvez pudéssemos dividir as cartas de S. Francisco Xavier em quatro espécies: cartas de trazer por casa, se nos permitem a expressão; geralmen­te curtas, tratam de assuntos caseiros ou de interesse local; cartas-regu­lamentos, cheias de experiência e reveladoras de funda psicologia; estão escritas no estilo de quem tem o direito de mandar, ao modo dum livro de regras (e quase não passam disso): cartas de amizade – decerto as mais belas, como documento humano; finalmente, as cartas que chamaremos de tendência ecumênica, quer pela vasta universalidade dos seus proble­mas e notícias, quer por se dirigirem a um público numeroso (jesuítas da Europa) ou a pessoas de largos horizontes e muita influência (D. João III, S. Inácio de Loiola, etc.), capazes de medidas de grande alcance.
No entanto, qualquer divisão é precária. Conto classificar, por exem­plo, a epístola 99, ao rei de Portugal? Supõe uma funda amizade entre ambos, e nela se apóia, procura igualmente recomendar ao rei alguns dos defensores de Malaca e tem, ao mesmo tempo, o alcance duma comu­nicação destinada a guiar a administração pública, a respeito dalguns portugueses do Oriente. Como tudo o que é humano, não podemos clas­sificá-la rigorosamente.
Contudo, em quase todas as cartas de S. Francisco Xavier, escutamos uma nota dominante, enquanto as outras se fazem ouvir, unicamente, em surdina. É essa nota dominante que permite agrupar estas páginas em classes mais ou menos homogêneas.
Do primeiro tipo, podemos isolar as cartas escritas a Francisco Man­silhas e não são poucas. Ao todo, 26, e todas elas na nossa língua. Embora São Francisco Xavier o despedisse da Companhia, em 1548, Francisco Mansilhas († 1565) conservou-as, piedosamente, até que morreu, em Cochim.
São Francisco Xavier não passava bem sem as notícias de Mansilhas e do seu apostolado e pede-lhe, frequentemente, que lhe escreva. Fora disto, pouco implora para si, pobre homem perdido na selva imensa dos povos asiáticos. Porém, deixa cair estas palavras humaníssimas: Lem­brai-vos de mim, pois vós nunca me esqueceis.
Fala de tudo: dinheiro a dar ou a receber, ordens para o meirinho co­brar um fanão (25 réis do tempo) de multa, por cada mulher que ande a beber vinho de palma, notícias de dois sombreiros enviados pelo Pe. Francisco Coelho, pedidos do papel que ficou na caixa principalmente conselhos e normas de apostolado. E ameaças, também. Alguns patangatins e um tal António Fernandes, o Gordo, queriam pôr fora os habitantes de Cael Velho, para eles irem lá viver? Pois bem! Tanto ao Gordo como aos patangatins «lhes mando eu que não vão povoar Cael Velho, senão que eles mo pagarão muito bem pago»! E que os patan­gatins aproveitem melhor o dinheiro que gastam em bailadeiras mal gastado.
Mateus, intérprete e catequista, que seja bom filho, se quiser boa paga dele, Xavier! E Mansilhas dê-lhe tudo o que precisar e trate-o «com, muito amor, que assim fazia eu, quando comigo estava, por amor que não me deixasse». E que fale alto, ao povo! De contrário, não o ouvem.
Quanto a Francisco Mansilhas, tenha paciência com essa gente rude e faça de conta que já está no purgatório. Trate o povo com muito amor, porque, continua ele, se o povo vos ama e está bem convosco muito serviço fareis a Deus. E batize todos os meninos, já que os gran­des não querem ir ao paraíso.
A litania de recomendações continua, pelo mesmo estilo: diga a Ma­nuel da Cruz que não deixe os cristãos das suas aldeias beber vinho de palma e a Francisco Coelho que venha cedo que o digo eu. As crianças, em suas orações, se lembrem de rogar a Deus por mim e Nicolau Barbosa proíba aos cristãos arrenegados de ir pescar chancos, pois não é justo que tais homens gozem do fruto do nosso mar.
Que lhe mandem o seu caixãozinho, decerto algum caixote com coisas suas, e que os cristãos da Pescaria tenham cuidado, perseguidos como andavam! Ponham vigias, pois tenho muito medo que de noite, com este luar, venham a esta praia e roubem a estes cristãos. Poucas vezes a lua branca, a boiar na noite calma, fez sofrer tanto um coração humano!
De 23 de Fevereiro a 7 de Abril do ano seguinte, Xavier escrevera a Francisco Mansilhas nada menos de 26 cartas, um record de respeito, para um homem que tinha sobre os ombros boa parte da evangelização da Índia! E em todas elas, escritas umas atrás das outras, ofegantes e an­siosas, revela-se a forte e afirmativa personalidade deste jesuíta ardente e bom, incapaz, como diria Newman, de guiar os outros pelo canal da insignificância, entre Cila e Caríbdis, entre o sim e o não.
Passemos, agora, às cartas-regulamentos. Temo-las, por exemplo, nas instruções ao Pe. Gaspar Barzeu, a António Herédia e a um noviço chamado João Bravo.
De manhã, recomenda ele a João Bravo, deveis meditar meia hora, seguindo as meditações dos Exercícios Espirituais. E acabai tudo com a renovação dos votos religiosos (pobreza, obediência e castidade). Depois de jantar, repousareis um pouco e «tornareis por espaço de meia hora, ou uma, a meditar e repetir a mesma contemplação que contemplastes pela manhã». À noite, «depois de cear, recolhendo-vos em alguma parte, exa­minareis vossa consciência das coisas que, aquele dia, por vós passaram, acerca dos pensamentos, falas e obras que no presente dia tendes errado contra Nosso Deus e Senhor, examinando vossa consciência com muita diligência, como se vos houvésseis de confessar das culpas que aquele dia fizestes, e de todas elas pedireis a Nosso Senhor Jesus Cristo perdão, prometendo a emenda de vossa vida; e no fim, direis um pai nosso e uma ave-maria; e depois disto acabado, vos deitareis, ocupando o pensamento como vos haveis de emendar o dia seguinte». Vencei-vos em tudo, procurai as humilhações e abatimentos, pois nesta mínima Companhia não perseveram os soberbos, por serem gente que nunca acompanhou bem com ninguém.
Para Gaspar Barzeu, o estilo é outro – menos íntimo. São normas seguras de vida missionária, ao todo umas trinta e sete:
Antes de tudo, que Mestre Gaspar atenda a Deus e à sua consciência. Ensine a doutrina aos meninos, forros e escravos, confesse, pregue e visite os presos da cadeia. E dê esmolas aos irmãos da Misericórdia, para eles distribuírem pelos Pobres. Com os amigos, porte-se como se eles, um dia, viessem a ser inimigos – e assim, terá mais cuidado consigo. Repreenda só em particular as pessoas que têm mando na terra. E por quê? Porque «estes homens são muito perigosos, em lugar de se emendar se fazem piores, quando os repreendem publicamente. E sejam estas repreensões quando com eles tiverdes amizade: e se for muita a amizade, repreendê-los-eis muito, se pouca for, pouco os repreendereis. De maneira que as repreensões serão com o rosto alegre, e palavras mansas e de amor, e não de rigor».
Na confissão, Gaspar Barzeu não deve meter medo, antes que eles acabem de dizer seus pecados. Nessa altura, fale-lhes da misericórdia de Deus e faça leve o que, bem considerado, é muito grave, e isto até que acabem de confessar. E se algum tiver vergonha, por serem grandes os seus pecados, diga-lhes que há outros muito maiores e acrescente que, também ele, foi pecador.
Seja muito amigo do vigário: «e quando, chegardes lhe beijareis a mão, posto de joelhos no chão, e com sua licença pregareis e confessareis, e ensinareis as demais obras espirituais, e por nenhuma coisa quebrareis com ele; e trabalhai muito de ser seu amigo, a fim de lhe dardes os exer­cícios, ao menos os da primeira semana». E ao capitão, obedeça igual­mente: «por nenhuma coisa quebrareis com ele, ainda que vejais que faz coisas mui mal feitas. E quando sentirdes que ele é vosso amigo, com muito amor, doendo-vos de sua alma e honra, com muita humildade e com rosto alegre, lhe direis o que de fora se diz dele; e isto quando virdes que pode aproveitar».
Aos que tiverem vocação para a Companhia de Jesus, ensine-os a ser­vir na cadeia ou no hospital da Misericórdia. Enfim, experimente-os de qualquer modo. Porém, olhe às forças espirituais e, segundo a virtude que neles virdes, assim sejam as mortificações. Que elas não sejam maiores que a virtude e perfeição daquele que as há de fazer.
Nas confissões, Gaspar Barzeu encontraria gente de tal maneira me­tida neste mundo que pouco lhe aproveitaria falar no amor de Deus ou nas penas do inferno – carecem deste temor, assim como carecem de amor. A tais pessoas, diga-lhes que Deus bem pode castigá-las nesta vida, encurtando-lhes os anos, mandando-lhes doenças, tirando-lhes honras e riquezas ou fazendo-as padecer naufrágios e o mais pelo mesmo estilo. Ai de nós! Muitos se afligem mais com isto do que com o inferno ou o amor de Deus!
Seria longo acompanhar S. Francisco Xavier, através destas páginas, em que o coração do homem tantas vezes aparece, na nudez da sua mi­séria. Algumas pessoas, declara ele, portam-se mal e convidam o padre para jantar. Querem ter a sua amizade, a fim de porem um cadeado na boca do sacerdote. Desses tais, nada receba, a não ser água, fruta ou coisas assim de nenhum valor. E se enviarem presentes a casa de Barzeu, este que os leve ao hospital ou à cadeia: «Saiba o mundo que estas coisas pequenas que tomais as dais, porque desta maneira se edificarão mais que não nas tomando, porque tomam por afronta, quando são coisas pequenas, não tomar o que vos dão: porque os portugueses da Índia escandalizam-se não lhes tomando nada».
Sobretudo, abra os olhos, à sua volta, estude os costumes dos homens, veja como eles procedem e o que fazem. Numa palavra, leia no livro da vida: Isto é ler por livros que ensinam coisas que, em livros mortos escritos, não achareis. Converse com os pecadores, se quiser aprender, pois eles são os livros vivos por que haveis de estudar. E, por fim, esta frase digna do séc. XX: a experiência vos ensinará, pois é mãe de todas as coisas.
Mais comoventes são as cartas de amizade, uma delas dirigida a Diogo Pereira, ao vê-lo arruinado por não o deixarem partir, na em­baixada da China. Obriguei-vos a gastar mais de quatro mil pardais, escreve o Santo, e agora não tenho coragem de olhar para vós. O que me salva é ter sido boa a minha intenção. Se não fosse isso, de paixão morreria!
Esta nota profundamente humana, ouvimo-la um pouco por toda a parte, sobretudo na carta para Joane [João] Japão, meu filho. De fato, S. Francisco Xavier era capaz de se interessar pelos outros, dum modo extraordinário. Nada lhe agradava tanto como ler as notícias que chega­vam nas naus [barcas] da Índia. E de Malaca, suplicava aos padres de Goa que lhe contassem tudo miudamente: «dos Irmãos que vierem de Portugal me escrevereis quantos são, e quantos padres vêm e quantos leigos, e se vêm alguns pregadores e quem são: tudo muito largamente me escreve­reis em duas ou três folhas de papel».
Gravura de  São Francisco Xavier escrevendo cartas.
Ele mesmo afirmara que, para Inácio,
só escrevia de joelhos
Dói-lhe estar longe de S. Inácio de Loiola. Ao receber, em Malaca, uma carta do seu antigo companheiro de Paris, larga-se a chorar, lendo esta linha carregada de saudade: Todo vosso, sem poder esquecer-me em tempo algum, Inácio.
Era assim para todos. Pedia notícias dos frades de São Francisco de Assis e de São Domingos. Preocupava-se com a pobreza duma rapariga de boa família, que morava em Goa, em companhia da mãe, viúva. E quando Cristóvão de Carvalho, mercador rico e muito considerado, lhe falou em tomar estado, pois já estava farto de correr mundo, lembrou-se, logo, da filha de D. Violante Ferreira e pediu ao comerciante para casar com ela. E com efeito, numa carta para dois jesuítas de Goa, acrescenta: «rogo-vos que façais de maneira por que se acabe este casamento, porque receberei eu nisso muito gosto e contentamento em ver esta órfã, tão boa filha, amparada e nossa mãe descansada».
Não nos deteremos muito nas epístolas a que poderemos chamar ecumênicas, onde S. Francisco Xavier, encarando os grandes problemas da expansão católica na Ásia, revela o máximo da sua envergadura, rasgando, aos nossos olhos, largos horizontes.
Nessas páginas, surge-nos como um raro conhecedor da psicologia coletiva das nações asiáticas, o que faria dele, noutras circunstâncias, um bom especialista das questões internacionais do Oriente. S. Francisco Xavier escrevia as suas cartas, sobre o Japão, há cerca de quatrocentos anos ( em 1952). Desde então, muita água correu debaixo das pontes. Contudo, os seus modos de ver, acerca do temperamento e caráter dos japoneses, permanecem ainda de pé. A uma enorme distância, ele descobriu as possibilidades imensas daquele povo.
Seria bom que os portugueses de hoje lessem por extenso estas cartas enviadas da ilha de Moçambique, das terras da Índia, do formigueiro da Malásia, do arquipélago japonês e das praias da China – a bela adormecida.
Tais cartas lembram, por vezes, as de S. Paulo, ditadas e escritas apressadamente, de linguagem comprimida, um pouco embrulhada e sem transições. É um estilo objetivo, que diz logo o que tem a dizer, mergulhando diretamente no objeto, sem desperdício de palavras. Re­cordamos, então, esta súplica dum poeta espanhol: Pensamiento, dame el sentido íntimo de las cosas. Que mi palabra sea la cosa misma…
S. Francisco Xavier revela-se fundamentalmente incapaz de compor um discurso acadêmico. Neste ponto, só temos de dar graças a Deus, em­bora os manes de Maffei e Torsellini sofram com isso, e prefiram, como é natural, as suas bem penteadas versões latinas das cartas que Xavier mandou do Oriente.
O leitor ainda não se esqueceu desta frase que James Saxon Childers pôs nos lábios dum criado universitário de Oxford: «Os americanos são impacientes. Chegam aqui falando de diplomas e em busca de uma edu­cação esquematizada. Querem saber quando começam as aulas, quais os livros adotados… Nada disso temos aqui. Oxford, Senhor, é uma nor­ma de vida que não se adquire nas aulas ou em estudos convencionais. Vai-se absorvendo até que se aprende o que é bom e verdadeiro».
Como em Oxford, também não encontramos metódicos esquemas nas epístolas de S. Francisco Xavier nem, muito menos, sistemas doutrinais de espiritualidade. É uma atmosfera que se respira, até que se aprende o que é bom e verdadeiro.
Vale a pena percorrer tais cartas, ao menos as que estão em português, mais de metade. Escutamos a linguagem dos soldados e navegadores, com quem Xavier falava, nas viagens interminaveis e no recinto das cidades amuralhadas. Ouvimos dizer que os portugueses são muito inclinados a tudo o que é piedoso e bom e que, na Índia, são os senhores do mar.
Maus? Sim, também os havia, naquele abandono em que viviam. Era preciso sabê-los levar, porque, com estes homens da Índia, por rogos muito se acaba e por força nenhuma coisa. Ainda assim, ele e todos os da Companhia de Jesus deviam imenso a todos os portugueses, pelo muito que lhes queriam. E de Malaca, numa carta para D. João III, Xavier escreve estas linhas sintéticas:
«E certo, Senhor, que posso dizer com verdade que nunca homem veio à Índia que tantas honras e mercês recebesse dos portugueses da Índia como eu».
Queria que os japoneses, idos para Goa, ficassem a gostar tanto da nossa gente como Paulo da Santa Fé, que tão boas notícias semeou, no Japão, das muitas virtudes dos portugueses. Por conseguinte, continua ele, tratem muito bem os japoneses, para eles voltarem dizendo tanto bem dos portugueses, como diz Paulo.
Para S. Francisco Xavier, o nosso prestígio e o do Cristianismo era tudo um. O Gesta Dei per francos podia adaptar-se deste modo: Gesta Dei per lusitanos (Os feitos de Deus pelos portugueses).
Sofria muito, por não ter gente para tão grande seara e escutamos, ainda hoje, nas suas cartas, o grande clamor da sua voz, que tentava chegar às universidades européias. Vivia, nele, uma forte recordação da Sorbona.
Gostava dos japoneses, por serem inteligentes e letrados. Mandem--lhe, pois, missionários instruídos e bons dialéticos (sofistas, diz ele), que possam disputar com os japoneses e saibam alguma coisa de astro­nomia. Bem exercitados em sofistaria, poderiam pregar nos centros universitários do Japão. Era uma «gente muito avisada e discreta, achegada à razão e desejosa de saber».
Sofrera bastante, para chegar àquelas ilhas dos confins do mundo, numa viagem perigosa, de grandes tempestades, de muitos baixos e de muitos ladrões. Partiam três navios e, se voltavam dois, já era ter sor­te! Por isso, recomendara-se às orações da benta Companhia do Nome de Jesus e abalara sobre o dorso incerto do mar sem misericórdia. Mas, fizera-o por inspiração de Deus: Nosso Senhor quis dar-me a sentir dentro em minha alma ser ele servido de ir a Japão.
Fora, sobretudo, Paulo de Santa Fé que o ajudara a compreender, fundamente, a alma tão rica da Terra dos Crisântemos, onde também desabrochava a flor sangrenta do haraquiri.
Num esforço maravilhoso para pôr os japoneses em contato com o coração da Catolicidade, Xavier envia alguns deles à Índia, para daí passarem a Lisboa e a Roma:
«Lá vão Mateus e Bernardo, japonês de nação, os quais vieram comigo de Japão à Índia, com intenção de ir a Portugal e a Roma, a ver a Cris­tandade, para depois, tornando a suas terras, dar fé do que viram, aos japonês».
De nada se esquece e revela, até, um sólido sentido comercial, em proveito do próximo. O navio que vier com os missionários, de Goa para Sacai, escreve ele, não traga mais de oitenta bares de pimenta. Se ela for pouca, «hão de vendê-la muito bem no Japão e ganharão muito dinheiro».
Conhecia as rotas dos mares e avisou o rei de Castela, para não man­dar os barcos por tal ou tal parte, na costa do Japão, porque perdiam-se nas restingas que lá havia. Inspiravam-lhe compaixão tantos naufrá­gios e escrevia: tenho piedade. Aqui está uma frase que o define.
Um dia, sentiu que devia abalar para a China, desamarrado de todo favor humano. E escreve ao Pe. Gaspar Barzeu: «Nosso Senhor nos ajunte na glória do paraíso, que será com maior descanso do que nesta vida temos». Lá morreu, às portas de Cantão, na madrugada de 3 de Dezembro, de 1552. ...
Na agonia, António de Santa Fé pôs-lhe a vela acesa na mão e «a sua bendita alma partiu-se desta vida, quase sem nenhum trabalho». Meteram-no num caixão de madeira e enterraram-no, como diz Fernão Mendes Pinto, um tiro de pedra acima da praia. E ficaria bem ali. Poucos apóstolos caminharam tanto sobre as vagas inquietas. Era o filho de todos os mares. Mas, ao recordarmos esta cena humilde e meio solitá­ria do enterro dum dos maiores heróis da gesta cristã, através do mundo, sentimos estar bem longe das homéricas pompas dos funerais de Heitor – o domador de cavalos! - Mário Martins, S.J.

(Ainda na Europa)

INTRODUÇÃO AOS ESCRITOS 1-12
D. Francisco de Jassu y Javier, como lhe chamavam no seu meio de nobreza, nasceu em 1506 no castelo de Xavier, quando o reino de Navarra era ainda inde­pendente. Era o quinto filho do Dr. João de Jassu e de D. Maria de Azpilcueta, senhores dos domínios de Xavier y Idocin. Em 1525 estudava já na Universidade de Paris, onde em 1530, juntamente com o seu amigo Pedro Fabro obteve o grau de Mestre em Artes (Filosofia). Três anos mais tarde, Inácio de Loyola, que pouco antes se lhes juntara como companheiro de estudos, conquista-o para o seu grupo de amigos e leva-o a uma profunda transformação espiritual que lhe faz mudar o rumo de vida. A 15 de Agosto de 1534, com Inácio e mais 5 amigos (Pedro Fa­bro, Simão Rodrigues, Diogo Laínez, Alfonso Salmeron e Nicolau Bobadilla), na capela do santuário de Montmartre, fazem voto de perpétua castidade para serem sacerdotes, voto de pobreza para viverem à maneira de Jesus e voto de irem para a Terra Santa «continuar o que falta à missão de Cristo» como diria S. Paulo. Em Março de 1535, Inácio, por motivos de saúde tem de passar uns tempos por Es­panha, antes de partirem para a Terra Santa, e Xavier entrega-lhe uma carta para seu irmão João de Azpilcueta em que lho recomenda e mostra quanto deve a este grande amigo (Xavier-doc. 1).
Em princípios de 1537, o grupo de Paris agora aumentado com mais três companheiros (Jayo, Codure e Broet) parte para Veneza, onde já se encontrava Inácio regressado de Espanha e, enquanto esperam embarque para a Palestina, ali mesmo recebem todos a ordenação sacerdotal que tanto desejavam, a 24 de Junho. Como, porém, ao longo de todo o ano 1537-38, por causa da guerra com os turcos, não houve passagem para a Terra Santa e eles tinham prometido no seu voto que, se lhes não fosse possível realizar esse sonho no prazo de um ano, se iriam oferecer ao serviço do Vigário de Cristo, assim o fizeram. Em Abril de 1538 partiram para Roma e puseram-se à disponibilidade do Papa. Este começou logo a dispor deles, mandando dois a Sena na Quaresma de 1539, e preparava-se já para destinar outros a diversas missões. Prevendo a dispersão de todos, entraram em deliberações sobre que organização dariam ao grupo, para além da amizade e ideal que os unia. Já tinham voto de castidade para serem sacerdotes, já tinham voto de pobreza para viverem à maneira do Senhor, deliberaram ligar-se também por voto de obediência a um Superior para se organizarem em instituto (Xavier-doc. 2).
Redigido um Ideário ou Regra constitucional do que pretendiam instituir, apresentaram o projeto a Paulo III que o aprovou provisoriamente de viva voz em 3 de Setembro de 1539. Continuando a dispor do grupo, enviou Salmeron e Codure à Irlanda e, a pedido do Rei de Portugal D. João III, destinou Simão Rodrigues e Bobadilla às missões do Padroado português no Oriente. À última hora, porém, impedido Bobadilla de fazer viagem por doença, foi substituído por Xavier que logo se prontificou. Foi então que, antes de partirem, assinaram uma Declaração em que delegavam nos companheiros que se pudessem congregar em Roma a decisão de tudo o que interessasse à Companhia de Jesus (Xavier-doc. 3).
E, para quando o Instituto fosse oficialmente aprovado por Bula papal, deixou também Xavier uma Declaração de estar por tudo o que legislassem legitimamen­te os companheiros que ficavam, juntou-lhe em carta fechada o seu voto para a eleição do futuro Superior Geral e redigida a fórmula dos seus Votos de profissão religiosa (Xavier-doc. 4).
Partiu de Roma na comitiva do embaixador de Portugal e, ao parar em Bolo­nha, escreveu dali a Inácio a dar conta de recados que levava para aquela cidade (Xavier-doc. 5).

Depois de longa viagem por terra, através dos Alpes, França, norte de Espa­nha, sem passar pela família, chegou a Lisboa onde já se encontrava Simão Ro­drigues que partira mais cedo por mar. Da sua atividade sacerdotal em Lisboa, enquanto esperava naus para a Índia, escreveu cinco cartas (Xavier-doc. 6; 7; 9; 11; 12), além de outras duas ao seu famoso parente, Prof. de Direito na Universidade de Coimbra, Dr. Martin de Azpilcueta, mais conhecido por Doutor Navarro, que o desejava ver (Xavier-doc. 8 e 10).

ÍNDIA


INTRODUÇÃO AOS ESCRITOS 13-51
Depois de longos meses de espera em Lisboa (Junho-Abril) Xavier embarca para a Índia a 7 de Abril de 1541, precisamente no dia em que fazia 35 anos. Por conveniência para a Missão, entendeu-se que era melhor ficar Simão Rodrigues em Portugal a preparar mais missionários para o futuro e ir apenas ele. Pensava ele que ia apenas abrir caminho a novos missionários jesuítas. Mas, na despedida, com grande surpresa sua, o Rei entrega-lhe 4 Breves pontifícios em que o Papa o nomeia Núncio apostólico para todo o Oriente, lhe confere todos os poderes que para isso necessita e o recomenda a todos os reis cujos países vier a visitar (cf. Xavier-doc. 121).
Com ele, partiram apenas dois candidatos a jesuítas: Micer Paulo Camerino, sacerdote italiano, e Francisco Mansilhas, colega de estudos em Paris. A primeira paragem foi na ilha de Moçambique, onde tiveram de invernar para tratar dos doentes e esperar monção para a armada prosseguir. Dali escreveu as primeiras notícias da viagem aos companheiros de Roma (Xavier-doc. 13).
Deixando na ilha os dois companheiros a tratar dos doentes, tomou uma nau dianteira com Martim Afonso de Sousa, que ia tomar posse de novo Governa­dor da Índia, e chegou a Goa a 6 de Maio de 1542. A primeira visita foi para o Bispo de todo o Padroado missionário do Oriente, a quem apresentou as suas credenciais de Núncio, numa atitude de comovente humildade e total submissão que logo lhe conquistou a amizade. A seguir visitou as outras autoridades civis e eclesiásticas das diversas instituições sociais da cidade, a quem ofereceu a sua cola­boração. Durante os quatro meses que aí passou, à espera de nau para a Missão do Cabo de Comorim a que estava destinado, dedicou-se ao trabalho sacerdotal com doentes, presos, leprosos e, sobretudo, à catequese da população cristã, para a qual acomodou o Catecismo popular de João de Barros (Xavier-doc. 14).
Entretanto aproveitou para escrever três cartas: uma, aos companheiros de Roma, a contar mais pormenores da viagem e da actividade em Goa; outra a Iná­cio a pedir colaboradores para o Colégio de S. Paulo, recentemente fundado pela Irmandade da Santa Fé, para a formação de clero e laicado indígena; e mais outra ao mesmo Inácio a pedir certas indulgências e licenças ao Papa (Xavier-doc. 15-17). Conserva-se também dessa altura um pequeno documento a dar licença a um sacer­dote goês para rezar pelo Breviário novo a Liturgia das Horas (Xavier-doc. 18).
No fim de Setembro de 1542, acompanhado apenas por 3 alunos indígenas do colégio de S. Paulo, como intérpretes e catequistas, parte para o Cabo de Como­rim na ponta sul da Índia, a tomar posse da Missão da Costa da Pescaria, no lado oriental desse Cabo. Ali encontra uma cristandade de 20.000 paravas que, desde a sua evangelização em 1535, estava sem missionários (Xavier-doc. 19).
Como Superior da Missão, passado um ano, volta a Goa, em fins de Outubro de 1543, para recrutar ajuda. Encontra ali os dois companheiros, que entretanto tinham chegado de Moçambique, e destina Micer Paulo a colaborar no colégio de S. Paulo e noutras obras da Irmandade da Santa Fé e Mansilhas a ir consigo para a Missão da Pescaria. Em Goa, pelas primeiras cartas chegadas da Europa, recebe a notícia da aprovação oficial da Companhia de Jesus (Bula de 27.Set.1540) e da eleição de Inácio como primeiro Superior Geral. Imediatamente resolve fazer os seus Votos de profissão religiosa nas mãos do Bispo e escreve uma longa carta sobre a Missão da Pescaria aos seus companheiros (Xavier-doc. 20).
Regressando com Mansilhas à Costa da Pescaria, distribuídos ambos por distintos lugares e surpreendidos por guerras entre os senhores da região, desen­volvem imensa actividade de evangelização e apoio às populações, relacionando-se apenas por correspondência quase diária (Xavier-doc. 21-44).
Nas guerras da região, entre os senhores da costa da Pescaria (oriental) e da costa de Travancor (ocidental), ambos os beligerantes procuraram apoio dos por­tugueses por mediação de Xavier. O Governador acabou por favorecer os senhores de Travancor e Coulão aliados. Estes, agradecidos a Xavier, deixaram-no evange­lizar à vontade os macuas da costa de Travancor, com tal sucesso que em pouco tempo batizou 10.000 novos cristãos e teve de pedir ajuda a Mansilhas que vinha a Goa receber a ordenação sacerdotal (Xavier-doc. 45).
Entretanto, o rei de Jafna (norte de Ceilão) tinha massacrado uma recente cristandade dos franciscanos na ilhazita de Manaar, martirizando até um irmão também cristão e tentando matar outro favorável aos cristãos, que era o rei le­gítimo. Xavier, ao saber estas notícias, deixou Travancor e foi a Goa pedir ao Governador uma expedição militar contra o tirano usurpador. Fazendo escala em Cochim, encontrou ali o Vigário Geral Miguel Vaz, prestes a embarcar para Por­tugal a pedir ao Rei mais protecção para as Missões, e entregou-lhe quatro cartas: uma para o Rei e outra para Simão Rodrigues a recomendar-lhes o Vigário Geral; e duas para Roma, a Inácio a pedir indulgências do Papa e mais missionários, e aos companheiros a contar, além destas notícias de Travancor e Ceilão, as grandes esperanças de cristandade em Macassar (Celebes, Indonésia) acabadas de receber pelos marinheiros portugueses (Xavier-doc. 46-49).
Xavier, vendo adiar e talvez frustrar a expedição militar contra Jafna, seduzido pelas notícias sobre Macassar, escreveu, a Mansilhas, que andava em discernimen­to se era vontade de Deus que fosse explorar o Extremo Oriente (Xavier-doc. 50).
E, de facto, fazendo uma última ronda pelas fortalezas portuguesas a pedir mais protecção militar às Missões, parou uns tempos no pequeno santuário do martírio de S. Tomé Apóstolo, perto de Meliapor, a pedir luz para tal discernimento. Foi de lá que escreveu aos companheiros de Goa a comunicar a decisão (Xavier-doc. 51).

EXTREMO ORIENTE


INTRODUÇÃO AOS ESCRITOS 52-81
Comunicada, do santuário de S. TOMÉ Apóstolo (Meliapor), aos compa­nheiros de Goa, a decisão aí tomada de ir explorar as esperanças que se abriam ao cristianismo em Macassar (Celebes), Xavier segue viagem para Malaca em fins de Agosto de 1545, para ali esperar nau que o leve ao Extremo Oriente.
Rota da Ìndia às Molucas
Nos três meses de espera em MALACA, recebe a notícia de que D. João de Castro era o novo Governador da Índia e com ele tinham chegado mais 3 mis­sionários jesuítas: Criminali, Lancillotto e Beira. Escreve aos companheiros da Europa a contar a viagem e projectos que o trouxeram a Malaca; envia aos com­panheiros de Goa uma Instrução que fez para os catequistas das Missões jesuítas; e escreve-lhes uma carta em que destina Criminali e Beira à Missão da Pescaria e Lancillotto ao colégio de Goa, informando-os de que, não lhe sendo possível ir a Macassar (Celebes), irá às Molucas (Xavier-doc. 52-54).
Em meados de Fevereiro de 1546 chega, finalmente, a Amboino nas MOLU­CAS e logo começa a visitar as sete aldeias vizinhas já cristãs e a explorar as ilhas mais próximas. Entretanto chega àquele porto uma armada portuguesa de oito na­vios com os sobreviventes da expedição espanhola de Rodrigo López de Villalobos que se intrometera naquela zona, e Xavier dedica-se de alma e coração a atender tantos marinheiros. Quando a armada regressou a Goa, entregou-lhe três cartas: uma para os companheiros da Europa a dar impressões das Molucas e projectos de ir à perigosa ilha de Moro, onde os cristãos estavam sem missionário; outra para a Índia a chamar Beira e Mansilhas da Pescaria para as Molucas; outra finalmente para D. João III a pedir-lhe a Inquisição para as cristandades de europeus e a reco­mendar dois almirantes beneméritos (Xavier-doc. 55-57). Em Junho de 1546 parte de Amboino para Ternate, onde os portugueses tinham uma fortaleza e muitos ali tinham constituído família com mulheres indígenas. Para esta população cristã mais evoluída, escreveu Xavier uma ampla Explicação do Credo, que usava na sua catequese e recomendou depois aos outros missionários das Molucas e da Índia (Xa­vier-doc. 58). Passados três meses foi à temível ilha de Moro e lá se demorou outros três meses, prestando a ajuda que pôde aos cristãos sem missionário. Regressando a Ternate, passou ainda por Amboino e voltou a Malaca em Abril de 1547.
Em MALACA, enquanto esperava nau para a Índia, soube pelas cartas da Europa que Inácio tinha nomeado Simão Rodrigues Superior Provincial da nova Província de Portugal e suas colónias e que, portanto, também a Missão da Índia dependia agora de Simão. Já sabia que durante a sua ausência tinham chegado a Goa mais 9 missionários jesuítas, e teve a alegria de encontrar três em Malaca que destinou às Molucas (Beira, Ribeiro e Nicolau Nunes). Ali lhe apresentou também o navegador Jorge Alvares três japoneses que trouxera do Japão, recente­mente descoberto, dando-lhe informações tão esperançosas daquele país que logo seduziram o apóstolo.
Seguindo viagem para Goa, fez escala em COCHIM, em meados de Janeiro de 1548, onde estavam naus prestes a partir para Portugal. Aproveitando a ocasião escreveu 5 cartas: uma aos companheiros da Europa a contar a missão nas Molucas e os projectos que começara a sonhar de ir ao Japão; outra a Inácio lembrando-lhe o pedido de indulgências e de mais missionários; a terceira ao Rei a pedir protec­ção mais eficaz às Missões; outra aos mesmo Rei a interceder por problemas da Missão dos franciscanos em Ceilão e recomendando-lhe alguns amigos; finalmen­te outra a Simão Rodrigues a pedir que intercedesse como Provincial junto do Rei a favor das necessidades da Índia (Xavier-doc. 59-63).
De Cochim voltou atrás à Missão da Pescaria, onde despediu Mansilhas por desobediência e convocou para reunião, em Manapar, os novos missionários que ali trabalhavam (Criminali, Morais júnior, Cipriano e H. Henriques), deixando-lhes uma Instrução (Xavier-doc. 64).
Prosseguindo a viagem interrompida, chegou a GOA em princípios de Março de 1548. Ali encontrou, além de Micer Paulo, dois novos missionários (Lancillot­to e Pérez) e mais 4 candidatos a jesuítas que admitiu (Oliveira, Castro, Gaspar Rodrigues e Cosme de Torres que conhecera nas Molucas). Já tinham chegado também, antes dele, os três japoneses que encontrara em Malaca. Como o Go­vernador D. João de Castro estava ausente em Baçaim, continuou viagem para tratar com ele assuntos da já vasta Missão em Goa, Cabo de Comorim, Malaca e Molucas e sobretudo os projectos da expedição missionária ao Japão. Quando se dispunha a embarcar para Cochim a combinar com o seu grande amigo e benfeitor Diogo Pereira esta expedição ao Japão, D. João de Castro, gravemente doente, pediu-lhe para o acompanhar a Goa e ficar com ele. De Goa, enviou Pérez e Oliveira a continuar Missão em Malaca e entregou-lhes uma carta para Diogo Pereira ao passarem em Cochim (Xavier-doc. 65). Enquanto se demorava em Goa, escreveu o pequeno devocionário popular Modo de rezar e salvar a alma, compôs a conhecida Oração pela conversão dos infiéis e assistiu à morte de D. João de Castro em 6 de Junho de 1548 (Xavier-doc. 66-67).
Depois de saudar novos missionários chegados de Portugal (Barzeu, B. Gon­çalves, B. Gago, G. Barreto, L. Mendes e Juan Fernández), Xavier começou a arrumar as coisas das diversas Missões, antes de partir para o Japão. Voltou à Missão da PESCARIA, onde se reuniu mais uma vez com os missionários, entre­tanto aumentados com mais dois (B. Nunes e A. Francisco) e escreveu a Francisco Henriques que trabalhava na outra costa, Travancor (Xavier-doc. 68).
Voltando a Goa, fez escala em COCHIM, onde assinou, com as outras teste­munhas, as últimas vontades que D. João de Castro moribundo lhes tinha confiado para comunicar ao Rei (Xavier-doc. 69).
Uma vez de novo em GOA, encontrou mais missionários entretanto che­gados de Portugal, entre os quais o Dr. António Gomes que Simão Rodrigues imprudentemente designara para reitor do colégio de S. Paulo, que pertencia à Irmandade da Santa Fé e onde os jesuítas eram apenas colaboradores. Xavier, vendo que António Gomes vinha com ideias feitas e não era a pessoa indicada para colaborar pacificamente, pensou logo mandá-lo em vez de Barzeu para Or­muz e reter este em Goa, no colégio, para ficar também a Vice-superior de todas as Missões jesuítas durante a sua ausência. Entretanto lançou mais três estações missionárias confiadas a Lancillotto (Coulão), Belchior Gonçalves (Baçaim) e Cipriano (Socotorá) e voltou ainda uma vez a Cochim para tratar alguns assuntos e despachar correio para a Europa pelas sucessivas naus em monção de partida. Dali escreveu uma série de cartas: a Inácio, em três vias ou correios, para mais segurança, a pedir-lhe mais competente superior dos jesuítas que trabalhavam em Goa, a comunicar-lhe as novas estações missionárias fundadas e a expedição ao Japão (Xavier-doc. 70-72); a Simão Rodrigues, primeiro em duas vias (Xavier-doc. 73-74) e depois, mais amplamente em terceira via, sobre semelhantes assuntos (Xavier-doc. 79), além doutras duas a recomendar pessoas (Xavier-doc. 76 e 78); além disso, entregou ao Vigário Geral Fernandez Sardinha uma Memória de coisas a tratar com o Rei em Portugal (Xavier-doc. 75); finalmente uma carta a D. João III a interceder pela Missão de Fr. João de Vila do Conde e a pedir uma reforma monetária para o velhinho Mar Abuna, bispo resignatário dos cristãos maronitas de S. Tomé (Xavier-doc. 77).
Voltando uma última vez a Goa, achou melhor mandar Barzeu para Ormuz, entregando-lhe uma Instrução missionária, e deixar António Gomes no colégio, mas retirando-lhe algumas responsabilidades que preferiu confiar a Micer Paulo com uma Instrução (Xavier-doc. 80-81).
E depois foi a partida para o Japão…

JAPÃO


INTRODUÇÃO AOS ESCRITOS 82-100
Arrumadas todas as coisas das Missões da Índia , empreendeu Xavier, no dia 15 de Abril de 1549, a viagem para o Japão, levando consigo o P. Cosme de Torres e o Irmão Juan Fernández, além dos três japoneses convertidos, entretanto instruídos no colégio de S. Paulo, batizados e a saber falar bem português.
Ao chegar a MALACA, mandou mais três missionários para as Molucas (Cas­tro, Morais júnior e F. Gonçalves), aos quais entregou uma carta para João da Bei­ra e companheiros que já lá trabalhavam (Xavier-doc. 82). Enquanto esperava na­vio que o levasse ao Japão, escreveu ainda uma série de cartas para a Europa e para Goa, com notícias, pedidos e recomendações: duas a D. João III, a dar conta desta expedição missionária e elogiando os serviços do capitão de Malaca, D. Pedro da Silva, e do feitor da fazenda, Eduardo Barreto (Xavier-doc. 83-87); outra aos com­panheiros da Europa, cheia de esperanças nesta expedição (Xavier-doc. 85); outra a Simão Rodrigues a pedir melhor superior para os jesuítas de Goa (Xavier-doc. 86); duas para Micer Paulo e António Gomes (Goa), a mais longa, a determinar-lhes melhor as respectivas responsabilidades e, a mais breve, a tratar do casamento dum amigo (Xavier-doc. 84 e 88); finalmente uma Instrução para o noviço João Bravo, por ele admitido na Companhia de Jesus em Malaca (Xavier-doc. 89).
A 24 de Junho de 1549 seguiu viagem com os companheiros num junco chinês e chegou a KAGOSHIMA (Japão) a 15 de Agosto do mesmo ano. Pelo navio que em Novembro regressava a Malaca, escreveu aos companheiros de Goa uma longa carta a contar as primeiras impressões e atividades no Japão (Xavier-doc. 90); um breve mandato a chamar para o Japão G. Barzeu, B. Gago e D. Carvalho (Xavier-doc. 91); duas cartas, uma a Micer Paulo e outra a António Gomes, com vários encargos a tratar em Goa e a recomendar dois bonzos japo­neses que iam conhecer a Índia (Xavier-doc. 92-93); finalmente outra ao capitão de Malaca, D. Pedro da Silva, a agradecer as ajudas que lhe deu e a propor está­veis relações comerciais com o Japão (Xavier-doc. 94).



Passados mais de dois anos no Japão, fundando núcleos cristãos em Kagoshi­ma, Hirado, Yamaguchi e sobretudo Bungo, onde ganhou para a Igreja as simpa­tias do poderoso Duque da região, já que em Miyako ficara desiludido da influ­ência do Imperador, Xavier partiu de regresso à Índia em meados de Novembro de 1551. Fazendo escala em Sanchão (China), os mercadores, ali em negócios, de­ram-lhe a ler uma carta clandestina dos prisioneiros portugueses, que sugeriam o envio duma embaixada ao Imperador da China que conseguisse melhores relações com Portugal e os libertasse. Foi uma luz no novo sonho de Xavier. Prosseguindo viagem, enviou de Singapura um recado a Malaca para que lhe conseguissem em­barque nas primeiras naus da Índia (Xavier-doc. 95).
Chegado a MALACA, entregam-lhe todo o correio destes dois anos de ausên­cia, que foi lendo enquanto esperava e durante a viagem  para Goa. Entre as cartas, vinha uma de Inácio, em que instituía a Província da Índia Oriental e o nomeava Superior Provincial de todas as Missões dos jesuítas desde o Cabo da Boa Esperan­ça até à China e Japão excepto a Abissínia.
Foi já nesta condição de Superior Provincial, desligado da jurisdição do de Portugal, que chegando a COCHIM a 24 de Janeiro de 1552, começou a agir. Aproveitando as naus que estavam de partida, escreveu dali 4 cartas: a primeira, para os companheiros da Europa, a contar a entusiasmante experiência do Japão (Xavier-doc. 96); a segunda, para o seu dilectíssimo P. Inácio, a expor-lhe as qua­lidades e virtudes necessárias aos missionários que enviasse ao Japão e a dar-lhe conta do novo projecto da China (Xavier-doc. 97); a terceira, a Simão Rodrigues, retomando o que diz a Inácio (Xavier-doc. 98); e a quarta, a D. João III, recomen­dando-lhe grandes servidores do reino (Xavier-doc. 99). E começando a pôr ordem nos problemas da Província, à medida que se ia informando, antes de prosseguir viagem de Cochim escreveu a Micer Paulo para que despedisse Morais júnior e F. Gonçalves por desobediência ao superior da Missão onde se encontravam (Xavier-doc. 100).

CHINA


INTRODUÇÃO AOS ESCRITOS 101-137

Chegado a GOA em meados de Fevereiro de 1552, começou a preparar tudo para que o Governador mandasse o seu amigo Diogo Pereira como embaixador de relações comerciais a Pekim e ele o pudesse acompanhar como Núncio para abrir caminho aos missionários na China. Para isso, queria deixar resolvidos os principais problemas de Província e assegurar um bom governo dela na sua ausência. Come­çou por enviar, em Fevereiro, Mestre Belchior Nunes Barreto como superior para Baçaim, munido duma Instrução sua (Xavier-doc. 101) e, ao enviar-lhe mais um missionário em Março, destinado à cidade vizinha Thana, mandou-lhe segunda Instrução (Xavier-doc. 104). Ao P. Gonçalo Rodrigues que tinha substituído Barzeu em Ormuz e ao P. Cipriano que mandara para S. Tomé de Meliapor chama-os severamente à ordem nas relações com o clero local (Xavier-doc. 102 e 113). A André de Carvalho, devolve-o a Portugal por motivos de saúde e recomenda-o com elogios, numa carta a Simão Rodrigues (Xavier-doc. 103). Afasta António Gomes para Diu e nomeia Barzeu superior dos jesuítas de Goa, para ficar também Vice--provincial de todas as outras Missões, durante a sua ausência, deixando-lhe para isso uma primeira Instrução (Xavier-doc. 105), juntando-lhe, em envelope cerrado, o nome do sucessor, caso morra antes de ele regressar da China (Xavier-doc. 106). Envia, como procurador a Lisboa e Roma, André Fernandes, acompanhado dos japoneses Mateus e Bernardo que trouxera do Japão, entregando-lhe duas cartas para Simão Rodrigues sobre os problemas de que vai informar os Superiores da Companhia de Jesus (Xavier-doc. 107-108); outra para D. João III a comunicar a próxima expedição à China (Xavier-doc. 109); uma outra para Inácio, a comunicar as medidas que tomou no governo da Província (Xavier-doc. 110). Em Goa, ainda quis deixar oficialmente nomeado um procurador jurista que zelasse pela cobrança das dívidas ao colégio (Xavier-doc. 111) e, depois de dar mandato a Barzeu para despedir António Gomes pelas primeiras naus que partissem para Portugal (Xa­vier-doc. 112), deixou-lhe mais 5 amplas Instruções (Xavier-doc. 114-118).
Arrumadas assim as coisas em Goa, empreendeu a viagem para a China, acompanhado de 4 jesuítas (Gago, Alcáçova, Ferreira e E. da Silva), o intérprete António China e 3 japoneses. De COCHIM, onde fez escala, escreveu ainda a Barzeu expondo-lhe as necessidades dos missionários daquela zona e lembrando--lhe outros recados (Xavier-doc. 119) e deixou uma Instrução a Herédia superior local (Xavier-doc. 120).

Rota de Malaca à Ilha de Sancião na China
Em MALACA, onde chegou em Maio de 1552, começou o calvário que o levaria à morte às portas da China. De facto, inesperadamente, o capitão-mor do mar D. Álvaro de Ataíde, que estava para suceder a seu irmão D. Pedro da Silva como capitão da fortaleza e cidade de Malaca, não gostou da embaixada de Diogo Pereira à China, cativou o leme à sua nau Santa Cruz e não a deixou sair do porto. Seu irmão D. Pedro da Silva, que ainda era o capitão legítimo da cidade, não o conseguindo demover, apresentou a demissão do cargo nas mãos do desembarga­dor Francisco Alvares, para que pressionasse pela justiça o rebelde. Mas em vão. A nau só partiu, tripulada por marinheiros estranhos, ficando o embaixador Diogo Pereira em terra, levando apenas Xavier e alguns mercadores do seu proprietário. O empenho com que lutou Xavier mostra-o a excomunhão que se viu obrigado a pedir ao Bispo que a publicasse oficialmente (Xavier-doc. 121). E o sofrimento com que partiu, mostram-no as cartas seguintes. A primeira, ainda em Malaca, ao seu amigo Diogo Pereira culpando-se de o ter prejudicado tanto nesta aventura (Xavier-doc. 122) e duas a Barzeu em que o volta a interessar pelo casamento dum amigo e lhe desabafa um pouco do que se passou entre os dois irmãos D. Álvaro adversário e D. Pedro amigo a quem tanto deve (Xavier-doc. 123-124).
Em meados de Julho de 1552, partiu de Malaca e fazendo escala em SINGA­PURA escreveu dali 5 cartas: a primeira a Barzeu em que se abre mais sobre o que passou em Malaca (Xavier-doc. 125); a segunda a João da Beira para que se apresse em Goa para regressar quanto antes às Molucas (Xavier-doc. 126); a terceira ainda a Barzeu para tratar assuntos do Japão (Xavier-doc. 127); a quarta a João Japão in­teressando-se por lhe arranjar melhor situação económica antes de regressar ao seu país (Xavier-doc. 128); a quinta ao amigo Diogo Pereira a dizer que vai escrever ao Rei a seu favor (Xavier-doc. 129).
Ao chegar, em fins de Agosto de 1552, a SANCHÃO, porto clandestino dos mercadores na China, a primeira carta é a dar ordens a Francisco Pérez para fechar a Missão de Malaca, sem condições para se desenvolver em paz (Xavier-doc. 130) e uma outra a comunicar-lhe os trâmites que está a tentar para entrar na China (Xavier-doc. 131); outra ao amigo Diogo Pereira a contar também os seus planos (Xavier-doc. 132); outra a Barzeu sobre o governo que lhe encarregou (Xavier--doc. 133); mais duas a Francisco Pérez nomeando-o superior de Cochim quando deixar Malaca e comunicando-lhe o despedimento do companheiro e a desistência dum intérprete (Xavier-doc. 134-135); nova carta ao amigo Diogo Pereira devol­vendo-lhe as credenciais já inúteis que lhes dera o Governador da Índia (Xavier--doc. 136); e a última de todas a Pérez e Barzeu interessando-os pela publicação oficial da excomunhão a D. Álvaro, dando as razões disso para a futura liberdade das Missões (Xavier-doc. 137). Gasto de tanto esperar e de tanto sofrimento, mor­reu em Sanchão a 3 de Dezembro de 1552, acompanhado apenas do intérprete António China e do criado malabar Cristóvão.















DESTINATÁRIOS DAS CARTAS

Destinatários
Qt.
Cartas nº
Pe. Francisco Mansilhas,
26
21 a 45**; e 50
P. Gaspar Barzeu,
16
80,91,105,112,114 a 119, 123,124,125,127,133,137
Inácio de Loyola,
15
5,6,7,9,11,16,17,19*,47,60,70, 71,72,97,110
Pe. Simão Rodrigues
(em Portugal)
12
49,63,73,74,76,78,79
86,98,103,107,108
(político) D. João III
10
46-57-61-62-69***-77-83-87-99-109
Diogo Pereira (e +1 conj.c Paulo)
06
51,65,122,129,132,136
Pe. Francisco Pérez
05(*)
95,130,131,134,135
Aos jesuitas de Roma- Sede Js
05
13,15,20,48,59
Pe. Paulo Camerino
*António Gomes e Baltasar Gago
05
81,84,88*,92,100

Orações ou doutrina
05
14,18,46 bis,66,67
Aos jesuitas da Europa
04
52,55,85,96
Companhia de Jesus (administ)
04
02,03,04,106
Parentes:  irmão João e tio Martin Azpilcueta(3)
03
01,08,10
Aos jesuitas de Goa
02
54,94
Pe. João da Beira
02
82,126
P. Belchior Nunes Barreto
02
101,104
Aos jesuítas Pe. Cláudio Jaio e Diogo Laínez
01
12
Aos jesuitas da Índia
01
56
Instrução para os catequistas da Companhia de Jesus,
01
53
Instrução para os missionários jesuítas da Pescaria e Travancor
01
64
P. Francisco Henriques,
01
68
P. Pedro Fernandes Sardinha
01
75
João Bravo Instrução ao noviço,
01
89
P. António Gomes,
01
93
P. Gonçalo Rodrigues,
01
102
P. Alfonso Cipriano,
01
113
P. António de Herédia Instrução
01
120
João Soares – vigário de Malaca
01
121
João Japão
01
128
(político) D. Pedro da Silva,
01
94
(político)M. Alves Barradas, Nomeação do procurador ...
01
111

* ficou um longo período sem enviar cartas de 28/10/1542 a 27/01/1545
** escreveu 25 em seqüência num só ano;
*** escreveu para em grupo, com mais 04 padres;
Os inscritos 114 a 118 de 6-14/04/1552, às vésperas da saída para a China, formam a “grande instrução detalhada” quando enviou o P. Barzeu para uma missão.
A última carta de Xavier foi inscrita ao Padre Barzeu e Pe. Perez, em conjunto.
Das 16 cartas ao Pe. Barzeu, 14 foram inscritas em 04 a 11/1552
(*) 04 delas quando estava em Sancião

(3) enquanto estava em missão, não conhecemos nenhuma carta enviada a sua família.