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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Angiró: Primeiro Japonês convertido e batizado por São Francisco Xavier





Ângelo vai contar-nos, ele mesmo, como a divina Providência o levou ao conhecimento do Cristianismo e ao desejo de abraçá-lo.
           
PAULO ÂNGELO, PRIMEIRO CRISTÃO JAPONÊS AOS PADRES E IRMÃOS DA COMPANHIA DE JESUS EM ROMA   

Goa, 27 de Novembro de 1548.

Que a paz e a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo sejam convosco! Amem.
Já que foi do agrado daquele que me criou procurar-me como a ovelha perdida no meio das trevas, para me chamar à luz do seu Evangelho arrancar-me das prisões da morte e dar-me a liberdade e a vida, julgo-me obrigado a recorrer a vós todos para render a sua divina Majestade ações de graças proporcionadas aos grandes favores com que a sua misericórdia infinita se dignou agraciar-me.
Compenetrado e confundido pela minha incapacidade, peço-vos, meus queridíssimos irmãos, que suprais a minha indignidade, e para vos convencer dela, vou expôr-vos aqui os meios extraordinários pelos quais o Pai celeste me conduziu ao grêmio da Igreja do seu Filho único e muito amado.
Estando ainda no Japão, há já alguns anos, e perseguido por inimigos pessoais que conspiravam contra a minha vida, refugiei-me num convento de bonzos.
Um navio português veio ao mesmo tempo fundear no porto, próximo do qual se achava situado aquele convento.
Era precisamente o navio de Álvaro Vez que outrora conhecera, e que se apressou em oferecer-me um asilo a bordo; porém, como os seus negócios o demorariam naquele ancoradouro por muito tempo, para a minha segurança teve a bondade de escrever a um dos seus amigos que estava num porto muito afastado, rogando-lhe que me recebesse.
Munido daquela carta, despedi-me de Álvaro, e parti imediatamente para o porto em que devia encontrar Fernando Álvares, a quem era dirigida a recomendação de que eu era portador. Cheguei ali de noite, e por engano remeti a carta a Jorge Álvares, capitão dum outro navio, que me recebeu com amizade, dizendo-me que me levaria consigo e me apresentaria ao reverendo Padre Francisco Xavier, seu amigo íntimo. Consenti nisso.
Durante a viagem, quer fosse para me familiarizar com a idéia de ver o Padre e inspirar-me de antemão estima e afeição por ele, quer fosse para me dar algumas noções do Cristianismo, Jorge, encaminhava sempre a conversação para Xavier, para as suas virtudes suas grandes ações e efeitos maravilhosos da sua palavra.
Em resultado disso, concebi dois ardentes desejos: o primeiro de conhecer pessoalmente o ilustre e santo personagem, cujas virtudes e encantos me eram exaltados em termos tão magníficos, e o segundo de estudar seriamente uma religião que produz homens tão perfeitos.
Achava-me já tão convencido da verdade daquela religião, que me teria deixado batizar logo que cheguei a Malaca, se o senhor vigário geral não tivesse rosto no meu casamento um obstáculo àquela graça, por isso que não me devia ser permitido, depois de batizado, viver com uma mulher idólatra. Causou-me isso um grande desgosto, mas a este desprazer se acrescentou um outro não menos pungente.

Não desanimar nas dificuldades: tente denovo - Eu viera ver o Padre Xavier e ele achava-se ausente! A porta da Igreja era-me fechada, e aquele que teria podido acalmar e adoçar a minha dor não estava ali!
Desconsolado, desanimado, resolvi voltar para o Japão: a monção era favorável embarquei em um navio que devia deixar-me num porto da China, distante somente duzentas léguas da minha pátria. Cheguei àquele porto e ali encontrei um barco que partia para o Japão; passei para ele, e fazendo-se à vela em seguida, contava tornar a ver o meu país com seis ou sete dias de navegação.
Mas Aquele que governa tudo e que dirige as coisas de modo que fiquem cumpridos os seus desígnios, me levou de novo ao ponto donde tinha partido, por meios que só d'Ele são conhecidos.
A vinte léguas das costas do Japão (= a 120 km), uma tempestade das mais violentas ameaça-nos dos maiores perigos durante quatro dias, e acaba por lançar-nos sobre as costas da China, que havíamos deixado.
O perigo que eu acabava de passar, trouxe-me muito sérias reflexões. Achava-me fatigado, inquieto, ralado de remorsos, quando vejo dirigir-se para mim Álvaro Vaz Foi grande a sua surpresa por me encontrar na China, quando me supunha em Malaca.
Contei-lhe as minhas aventuras, e o perigo pelo qual acabava de passar e de escapar-me; achava-me ainda todo molhado e coberto de espuma do mar. Ofereceu-me de novo o seu navio e convenceu-me a tentar ainda a viagem para Malaca.
Lourenço Botelho uniu-se a ele, e ambos me asseguraram que eu ali encontraria o Padre Francisco Xavier, que ele me consolaria de todos os meus desgostos e sofrimentos, que me instruiria, me batizaria, me poria no seminário de Goa e me faria ir depois para o Japão com os Padres da sua Companhia.
Segui os seus conselhos e voltei com eles a Malaca. A primeira pessoa que vi quando desembarquei, foi Jorge Álvares! Experimentamos grande alegria por nos tornarmos a ver, e no mesmo instante ele me levou à catedral, onde o Padre Xavier abençoava um casamento. Depois da cerimônia, o capitão apresentou-me a ele, dizendo-lhe quem era e por que vinha.
Atento e com os olhos fixos no Padre Xavier, vi o seu amável semblante expandir-se numa grande e santa alegria. Depois voltando-se para mim olhou-me ternamente, falou-me com tanta doçura e testemunhou-me tão grande afeto, que me cativou o coração, e julguei-me muito feliz por ver a minha extrema ternura tão completamente correspondida! Na sua comovedora voz, e na doce expressão, reconheci a divina Providência, admirei o seu poder, e adorei os seus impenetráveis decretos!

Preparação do ateu a evangelizador em terra pagã - O Padre Xavier destinou-me desde logo para o seminário de Goa; mas não permitindo a sua visita aos cristãos de Comorim acompanhar-me, enviou-me antes dele, no navio de Jorge Álvares. Ele seguiu-nos de perto, porque nós chegamos no dia 1 de Março, e ele a 4 ou 5 do mesmo mês [essa data pode ser 20 de março, segundo alguns pesquisadores]. Parecia que os ventos e o mar se combinavam para satisfazer os meus desejos.
Eu suspirava por ele e suspirava ao mesmo tempo pelo batismo, e os meus votos foram bem depressa cumpridos. Ele chegou; a minha instrução concluiu-se no colégio, fui batizado na manhã do Pentecostes, com os dois domésticos que me haviam acompanhado do Japão.
É esta a minha história. Espero que com a graça de Jesus Cristo, Senhor e Criador, de todas as coisas nosso Redentor, que sofreu e morreu na cruz para nos salvar, ela reverta não somente em meu proveito pessoal, mas também em glória de Deus, na propagação da fé e em honra de toda a Igreja.
Quanto a mim julgo-me bem recompensado de todos os meus sofrimentos! Gozo do maior bem que jamais ousava esperar. Cada dia a fé enche a minha alma de nova luz; a verdade e a santidade do Evangelho desenvolvem-se cada vez mais a meus olhos; os benefícios com que tenho sido favorecido, aqueles que constantemente recebo as alegrias, as consolações de que a minha alma se acha cheia, tornam-me palpável, para assim dizer, o que eu não podia entrever.
Parece-me que adquiri uma vida nova, novas faculdades, e, finalmente, que Deus me criou de novo. Aprendo o que me ensinam com uma rapidez que me admira e me confunde. Foi-me necessário tão poucos dias para eu ler e escrever em língua portuguesa, que a aninha inteligência parece um prodígio que me faz espantar.
Decorei textualmente palavra por palavra, toda a explicação do Evangelho de São Mateus que o Padre Cosme de Torres me repetiu por duas vezes, e traduzi-a em língua japonesa.
O Padre Xavier propõe-se ir para o Japão e promete associar-me aos seus trabalhos.
Orai, meus irmãos! rogai a Deus que se digne abençoar-nos. Pedi para mim um reconhecimento, uma gratidão proporcionada aos benefícios que tenho recebido! eles são tão grandes que Deus se verá, para assim dizer, obrigado a dar-me forças para sofrer a morte confessando o seu santo nome, para não me deixar na necessidade de ser ingrato.
O meu coração diz-me que não morrerei sem ter visto no Japão um colégio da vossa Companhia para o progresso da fé e para glória de Deus, pela qual eu sou, meus Padres, vosso servo.
Paulo de Santa-Fé.    
Depois do seu batismo, pedira Paulo Ângelo a Xavier permissão para usar o apelido de Santa-Fé, em memória do colégio onde encontrara a felicidade; autorizado pelo santo apóstolo adotou aquele nome e não o deixou nunca.
Um dos seus domésticos chamou-se João e o outro Antônio; eles imitavam perfeitamente seu amo no fervor da sua piedade e na prática de todas as virtudes cristãs.


sábado, 24 de novembro de 2018

São Francisco Xavier no Japão

Alcançaram o Japão a 27 de julho de 1549, mas só a 15 de agosto é que foram autorizados a aportar em Kagoshima, o principal porto da província de Satsuma, na ilha de Kiushu. Foi recebido amigavelmente e ficou hospedado pela família de Angiró até outubro de 1550. Entre outubro e dezembro desse ano, residiu em Yamaguchi. Pouco antes do Natal, partiu para Quioto, mas não conseguiu autorização para visitar o imperador. Regressou a Yamaguchi em março de 1551, onde o daimio daquela província o autorizou a pregar. Contudo, faltando-lhe a fluência na língua japonesa, teve de se limitar a ler alto a tradução do catecismo feita com Angiró.
Francisco teve um forte impacto no Japão, tendo sido o primeiro jesuíta a lá ir em missão. Levou com ele pinturas da Virgem Maria e da Virgem com Jesus. Estas pinturas ajudaram-no a explicar o Cristianismo aos japoneses, já que a barreira de comunicação era enorme, visto o japonês ser uma língua diferente de todas as que os missionários tinham até aí encontrado.
Os japoneses não se revelaram pessoas facilmente conversíveis. Muitos eram já budistas. Francisco Xavier teve dificuldade em explicar-lhes um conceito de Deus segundo o qual Deus criara tudo o que existe. Aos seus olhos, Deus seria então responsável também pelo Mal e pelo pecado, algo que era para eles uma acção incompreensível da parte de Deus. O conceito de Inferno foi também difícil de explicar, pois os japoneses não aguentavam a concepção de que os seus antepassados podiam estar num Inferno eterno do qual era impossível libertá-los. Apesar das diferenças religiosas, Francisco de Xavier terá sentido que os japoneses eram um povo bom, como os povos europeus, e que por isso poderiam ser convertidos.
Xavier foi bem acolhido pelos monges da escola de Shingon, por ter usado a palavra “Dainichi” para descrever o Deus Cristão. Depois de ter aprendido mais sobre as nuances da palavra, Francisco passou a usar a palavra “Deusu”, da palavra latina e portuguesa “Deus”. Foi nesse momento que os monges se aperceberam que ele pregava uma religião rival. No entanto, Francisco sempre respeitou o povo que o acolheu, tendo aprendido japonês, deixado de comer carne e peixe, e cumprimentava os senhores com vénias profundas, tendo chegado em algumas circunstâncias a vestir-se com trajes japoneses, tudo para ser melhor aceite.
Com a passagem do tempo, a missão de Francisco Xavier no Japão pôde ser considerada muito frutuosa, tendo conseguido estabelecer congregações em Hirado, Yamaguchi e Bungo. Xavier continuou a trabalhar durante mais de dois anos no Japão, tendo escrito um livro em japonês sobre a criação do mundo e a vida de Cristo, até a chegada dos jesuítas que o vieram suceder, cujo estabelecimento supervisionou.