sábado, 1 de outubro de 2016

Os padroeiros das missões: S.F.Xavier e Sta. Teresinha

Lições de São Francisco Xavier


"São Francisco Xavier tem sua coroa de santidade esmaltada com o título de "Padroeiro das missões". Mas não está solitário. No dia 14 de dezembro de 1927, S.S. Pio XI declarava Santa Teresinha do Menino Jesus como padroeira universal das missões e missionários do mundo inteiro.
Um rápido olhar a seu espírito abrirá panoramas imensos a nossos olhos. Seus ensinamentos serão luminosos para as necessidades e preocupações de hoje. União, que parece estranha, com o "valente capitão de Deus", "o intrépido apóstolo das Índias e do Japão, que percorre regiões e latitudes sem descanso para levar a mensagem de Cristo, a humilde carmelita, escondida em um Carmelo francês, humanamente impotente, morta aos vinte e quatro anos de idade. Porém, as obras de Deus não podem ser apreciadas somente com os olhos humanos. Deus se vale de instrumentos fracos para fazer grandes coisas, e o valor das obras não está só na grandeza de sua materialidade, mas sim principalmente em seu espírito que as impulsiona e informa.
São Francisco Xavier é o homem de zelo abrasador que quanto mais terreno por arar encontra, mais se entusiasma. As dificuldades e obstáculos suavizam seus frutos, ao menos aparentes, mas aumentam seus anseios e aspirações de conquista de almas para Cristo. Goa, Pescaria, Travancor, as Molucas, Malaca, Meliapur, Yamaguchi, Bungo ... são testemunhas de sua impaciência evangélica e de sua prodigiosa atividade.
São Francisco Xavier é o taumaturgo, o evangelizador, aquele que batiza e doutrina, aquele que estabelece novas comunidades cristãs, aquele que sente desejos de uma loucura santa para clamar por terras européias a necessidade de operários missionários, pois "muitos cristãos deixam de contribuir nestes trabalhos por não haver pessoas que em tão piedosas e santas coisas se ocupem", é ele que com seus dons carismáticos acredita e garante seu apostolado, aquele que com seu tato admirável sabe acomodar-se a todos para ganhá-los, ele que escreve ao Rei de Portugal, a Inácio de Loyola, a Roma impulsionado sempre por seu ardor apostólico, sacrificado, animado, empreendedor. Pede orações, pede missionários. As Índias e o Japão tinham presenciado o espetáculo maravilhoso de seu zelo. Contudo não lhe basta a seu coração endeusado; faz tempo que sente-se atraído pelo vastíssimo império da China e se propõe empreender sua conquista espiritual. A aventura é atrevida e heróica, mas não importa. Tenta todos os meios, suas ânsias são vivíssimas, o amor de Cristo lhe urge... Porém outros eram os desígnios de Deus. A Ilha de São Sião, já às portas da China Imperial, recolhe o último suspiro e o olhar de despedida, entrevisto pela neblina de uma ilusão truncada. Seu coração já não era deste mundo. Tinha quarenta e seis anos.
Sua morte parecia selada com o estigma de um fracasso, porém a realidade era muito outra, o que observou S.S. Pio XII: Uma morte tal tem o valor espiritual que não se esgota; o valor do Dom total da vida por aqueles a quem se ama – e não existe maior amor –, valor de exemplo para tanta almas de apóstolos que o seguiram e o seguirão na carreira missionária.
Humanamente ainda se surpreende e se admira ao contemplar as vastas regiões por ele evangelizadas. Porque não se trata de uma longa vida com todo conjunto de elementos e ajudas, com a facilidade de modernas comunicações do século XX, trata-se simplesmente de uns dez anos e com escassos recursos humanos e com as viagens do século XVI. Recordemos, porém, que seus triunfos não são triunfos humanos, são triunfos divinos. Como dirá ele: "Deus é o que move a que venham a seu conhecimento". Não obstante, a história aí tem uma vida que se consume pelo seu ideal, uma vida com ânsias infinitas do triunfo de Cristo no mundo. São meados do século XVI.
Nos transferimos para o século XIX. Uma freira passeia solitária pelo pátio do Carmelo de Lisieux. É jovem e vai pensativa. Sua obsessão é o amor. Amar, ser amada e faz amar ao AMOR. Sente vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de doutos, de mártir... Seus anseios apostólicos são transbordantes: "Quisera percorrer a Terra," diz "profetizando vosso Nome e plantando, amado meu, em terra infiel vossa gloriosa cruz. Mas não me bastaria uma só missão, pois desejaria poder anunciar a um tempo vosso evangelho em todas as partes do mundo, até nas mais longínquas ilhas. Quisera ser missionária, não só durante alguns anos, mas sim ter sido desde a criação do mundo e continuar sendo-o até a consumação dos séculos" (H.A., XI)
Suas aspirações são incontidas, um verdadeiro martírio. Um dia venturoso abre as Epístolas de São Paul que lhe dão solução satisfatória. Compreende que sua vocação é o amor. Seu coração havia encontrado a paz. Sua vocação será o amor, mas o amor tingido com a dor, pois o verdadeiro amor alimenta-se de sacrifícios.
Mesmo antes de entrar no Carmelo, um domingo de julho de 1887, ao contemplar o sangue precioso que cai na terra, em uma pintura de Jesus crucificado, havia sentido algo novo. Seu espírito parece ouvir o grito de Jesus moribundo: Tenho sede! E seu coração se acende em um vivíssimo ardor para ela até então desconhecido. Sente-se devorada pela sede de almas e a todo custo queria arrancar da chamas eternas os pecadores. Deus lhe depara em Pranzini seu "primeiro filho" e a partir de então cada dia aumenta mais nela o desejo de salvar as almas. Já em maio havia pedido para entrar no Convento. Sabe que ali poderá cumprir fielmente sua vocação. Ela declarará mais tarde antes de professar: Vim ao Carmelo "para salvar almas e, sobretudo, para rogar pelos sacerdotes" (H.A., VII). "Se escolhi uma vida tão rigorosa, não é para expiar meus pecados, mas sim o do próximo", escreverá ao Pe. Belliere. E ao Pe. Roulland:
"Serei virtuosa trabalhando consigo pela salvação das almas. Estes mesmos desejos foram os que me impulsionaram a abraçar a rigorosa vida do Carmelo Descalço; não podendo ser missionária da vida ativa, o que quis ser pelo amor e à penitência, como minha Excelsa Santa Teresa..."
No claustro carmelitano, escondida dos olhares do mundo, só atenta a Deus, será a grande missionária. Todos seus desejos centram-se no amor. Amor a Jesus e fazer-lhe amar. E isto não por uns quantos anos, quisera fazer missões até a consumação dos séculos. Por isto jamais se arrependerá de ter trabalhado unicamente para salvar almas, ainda que por conseqüência disto tenha que estar no purgatório, E terá aquele atrevido pensamento escrevendo ao Pe. Roulland:
"A única coisa que desejo é fazer amar a Deus; e confesso que se no céu não puder trabalhar por sua glória, preferiria o desterro à pátria."
É idéia que embeleza. Diz à Celina: "Na noite desta vida só devemos fazer uma coisa: amar a Jesus com toda a alma e salvar almas que o amem ... Oh! Fazer amar ao Amor!" Se deseja ir a Cochinchina é para "sofrer muito por Deus", "para estar só". Reconhece que Deus não necessita de nossas obras e está certa que ela não prestaria serviço algum, "mas sofreria e amaria. É isto o que tem valor" aos olhos de Deus.
Já às portas da morte só neste ideal missionário, nesta sede de almas, encontra a explicação dos terríveis sofrimentos que padece; mas, sem dúvida, não se arrepende de haver se entregado ao AMOR. No céu desejará o mesmo que na terra:
"Amar a Jesus e fazer-lhe amar".
Sua vida terrena passou fugaz, mas sua estrela permanece brilhante. E não é só a santa enamorada e recostada nos braços de Jesus, é a grande missionária, a Patrona Universal das missões católicas. Ela compreendeu o verdadeiro apostolado e o praticou e segue praticando. Por isto a Santa Sé, guiada pelo Espírito Santo, a declarou patrona universal das missões e missionários do mundo inteiro, tal qual São Francisco Xavier.
Duas vidas com um idêntico ideal, porém com modalidades, ao parecer, inconciliáveis. Não obstante, o observador atento poderá ver um luminoso ponto de contato. E é que, ainda que por caminhos distintos, é sempre o mesmo Espírito o que dirige e marca a rota de cada alma. 
É a unidade em uma variedade maravilhosa. Tirai, se não, o amor ardente a Jesus, o zelo pela salvação das almas, a abnegação e desprendimento do ser humano, a confiança em Deus, e não teremos nem o intrépido Apóstolo das Índias e do Japão, nem tampouco a Santa Teresa de Lisieux; não serão patronos das mesmas missões; é mais: nem missionários verdadeiros. Não haverá subsolo que faça frutificar, faltaria a seiva que há de dar vigor e frescor a todas as atividades e aparências humanas.
Nisto que tem de característico e diferencial poderíamos contudo contemplar algo próprio seu, em alguma maneira incomunicável, e algo extensivo a todos ou a uma maioria considerável. São Francisco Xavier sempre será jesuíta e Santa Teresinha do Menino Jesus, sempre será Carmelita Descalça. É algo que não pode faltar em sua vida. Porém, ao lado disto e compenetrado com ele, existe algo que não se circunscreve a suas respectivas famílias religiosas, nem a um denominador comum de todos os santos. Sem dúvida, não vamos expor aqui estes pontos. No deteremos tão só em deduzir algumas consequências práticas.
Sem circunscrevermos o terreno estritamente missionário, São Francisco Xavier tem sua palavra que dizer aos apóstolos do século XX. Sua vida, ainda que longínqua, pode vivificar o apostolado de nossos dias e comunicar-lhe um brioso impulso. Não é coisa nova, mas é realidade vivida.
São Francisco Xavier é o homem que não se apavora ante as dificuldades e obstáculos que se apresentam a seu apostolado. Nunca se deixa dominar pelo desalento ou pelo pessimismo. É a primeira lição. Ante as escandalosas defecções, ante o materialismo e a imoralidade que avançam, ante o mais descarado nudismo, criação monstruosa do materialismo e do hedonismo mais bestial e selvagem, ante o inimigo que destrói a truncada esperança e labor de séculos, ante o golpeaço do comunismo ateu que ameaça, é oportuno recordar o esforço e a intrepidez de São Francisco Xavier. Morrer sim, retroceder jamais.
São Francisco Xavier é o homem que põe em ação os meios que estão a seu alcance, fazendo-se disponível a todos para levá-los todos a Cristo. É a segunda lição. Se ante o príncipe Outsi Yositaka de Yamaguchi apresenta-se com um brado de ostentação, não é porque São Francisco Xavier goste dele, é porque nele vê um meio de conseguir seu objetivo de introduzir a mensagem de Cristo. Hoje existe muitos meios que poderão ser utilizados para o apostolado. Temos que convencer-nos que os avanços da ciência não podem ficar inativos porque os filhos das trevas os aproveitem par ao mal. Não é tática o comentar-se em lançar maldições conta o abuso dos meios de progresso. O melhor será prevenir e contrapor-se com um justo emprego para o bem. A mera negação não conduz a nada. Se fecha-se um horizonte tem que abrir-se outro. Ainda que os recursos mais ou menos acumulados pela filantropia, prestarão grande serviço ao apostolado. Formosas consignas deu para as missões S. S. Pio XII na encíclica "Evangelii Praecones". Não percamos a ocasião e o tempo.
Recordemos finalmente a terceira lição de São Francisco Xavier. É importantíssima e ainda que antiga, é sempre nova. Todo este elemento externo há de ir vivificado por algo sobrenatural. Há de ser impulsionado pelo amor de Deus, o zelo autêntico pela salvação das almas e pelos interesses de Jesus Cristo. Como dice o santo Papa Pio XII:
"O apostolado é em si mesmo fruto da caridade: do amor a Deus, que se quer glorificado em cada alma; do amor ao próximo que se anseia participe do Sumo Bem; expressão da caridade, o apostolado se realiza e se valoriza na mesma caridade."
Nem há de ser uma intrepidez e otimismo naturais, mas sim baseados em uma grande confiança em Deus. São Francisco Xavier pôs todos os meios humanos, mas sua esperança estava em Deus. Isto é muito inaciano e muito cristão.
Diremos ainda com o mesmo Santo Padre: São Francisco Xavier "a partir do centro da cristandade, com o braço levantado... continua chamando para si os corações generosos. Jamais uma prudente organização de seu trabalho missionário houvera tido o efeito desta grande chama de amor que lhe devorou em alguns anos e que brilha para sempre nas praias do Extremo Oriente."
Seu esforço magnânimo e seu zelo inquebrantável estão perenemente reprovando a negligência de uns e alentando o espírito abnegado e apostólico de outros. E para todo cristianismo está o exemplo de um homem que se consagrou plenamente a seu ideal missionários sem reservas pessoais nem egoístas.