132. Superior Jesuita (administração)

49
AO PADRE SIMÃO RODRIGUES
Cochim, 27 de Janeiro 1545
Cópia em português, feita em 1553

A graça e amor de Cristo Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen.
Aconselha Simão a não ir para a Índia sem ter boa saúde
1. As cartas que escrevo para Roma mando-as abertas, para que as leais e saibais as notícias de cá e provejais de mandar muita gente todos os anos1, pois há nestas partes onde podem, por muitos que venham, servir muito a Deus Nosso Senhor. De virdes [para] cá não vos aconselho, se não vos achais muito de saúde, porque esta terra é muito trabalhosa e requer corpos sãos e de muita força. Se tantas fossem as vossas forças corporais como são as espirituais, rogar-vos-ia muito que viésseis. Isto digo, sendo o Padre Inácio a aconselhar-vos e [a] mandar-vos, pois é nosso pai a quem devemos obedecer, e sem seu conselho e mandato não bulir connosco.

Diogo Fernandes está muito contente no colégio de S. Paulo
2. De Diogo Fernandes3 vos faço saber que o vi em Goa haverá um mês, muito em paz, de saúde e muito consolado, no colégio da Santa Fé, em companhia de Mestre Diogo e Micer Paulo. Serve lá muito a Deus Nosso Senhor. Está muito contente de estar naquele colégio. Ele me disse que vos ia escrever largamente. Não deixeis de escrever-lhe, pois tanto vos ama e quer. Porque será muito consola­do com as vossas cartas em vos parecer bem de ele estar no colégio como ao presente está.

Ele e Mansilhas encomen­dam-se às orações de todos os da Companhia de Jesus
3. Francisco Mansilhas e eu nos encomendamos nas devotas orações, vossas e de todos os da Companhia, pois nós, estando cá, somos feitura de todos vós. Em particular e em geral a todos nos encomendareis em seus devotos sacrifícios e orações, pois cá vivemos com muita necessidade das vossas ajudas espirituais e das de todos os vossos devotos.

Insta que lhe escrevam. As cartas que escreve para Roam podem lê-las todos, menos a que escreve a Inácio
4. Rogo-vos muito, por amor de Deus Nosso Senhor, que me escrevais ou encomendeis a alguém da Companhia que me escreva largamente, em particular e universal, de todos os Irmãos de Portu­gal, de Roma, pois que não temos maior consolação, quando vêm as naus do Reino, que ler as vossas cartas.

1 Recebida esta carta, Rodrigues quis mandar logo dez Padres e cinco Irmãos para a Índia (Epp. Mixtae I 231). Em 1556 embarcaram 9 jesuítas para o Oriente (CAMARA MANUEL, Missões 130; FRANCO, Synopsis; Doc. Indica I 30* 139).
3 Cf. Xavier-doc. 45,2.
A carta que escrevo aos companheiros de Roma lereis a Pedro Carvalho4, nosso grande amigo, e dir-lhe-eis da minha parte que, porque o tenho em conta dos Irmãos de Roma e Portugal, por isso não lhe escrevo mais do que escrevo a eles. E o mesmo direis a todos esses Irmãos que estão convosco: que esta carta, ainda que é uma, quando a lerem muitos será muitas cartas.
A outra carta que escrevo ao Padre Inácio (*carta nº 47), lê-la-eis vós somente e os que a vós vos parecer. Lidas ambas as duas, cerrá-las-eis e segu­ramente as mandareis a Roma.
Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda, e nos dê graça para sentir sua santíssima vontade, e forças para cumprir e pôr em obra o que à hora da nossa morte folgaríamos ter feito.
De Cochim, a 27 de Janeiro de 1545

Indulgências a pedir ao Papa por intermédio do Rei
5. As graças e indulgências que mandei pedir a Roma – pelo muito que o Governador me encomendou, porquanto esta terra tem muita necessidade delas, sobre as quais escrevo ao Rei este ano para que as mande para consolação do fiel povo destas partes – por serviço de Deus Nosso Senhor vos rogo e encomendo muito que vos encarregueis de fazer lembrança ao Rei, para que as mande pedir a Sua Santidade.
E a graça que, nos anos passados e neste, mando pedir ao Padre Inácio para o santo colégio da Santa Fé – para satisfação das pessoas devotas que o fundaram, e para acrescentamento da devoção daque­la casa – que ele faça com Sua Santidade que o altar maior de Santa Fé seja privilegiado: que todos os sacerdotes que disserem Missa nele tirem uma alma do purgatório, assim como nos altares privilegiados de Roma. Esta graça e indulgência, da maneira que a mandei pedir, como o Governador ordenou, acrescentará muito a devoção daquela santa casa.

Mandem muitos companhei­ros para a Índia. Desejaria ver lá também Simão
6. Mandai muita gente para a Índia, porque acrescentarão muito as fronteiras da santa madre Igreja. Pela muita experiência que tenho da míngua que fazem os zelosos da fé de Cristo Nosso Redentor e Senhor, é que tantas vezes o encomendo. Deus sabe a verdade: quan­to desejaria ver-vos para muita consolação minha! Deveis à vossa virtude e dom que Deus vos deu, que tanto me fazeis desejar-vos a vista. Se estes meus desejos de virdes para cá se pudessem cumprir, sendo maior serviço de Deus ou igual, Deus sabe o gosto e conten­tamento que levaria em ver-vos e servir-vos.

Não lhe aconselha a mandar amigos para cargos reais na Índia
7. Nenhum amigo vosso consintais vir para a Índia, com cargos e ofícios do Rei, porque deles propriamente se pode dizer: «Sejam riscados do livro dos vivos e não sejam inscritos na lista dos justos»(Ps. 68,29). Por muito que da sua virtude confieis, se não for confirmado em graça como o foram os apóstolos, doutra maneira não espereis que farão o que devem, porque está tanto em costume de cá fazer o que não se deve, que não vejo cura nenhuma: é que todos vão para o caminho de rapio, rapis. Estou espantado como, os que daí vêm, acham tantos modos, tempos e particípios a este verbo coitado de rapio, rapis. E são de tão boa presa, os que daí vêm despachados com estes cargos, que nunca largam nada do que tomam. Por isso, podeis ver quão mal despachadas vão, desta vida para a outra, as almas dos que com estes cargos vêm.
Elogia o Vigário Geral, que vai a Lisboa tratar de assuntos do Padroado missionário, e mostra a necessidade de que regresse à Índia
8. Aí vai Miguel Vaz, Vigário geral que foi destas partes da Índia, homem muito zeloso do serviço de Deus. Vê-lo-eis e, por sua santa conversação e zelo que da honra de Cristo tem, conhecereis a valia da pessoa. Ele vos informará muito largamente das coisas de cá. Ao Rei escrevo sobre ele. Por descarregar minha consciência e a de Sua Alteza, que o mande vir cedo, pela muita necessidade que a Índia tem dele, por ser ele homem que defende as ovelhas destas partes dos lobos, que nunca se fartam. Crede que é homem, Miguel Vaz, que nunca se cansa de ladrar contra os que destroem e perseguem os que novamente se convertem. E se outro mandar Sua Alteza, antes que tenha a experiência das coisas que Miguel Vaz destas partes tem, em doze anos que nestas partes esteve, e tão quisto dos bons e temido dos maus, não sei quanto Sua Alteza acertará. Falai ao Rei para que o torne a mandar.

Vosso em Cristo caríssimo Irmão verdadeiro, FRANCISCO


60
AO PADRE INÁCIO DE LOYOLA (ROMA)
Cochim, 20 de Janeiro 1548
Duma cópia em latim, feita em 1596

A graça e caridade de Cristo Nosso Senhor, [seja sempre em nossa ajuda e favor. Ámen]
Já que não pode tratar da sua vida espiritual com Inácio, pede que mande algum Padre espiritual que o ajude a ele e aos outros jesuítas
1. Deus me é testemunha, padre caríssimo, de quão intensamente lhe peço para vos ver ainda nesta vida, para convosco falar de muitas coisas que requerem a vossa ajuda e remédio, pois nenhuma distân­cia se opõe à obediência1. Vejo que nestas paragens há muitos da Companhia2, e vejo igualmente que necessitamos médico das nossas almas. Pelo Senhor Jesus vos rogo e suplico, pai boníssimo, que olheis também por estes vossos filhos que estamos na Índia, e envieis uma pessoa eminente em virtude e santidade, cuja firmeza e alento sacuda o meu torpor. Tenho grande esperança de que, pois vedes tão segura e sobrenaturalmente as afeições das nossas almas, poreis diligentemente mãos à obra, para que a virtude já lânguida de todos nós se anime com mais entusiasmo ao desejo de perfeição3.

Para os portugueses, pede bons pregadores; para os gentios, missionários seguros
2. Nenhuma coisa mais deseja, esta terra, da nossa Companhia, que pregadores4. Entre os que Mestre Simão enviou a estas partes, não há, que eu saiba, nenhum pregador. Os portugueses que vi­vem na Índia, pelo seu grande amor e benevolência para connosco, desejam grandemente pregadores da nossa Companhia. Portanto, rogo-vos, por Deus e seu serviço, que, em vista de tão piedoso e justo pedido, envieis a estas terras alguns padres aptos para este ministério, que mostra aos que andam desviados o caminho recto da salvação. Além disso, os que enviardes da Companhia para percorrer os luga­res dos gentios, para pregar-lhes o Evangelho, convém que sejam de tão assinalada virtude que possam ir com segurança, acompanhados ou sós5, aonde quer que os reclame a causa cristã: seja a Maluco, à China ou ao Japão. Pela descrição da China e do Japão e das suas gentes, que vos envio dentro desta carta, entendereis facilmente que classe de pessoas requer este assunto6.
Urge as indulgências e faculdades já pedidas e desiste de mudanças da Quaresma

3. Ainda estamos esperando, com incrível ânsia, as indulgências pontifícias e o privilégio do altar privilegiado para o nosso colégio, e a faculdade de os sacerdotes poderem confirmar os povos em vez do Bispo: de tudo isso vos escrevi em anos anteriores7. Pelo que toca à Quaresma, a experiência me ensinou que não é necessário mudar nada8. Uma vez que os portugueses da Índia vivem tão separados entre si, olhando ao bem comum, não há necessidade de mudança nenhuma. Porque nem o Inverno é ao mesmo tempo em todas as cidades e povoações onde há portugueses. Por isso, tendo em conta o bem comum, julgo preferível que nada de novo se decida sobre isto, embora veja que não falta quem pense o contrário.


TRECHO DA CARTA 70, 12/01/1549 , DE COCHIM NA INDIA A INÁCIO DE LOIOLA
Utilidade dos colégios na Índia e esperanças que põe na possível ida de Simão Rodrigues para a Índia, com muitos missionários
11. Nestas partes da Índia há catorze ou quinze fortalezas27, nas quais vivem de assento portugueses, e não vivem senão em fortale­zas28. Nestas partes se fariam muitos colégios, se o Rei favorecesse os princípios, dando alguma renda. Eu escrevo muito longamente a Sua Alteza sobre estes colégios. E também a Mestre Simão, dan­do-lhe muita informação destas partes, dizendo que acertaria muito se, com o vosso parecer, obediência e mandato, viesse a estas partes com muitos da Companhia, entre os quais viessem pregadores: é que facilmente se fariam colégios com a sua vinda, contanto que viesse muito favorecido do Rei. A mim me parece, Pai meu observantíssi­mo, que acertaria Mestre Simão se a estas partes viesse. Uma vez que é tão aceite ao Rei, viria muito favorecido de Sua Alteza, assim para acrescentar colégios, como para favorecer aos que são já cristãos e aos que o seriam se tivessem favor. Verá vossa Caridade o que nisto lhe parece, para prover nisso, escrevendo a Mestre Simão: é que me disse António Gomes que está Mestre Simão determinado a vir a estas partes, com muitos do colégio de Coimbra.

Pede uma ins­trução espiritual de Inácio que ajude a todos e elogia a ação inculturada do P. Henri­que Henriques na sua Missão
12. Algumas pessoas da Companhia, que não tivessem habilidade para letras nem para pregar, que aí não fazem falta, tanto em Roma como noutras partes, parece-me que aqui serviriam mais a Deus, se fossem muito mortificados e de muitas experiências, com as demais virtudes que se requerem para ajudar entre estes infiéis: sobretudo que fossem muito castos, e tivessem idade e forças corporais para le­var os grandes trabalhos destas partes. Proveja nisto vossa Caridade, como melhor lhe parecer.
Faria muito serviço a Deus Nosso Senhor vossa Caridade, se a todos os seus mínimos filhos da Índia nos escrevesse uma carta de doutrina e avisos espirituais, como testamento, em que repartisse com estes desterrados filhos seus, quanto o são da vista corporal, as riquezas que Deus Nosso Senhor lhe tem comunicado. Por amor e serviço de Deus Nosso Senhor: se pudesse ser, que nos escreva!
Um Padre de Missa, da Companhia, está no Cabo de Comorim, o qual veio de Portugal, por nome Henrique Henriques29: é muito virtuosa pessoa e de muita edificação, sabe falar e escrever malabar(*Língua tamul), e faz mais fruto que dois outros, por saber a língua. Os cristãos da terra amam-no coisa de espanto e lhe dão grande crédito, pelas pregações e práticas que na sua língua lhes faz. Por amor de Deus Nosso Senhor: que lhe escrevais e consoleis, pois é tão boa pessoa e faz tanto fruto31!
Méritos de Fr. Vicente OFM na formação dos «cristãos de S. Tomé». Ajudas e indulgências que pede
13. A cinco léguas desta cidade de Cochim (*em Cranganor), está um colégio muito gracioso, que

25 Só escreveu Anjirô (Doc. Indica I 335-341; cf. MI, Epp. II 569.
26 A informação de Anjirô sobre o Japão, escrita por Lacillotto, foi enviada por seis vias (03 dirigidas a Inácio e 03 a S. Rodrigues) em várias línguas (italiano, espanhol e português). A esta carta vinha anexa a a informação em italiano, com este título: Informatione de una isola che novamente si è scoperta nella parte de sep­tentrione chiamata Giapan.
27 Sofala, ilha de Moçambique, Ormuz, Diu, Bassaim, Chaul, Goa, Cananor, Chalé, Cranganor, Cochim, Coulão, Malaca, Ternate. A fortaleza de Colombo estava já destruída.
28 Também havia comunidades portuguesas fora das fortalezas, por ex., em Thana, Galle, Negapatão, São Tomé.
29 Henrique Henriques, S.I., nascido em Vila Viçosa por 1520, entrou na Companhia de Jesus em 1545 e no ano seguinte partiu para a Índia. Trabalhou incansavelmente na Costa da Pescaria, onde morreu (em Punicale) em 1600
31 No sumário da resposta lê-se: « Quanto a Henrique Henriques e aos outros que têm impedimentos, uma folhazita aparte, mostrável a eles, onde se lhes diz que N.P. procurará consolá-los» (MI, Epp. II 569).


fez um Padre da Ordem de S. Francisco: é capuchinho33, por nome Frei Vicente34, companheiro do Bispo35, que é também frade da Ordem de S. Francisco, capuchinho. Não há em toda a Índia senão um Bispo, e este é mui grande amigo da nossa Companhia. Deseja o senhor Bispo conhecer vossa Caridade por cartas. Por serviço de Deus Nosso Senhor: se puder ser, que lhe escrevais36!
No colégio que fez o Padre Frei Vicente há cem estu­dantes, naturais da terra. Este colégio está numa fortaleza do Rei. Eu sou muito amigo deste Padre e ele de mim, e pede um Padre da nossa Companhia, sacerdote que leia, no colégio, gramática aos de casa e, também que, nos domingos e festas, pregasse aos moradores que vivem na fortaleza e aos do colégio. Ao redor deste colégio há muitos cristãos do tempo de S. Tomé: há mais de sessenta lugares37, e os estudantes deste colégio são filhos dos principais cristãos.
14. Nesta fortaleza, onde está este colégio, há duas igrejas: uma, da invocação de S. Tomé38 e, a outra, que está dentro do colégio e se chama de S. Tiago. Deseja muito o Padre Frei Vicente que, no dia de S. Tomé e no dia de S. Tiago com suas oitavas, houvesse nestas igrejas indulgência plenária para maior devoção dos cristãos da terra, os quais descendem dos que fez S. Tomé e são mui devotos seus: chamam-nos cristãos de S. Tomé. O Padre Frei Vicente roga-vos muito que lhe mandeis algum Padre da Companhia para o colégio de S. Tiago de Cranganor, para pregar e ensinar gramática, e tam­bém as indulgências e graças que pede para estas igrejas da fortaleza de Cranganor. Com isto o consolareis muito e obrigareis a que em vida e na morte seja nosso. Encomendou-me muito estas indulgên­cias: nem poderíeis crer quanto as deseja! E também seria consolado com uma carta vossa39.

Pede que celebrem por ele uma Missa onde foi crucificado S. Pedro e outras orações. Escreve de joelhos
15. Desejo muito, Pai meu, que por espaço de um ano todos os meses encomendasse a algum Padre da Companhia que me dissesse (celebrasse em intenção) uma Missa em S. Pedro de Montoro40, naquela capela onde dizem que S. Pedro foi crucificado41.

Por amor de Nosso Senhor, peço a vossa Caridade que dê cargo a alguma pessoa da casa que me escreva notícias de todos os professos da Companhia, assim do número42 como onde estão43, e de quantos colégios há44, e as obrigações a que são obrigados os professos45, e assim muitas outras coisas do fruto que fazem os da Companhia. Eu deixo ordem em Goa para que me mandem as cartas para Malaca e, em Malaca, para que mas transcrevam por muitas vias para mas mandarem para o Japão.