Relação com os de outras seitas idolatras 1543/India

Vícios dos brâmanes
10. Há nestas partes, entre os gentios, uma classe a que chamam brâmanes: estes mantêm toda a gentilidade. Têm o encargo das casas onde estão os ídolos: é a gente mais perversa do mundo. Destes se percebe o que diz o Salmo: «Da gente não santa, do homem iníquo e fraudulento, livra-me, Senhor»22. É gente que nunca diz a verdade. Está sempre a pensar como há-de subtilmente mentir e enganar os pobres simples e ignorantes, dizendo que os ídolos pedem que lhes levem, para oferecer, certas coisas; mas estas não são outras senão as que os brâmanes fingem e querem para manter as suas mulheres, filhos e casas. Fazem crer à gente simples que os ídolos comem; e há muitas pessoas que, mesmo que não almocem nem jantem, ofere­cem certa moeda23 para o ídolo. Duas vezes ao dia, com grande festa de atabales, comem, dando a entender aos pobres que são ídolos que estão a comer. Quando começa a faltar o necessário aos brâmanes, dizem ao povo que os ídolos estão muito zangados com ele, porque não lhes leva as coisas que, por eles, lhes mandam pedir; e que, se não lhas fornecem, tenham cuidado com eles, pois os hão-de matar, ou dar-lhes doenças, ou lhes hão-de mandar os demónios a suas casas. E os tristes simples, crendo que será assim, de medo que os ídolos lhes façam mal, fazem o que os brâmanes querem.

16 As localidades cristãs da Costa da Pescaria já referidas por nós (cf. nota 11 e Xavier-doc. 19,8) somam 20. Podemos acrescentar outras localidades menores, como Pudukudi perto de Manapar, além de Pudukudi perto de Alentalai, duas al­deias de careas e a aldeia de Tomás da Mota perto de Kombuturê (Xavier-doc. 30,3; 39,5), talvez também Mukur perto de Vêmbâr e ainda, para o norte, as localidades de careas Periapattanam e Vêdâlaí (SCHUR.).
17 Pedro de Cornibus, OFM, nascido em Beaune (Borgonha) por 1480, doutor pela universidade de Paris em 1524, mestre de Xavier, Fabro e Bobadilla, verdadeiro amigo da Companhia de Jesus, pregador eminente, faleceu em Paris em 1555.
18 Doutor Picardo Fraçois Le Picard), nascido em Paris em 1504, professor de Teologia em 1534, célebre pregador e doutor pela Sorbona, principal adversário dos reformadores, mestre de Xavier, Fabro e Bobadilla, sincero amigo da Com­panhia de Jesus, morreu com fama de santidade em Paris em 1556 (POLANCO, Chron I; )
19 Fil 2,21.
20 Estas peças de ouro eram fanões, moedas muito miúdas, em uso na Pescaria e norte de Ceilão. Dez fanões equivaliam a 1 xerafim de ouro = 1 pardau de prata = 300 reis. Portanto, no tempo de Xavier, 4.000 fanões valiam 400 xerafins de ouro = 400 pardaus de prata = 210 cruzados. Era o tributo dos paravas para ao «chapins da rainha». Com o andar dos anos, os pardaus e os cruzados foram perdendo valor, enquanto o dos fanões se manteve invariável naquela região. Por isso não admira que Lucena, no seu tempo (ano 1600), calcule 4.000 fanões = 400 cruzados.


21 Xavier-doc. 16.
22 Ps 42,1.
23 Fanão.



Modo de agir com os brâmanes: disputas com eles sobre a imortalidade da alma e a cor de Deus; fealdade dos seus ídolos; respeitos humanos em converterem-se
11. São, estes brâmanes, homens de poucas letras24; e, o que lhes falta em virtude, têm de iniquidade e maldade em grande aumento. Aos brâmanes desta Costa onde ando, pesa-lhes muito que eu nunca outra coisa faça senão descobrir as suas maldades. Eles confessam-me a verdade, quando estamos a sós, de como enganam o povo: confes­sam-me, em segredo, que não têm outro património senão aqueles ídolos de pedra, dos quais vivem, fingindo mentiras.
Têm estes brâmanes para si, que eu sei mais que todos eles juntos. Mandam-me visitar, e pesa-lhes muito que eu não queira aceitar os presentes que me mandam. Tudo isto fazem, para que eu não descubra os seus segredos, dizendo-me que eles bem sabem que não há senão um Deus, e que eles rezarão por mim. Em paga de tudo isto digo-lhes, da minha parte, o que me parece. Depois, aos tristes simples que, por puro medo, são seus devotos, manifesto-lhes os seus enganos e burlas, até cansar. Muitos, pelo que lhes digo, perdem a devoção ao demónio e fazem-se cristãos. Se não houvesse brâmanes, todos os gentios se converteriam à nossa fé. As casas onde estão os ídolos e brâmanes, chamam-se pagodes.
Todos os gentios destas partes sabem muito poucas letras; para mal, sabem muito. Só um brâmane, desde que estou nestas partes, fiz cristão: é jovem e muito bom homem. Tomou por ofício ensinar aos jovens a doutrina cristã.
Ao visitar os lugares de cristãos, passo por muitos pagodes. Uma vez passei por um, onde havia mais de duzentos brâmanes25, e vie­ram-me ver. Entre outras muitas coisas de que falamos, pus-lhes uma questão, e era: que me dissessem que é que os seus deuses e ído­los, a quem adoravam, lhes mandavam fazer para ir para a glória. Foi grande a contenda entre eles sobre quem me responderia. Disseram a um dos mais antigos que respondesse. O velho, que tinha mais de oitenta anos, disse-me que lhe dissesse eu primeiro o que mandava o Deus dos cristãos fazer. Eu, percebendo a sua ruindade, não quis dizer coisa alguma antes de ser ele a dizer. Então foi-lhe forçado manifestar as suas ignorâncias. Respondeu-me que duas coisas lhes mandavam fazer os seus deuses para ir para onde eles estão: a pri­meira era não matar vacas, as quais eles adoram; e a segunda era dar esmolas, e estas aos brâmanes que servem os pagodes. Ouvida esta resposta, com pena de os demónios escravizarem os nossos próximos de tamanha maneira, a ponto de em lugar de Deus se fazerem adorar deles, levantei-me, dizendo aos brâmanes que ficassem sentados e, a grandes vozes, disse o Credo e os Mandamentos da lei na língua deles, fazendo alguma detenção em cada Mandamento. Acabados os man­damentos, fiz-lhes uma exortação na língua deles, explicando-lhes que coisa é paraíso e que coisa é inferno, e dizendo-lhes quem vai para um e quem para outro. Depois de acabada esta prática, levantaram--se todos os brâmanes e deram-me grandes abraços, dizendo-me que verdadeiramente o Deus dos cristãos é o verdadeiro Deus, pois os seus Mandamentos são tão conformes a toda a razão natural.
Perguntaram-me se a nossa alma juntamente com o corpo morria, como a alma dos brutos animais. Deu-me Deus Nosso Senhor tais razões, conformes às suas capacidades, que lhes fiz entender clara­mente a imortalidade das almas, coisa de que eles mostraram muito prazer e contentamento. As razões, que a esta gente idiota se hão-de dar, não hão-de ser tão subtis como as que se encontram escritas em doutores muito escolásticos. Perguntaram-me por onde saía a alma, quando um homem morria; e quando um homem dormia e sonha­va estar numa terra com os seus amigos e conhecidos [como a mim muitas vezes me acontece estar convosco, caríssimos], se a sua alma ia até lá, deixando de informar o corpo. E mais me pediram: que lhes dissesse se Deus é branco ou negro26, dada a diversidade de cores que vêem nos homens. Como os desta terra são negros, parecendo-lhes bem a sua cor, dizem que é negro. Por isso a maioria dos ídolos são negros: untam-nos muitas vezes com azeite; cheiram tão mal que é coisa de espanto; são tão feios que, ao vê-los, espantam. A todas as perguntas que me fizeram os satisfiz, a parecer deles. Mas, quando com eles chegava a conclusão de que se fizessem cristãos, pois já co­nheciam a verdade, respondiam o que muitos entre nós costumam responder: Que dirá o mundo de nós, se esta mudança de estado fazemos no nosso modo de viver? E outras tentações em pensar que lhes venha a faltar o necessário.

24 Os brâmanes instruídos da região mais interior, por ex. os do Maduré, entre os quais trabalhou o Padre De Nobili mais tarde, não os conheceu Xavier.
25 Parece referir-se ao pagode de Trichendur, a que acorriam peregrinos de toda a parte.
26 Os indianos distinguem deuses negros e brancos; assim, Vishnu pintam-no de negro e a Shiva de branco.
Segredos doutrinais que lhe confia um brâmane

12. Um só brâmane encontrei num lugar desta Costa, que sabia alguma coisa, porque, me diziam, tinha estudado num centro de estudos de nomeada. Procurei encontrar-me com ele e consegui maneira de nos vermos. Disse-me ele, em grande segredo, que a pri­meira coisa que fazem os que ensinam naquele centro de estudos, é ter juramento dos que vão aprender, de nunca dizer certos segredos que ensinam. Mas a mim, este brâmane, disse-me esses segredos em grande segredo, por alguma amizade que comigo tinha. Um dos segredos era este: que nunca dissessem que há um só Deus, criador do céu e da terra e que está nos céus; e que ele adorasse esse Deus e não os ídolos, que são demónios. Têm algumas escrituras, nas quais têm os mandamentos.
A língua (*sânscrito) que naquele centro de estudos ensi­nam, é entre eles como o latim entre nós27. Disse-me muito bem os mandamentos, cada um deles com uma boa explicação. Guardam os domingos, estes que são sábios, coisa para não se poder crer. Não dizem outra oração, aos domingos, senão esta, e muitas vezes: «Om cirii naraina noma»28, que quer dizer: «Adoro-te, Deus, com a tua graça e ajuda para sempre»29. Esta oração dizem-na muito de passo e baixo, para guardar o juramento que fazem. Disse-me que lhes proi­bia, a lei natural, ter muitas mulheres; e que está nas suas escrituras que há-de vir tempo em que todos hão-de viver debaixo da mesma lei. Disse-me mais, este brâmane: que ensinam, naquele centro de estudos, muitos encantamentos30.
Pediu-me que lhe dissesse as coisas mais importantes que os cristãos têm na sua lei, que ele me prometia não as descobrir a ninguém. Eu respondi-lhe que não lhas diria se, primeiro, não me prometesse não guardar em segredo as coisas mais importantes que, da lei dos cristãos, eu lhe dissesse. E logo ele me prometeu publicar tudo. Então disse-lhe e expliquei-lhe, muito a meu prazer, estas palavras importantes da nossa lei: “O que crer e for batizado será salvo” (*Mc 16,16). Escreveu-as na sua língua, com a explicação delas em que lhe disse todo o Credo. Na explicação, acrescentei os Mandamentos, pela conformidade que há entre eles e o Credo. Disse-me que numa noite sonhou, com muito prazer e alegria, que havia de ser cristão, e que havia de ser meu companheiro e andar comigo. Pediu-me que o fizesse cristão oculto e com mais certas condições que, por não serem honestas e lícitas, deixei de o fazer. Espero em Deus que o há-de ser, sem nenhuma delas. Tenho-lhe dito que ensinem a gente simples a adorar um só Deus, criador do céu e da terra e que está nos céus; ele, pelo juramento que fez, receoso de que o demónio o mate, não o quer fazer.