quinta-feira, 7 de julho de 2016

São Tomé e São Francisco Xavier Apóstolos da Índia

       INTERVENÇÃO 
DO CARDEAL PREFEITO DA CONGREGAÇÃO 
PARA AS IGREJAS ORIENTAIS 
 SOBRE S. TOMÉ E S. FRANCISCO XAVIER

 Queridos amigos 1. Durante anos tive o desejo de visitar a Índia. ... Estas visitas inesquecíveis ofereceram-me o ensejo de seguir os passos do Apóstolo S. Tomé e de S. Francisco Xavier, e pude ver pessoalmente os frutos da sua pregação. Por este motivo, sinto-me feliz e honrado de estar hoje aqui convosco, neste ilustre Pontifício Instituto Oriental, para celebrar este duplo aniversário: o 1.950º aniversário da chegada do Apóstolo S. Tomé à Índia e o 450º aniversário da morte de S. Francisco Xavier.
 Nem o Apóstolo S. Tomé, nem S. Francisco Xavier eram naturais da Índia. Todavia, ambos se tornaram indianos por convicção. Não se tratava de uma simples atracção superficial, mas de uma autêntica abertura do espírito, que procura e instaura a comunhão. Hoje, para nós, é importante pensar em S. Tomé e em S. Francisco Xavier como em indianos por convicção, e não apenas como em cidadãos honorários, precisamente como S. Paulo se tornou grego para os gregos, sem deixar de ser judeu para os judeus.
       Os dois Santos podem levar-nos ao verdadeiro zelo missionário e à sólida comunhão eclesial 2. Às vezes, poder-se-ia ter a impressão de que ainda hoje existe um profundo abismo que separa o Oriente do Ocidente. Esta separação não é apenas uma realidade geográfica, histórica ou política, mas parece dividir, em primeiro lugar, o coração humano. 
       Talvez seja por isso que a missão da Igreja no Oriente é frequentemente considerada em termos bastante críticos, como uma imposição inadequada de crenças e de valores sobre povos que não estão dispostos a aceitá-los. Por isso, agrada-me imensamente, hoje, ouvir que milhões de católicos na Índia e noutras regiões se definem com alegria e gratidão, como cristãos de S. Tomé.
      Uma associação sentida de maneira tão profunda seria impensável se S. Tomé, a sua figura e os seus ensinamentos não tivessem sido aceites de modo aberto, do íntimo do coração e com gratidão pelas pessoas que o ouviram e pelos seus descendentes, não como algo imposto mas sim acolhido.
Parece que S. Tomé foi um homem por quem as pessoas na Índia se apaixonaram; e, por outro lado, ele também se apaixonou por elas. Muitos séculos mais tarde, numa época em que outra onda de missionários partia para o Oriente, S. Francisco Xavier não só impressionou as velhas e as novas gerações de Jesuítas no Ocidente mas também, por sua vez, ficou supreendido com a fé que encontrou já implantada no Oriente. Também aqui observamos um zelo missionário que só fez surtir os efeitos desejados porque atraía com o amor, e não com a força, a avidez e a ambição. Estas duas figuras, o apóstolo e o missionário, tão amadas e veneradas por toda a Igreja, mas de modo particular pelos cristãos na Índia, só podem indicar-nos o caminho para o autêntico zelo missionário e a sólida comunhão eclesial, se nos deixarmos orientar por elas. O Caminho de Tomé: a resposta ao mistério da vocação divina
 3. O caminho começa com uma vocação, uma vocação concedida por Deus. A missão autêntica é o mistério da resposta a uma vocação, e não a tomada de uma iniciativa de modo isolado. Num trecho particularmente dramático do Evangelho de S. João, S. Tomé rompe o silêncio para infundir coragem nos seus companheiros de discipulado, dizendo-lhes: "Vamos, também nós, morrer com Ele!" (Jo 11, 16). Porém, depois desta expressão de lealdade inabalável, por alguns instantes o seu espírito duvidoso parece levá-lo a perder o equilíbrio e ele pergunta qual é o caminho (cf. Jo 14, 5), levando Jesus a dar-lhe uma das definições mais famosas que Ele jamais dera de si mesmo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14, 6).

Para salvar a todos através da graça do Filho, a vocação recebida de Deus é tão poderosa que torna possível aquilo que parece impossível e reconcilia o que parece irreconciliável. Ser convidado desta maneira recorda-nos com grande vigor que a nossa vida não nos pertence a nós, mas a Deus e, por conseguinte, a Cristo. Para uma vocação tão abnegada, são necessárias pessoas altruístas. S. Tomé era uma destas pessoas e correspondeu à sua vocação. Ele era enviado por Cristo, e estava consciente disto. Todavia, a sua resposta não foi totalmente desprovida de numerosos desafios externos e internos.

Vemos S. Tomé ameaçado por uma luta interior entre a sua lealdade inata e o seu candor desarmante. Talvez seja por este motivo que, nos Evangelhos, ele parece estar com frequência ligado ao caminho e à procura do caminho. O problema apresentou-se na única vez em que ele estava ausente, naquele fatídico domingo, quando a dor o obcecou e, por um momento, não conseguiu acreditar. Mas também nisto ele não está sozinho, porque nenhuma das onze aparições do Senhor ressuscitado, narradas pelo Evangelho, encontrou as pessoas prontas. Se S. Tomé se emendou, foi porque queria viver em harmonia com os seus companheiros. Assim que voltou para o seu grupo, mostrou-se à altura da situação. Quando o Senhor apareceu pela segunda vez, S. Tomé pronunciou a máxima expressão de fé que se encontra no Evangelho: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28).

imagem de Xavier ajoelhado
diante do túmulo de São Tomé
no Santuário de São Tomé na Índia
Ele não sabia que, depois de ter vivido a experiência mais excelsa, a conclusão daquela viagem representava apenas o início de uma nova peregrinação, que o levaria até à Índia. Ali, os seus discípulos, tanto ontem como hoje, definiram aquilo que o Apóstolo lhes ensinou, como "o Caminho de Tomé". Ele nunca foi entendido como senda substitutiva daquele que é o Caminho para o Pai, nosso Senhor e nosso Deus, mas como um caminho que para Ele conduz. S. Francisco Xavier uniu o "Caminho de Tomé" ao "Caminho de Pedro"

 4. Os frutos das sementes lançadas pelo Apóstolo foram recolhidos pelo Missionário, quando Deus quis. Desde a sua chegada a Goa, no dia 6 de Maio de 1542, o próprio Francisco Xavier manifestou a sua devoção a S. Tomé.

Durante a sua permanência na Índia, que durou dois anos (1542-1544), não apenas visitou o santuário de S. Tomé em Mylapore, perto de Madrasta, mas também partiu em busca dos cristãos de S. Tomé em Coxim e Travancore. Além disso, falou com particular ênfase da sua estadia na ilha de Sukotra, embora alguns dos seus comentários possam surpreender-nos.

"Os nativos - escrevia ele - proclamam-se cristãos e sentem-se orgulhosos disto (...) Eles possuem igrejas, cruzes e santuários iluminados (...) Estas pessoas veneram de modo especial o Apóstolo S. Tomé e acreditam que remontam aos cristãos que ele converteu nessas regiões. Durante a oração, os sacerdotes repetem com frequência: "Aleluia! Aleluia!" e pronunciam esta palavra precisamente como nós (...) Durante a minha permanência na ilha, baptizei muitas crianças, para grande alegria dos seus pais. Com profunda benevolência e uma pressão bem intencionada, queriam obrigar-me a aceitar os presentes que a sua pobreza lhes permitia oferecer (...) Depois, pediram-me com insistência que permacesse com eles e prometeram-me que todos, jovens e idosos, teriam sido baptizados, se eu não os abandonasse" (Epistolae S. Francisci Xaverii).

 A presença, as pregações e as orações de S. Francisco Xavier deixaram uma marca duradoura nos fiéis da Índia. Confirmando o "Caminho de Tomé", ele uniu-o amorosamente ao "Caminho de Pedro", de maneira que a fé em Cristo, semeada e desenvolvida com vigor ao longo dos séculos, pudesse gozar da certeza da unidade e da verdade dada pelo múnus de Pedro e dos seus Sucessores. Modelos santos de comunhão autêntica entre o Oriente e o Ocidente
 5. O maior dom que o Apóstolo S. Tomé ofereceu à florescente comunidade cristã da Índia foi o vínculo autêntico e directo com as próprias origens da fé cristã, com os Apóstolos e o seu ofício, e com Jerusalém.
A maior dádiva que, em seguida, S. Francisco Xavier transmitiu a este mesmo povo, foi a sua união à própria garantia da infalibilidade cristã, a Roma. Encontrando-se na vida e na herança dos cristãos na Índia, Tomé e Francisco Xavier tornaram-se como que gémeos em espírito, inseparáveis na sua mensagem da única fé, da única Igreja, do único Senhor e Salvador Jesus Cristo.

 A separação entre Oriente e Ocidente, tão concreta quanto dolorosa, pode ser superada. Como no-lo demonstra claramente o testemunho destes dois grandes pilares da nossa fé, é possível esperar na comunhão verdadeira e autêntica entre Oriente e Ocidente, se reconhecermos que, embora as pessoas nasçam no Oriente ou no Ocidente, um coração cheio da graça de Cristo pode abraçar ambos. Os orientais e os ocidentais não estão apenas próximos uns dos outros nem, muito menos, devem ser inimigos. Pelo contrário, através da graça de Deus, cada um de nós pode trazer no coração tanto o Oriente como o Ocidente. Por conseguinte, falar contra um ou outro significa falar contra si mesmo. É o que sugere o nome de S. Tomé, o Gémeo.

O aniversário deste dia deve imprimir em todos nós aquilo que pode tornar-se possível através da fé não apenas na Igreja, mas no mundo em geral. Seguindo o Apóstolo e admirando o Missionário, o nosso coração diz-nos que o Oriente e o Ocidente podem encontrar-se na harmonia e na paz. Hoje, a nossa alegria é imensa. Os nossos irmãos e as nossas irmãs da Índia têm muito de que se sentir orgulhosos, quando contemplam aquilo que os cristãos de S. Tomé realizaram ao longo dos séculos. Nós, seus amigos e irmãos cristãos, podemos receber deles preciosas lições de fé, de perseverança e de lealdade. Este é o momento para reconhecer as abundantes bênçãos divinas derramadas sobre esta porção do Povo de Deus.

Como Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, estou verdadeiramente grato a todos aqueles que consideram S. Tomé como o seu pai na fé e que, no seu ministério, se inspiram em S. Francisco Xavier, quer eles sejam católicos do Oriente ou do Ocidente, de rito latino ou de rito oriental. Agora compete-nos a nós mostrar com as palavras e os factos que não recebemos esta graça em vão. Maria, Rainha dos Apóstolos e Auxílio dos Cristãos Nossa Senhora, cuja Imaculada Conceição a única Igreja universal vai celebrar no dia de amanhã, nos acompanhe ao longo do nosso caminho como Rainha dos Apóstolos e Auxílio dos Cristãos, levando-nos para Aquele que há-de vir, Cristo, nosso Messias e nosso Salvador, nosso Senhor e nosso Deus. Obrigado!