sexta-feira, 8 de julho de 2016

5º centenário de nascimento de São Francisco Xavier

       SECRETARIA DE ESTADO DISCURSO DO CARDEAL TARCISIO BERTONE NA CONCLUSÃO DO V CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE SÃO FRANCISCO XAVIER, PADROEIRO DAS MISSÕES
 Pontifícia Universidade Urbaniana - 5 de Dezembro de 2006

 Aceitei com alegria o convite que me foi feito pelo vosso Reitor, Mons. Spreafico, para estar aqui convosco, no encerramento deste ano que recorda os 500 anos do nascimento de São Francisco Xavier.
A obra mais extraordinária realizada pela Companhia de Jesus na sua história plurissecular é a obra missionária. Ela foi grande antes de tudo pelo número de Países nos quais desempenharam a sua actividade apostólica: de facto, estiveram presentes em todos os Países da Ásia, da Oceânia, da América e nalguns Países da África, onde foi possível anunciar o Evangelho. Foi grande, sobretudo, pelas dificuldades que os jesuítas tiveram que enfrentar: são de facto muitíssimos os que, depois de terem vivido em condições de extrema pobreza e dificuldades devido a situações climáticas invivíveis para os europeus, sofreram violentas perseguições e, muitos deles, o martírio. Por fim, foi grande a intrepidez e a grandiosidade dos projectos e das iniciativas apostólicas que caracterizaram a sua actividade missionária: pense-se nas "Reduções" para o Paraguai, na introdução do cristianismo na China por obra de Matteo Ricci.

 Foi São Francisco Xavier que deu início e estimulou esta extraordinária acção missionária da Companhia de Jesus. Ele foi o primeiro Jesuíta que partiu de Lisboa para as missões a 7 de Abril de 1541, nomeado pelo Papa Paulo III, núncio apostólico "para todos os príncipes e senhores do oceâno, das províncias e Terras das Índias, aquém e além do Cabo que se chama da Boa Esperança e das terras vizinhas". Neste nosso encontro gostaria de tentar relacionar os tempos de Xavier com os nossos e gostaria de o fazer sob o perfil da missão como comunicação da fé. Sob este perfil, estes dois tempos têm muitas semelhanças: ambos se caracterizam por uma profunda aceleração da socialização humana que adquire maior amplitude e complexidade.

Em 1500, o uso da bússula e da vela latina moderna dão às nações ibéricas a possibilidade de enfrentar o oceano e de suplantar os venezianos no controle do comércio com as Índias; enquanto os portugueses começam a descer a costa da África, os espanhóis tentam alcançar o Levante pelo Ponente. Em 1483 Diogo Cão chega à foz do rio Congo, em 1492 Colombo desembarca na ilha das Caraíbas, em 1500 Cabral chega ao Brasil.
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 Não é difícil compreender que a proclamação do Evangelho evoca o ministério apostólico que a Igreja recebeu do seu Senhor enquanto os caminhos misteriosos do espírito recordam as modalidades de acção divina que, segundo o concílio (10), agem também fora dos confins da Igreja. Trata-se de dois elementos irrenunciáveis porque remetem para o único Senhor que, enquanto estabeleceu para a sua Igreja uma tarefa específica (11), manteve para si a liberdade de desenvolver esta acção salvífica nas formas que quiser (12). Recentemente, também Bento XVI insistiu sobre a universalidade do amor desenvolvendo quer o seu carácter eclesial "pertence à sua [da Igreja] natureza, é expressão irrenunciável da sua essência" quer a dimensão extra-eclesial: a "caritas-agape ultrapassa as fronteiras da Igreja" (13).

 Parece-me que esta foi a atitude de Xavier, cujo zelo apostólico é ao mesmo tempo necessidade de proclamar o Evangelho e abertura ao Espírito. Presumivelmente reencontramos aqui o fruto do magis inaciano, isto é, da convicção de que se deva responder ao amor de Deus com um amor que nunca esmorece, sempre maior. Este princípio torna-se nele gerador de energias até ao ponto que a sua pessoa, totalmente animada pelo amor de Deus, vive para a missão.

Em pouco mais de uma dezena de anos, percorrerá mais de cinquenta mil quilómetros passando da Índia a Singapura, da Malásia ao Japão. Como não ver algo de semelhante à experiência de Paulo que, segundo Act 16, 9-10, tem uma visão que o leva à Macedónia, "considerando que Deus nos tivesse chamado para anunciar ali a palavra do Senhor"? Certamente nem todas as acções de Xavier são fruto da chamada divina; há várias razões que o indicam como filho do seu tempo: basta pensar em como Xavier leu o impulso apostólico para a salvação das almas da sua perdição, de outro modo certa, ou nas consequências da sua falta de conhecimentos dos mundos onde trabalhava.

De Xavier podemos igualmente apreciar o esforço de entrar pessoalmente em contacto com as pessoas; não lhe passa despercebido que um verdadeiro e profundo encontro pessoal exige também a inculturação mas considera que, para proclamar Cristo, seja suficiente usar o português dos mercantes e dos servos, do povo comum e dos colonos. Em poucas palavras, Xavier, sem instrumentos para se preparar para o encontro com a Ásia do seu tempo, mesmo se pede pessoal instruído capaz de dialogar com as pessoas cultas, porá no centro a pregação de Cristo e enriquecê-la-á com o testemunho de uma vida virtuosa, recta e misericordiosa. Na sua opinião, deveria bastar para conquistar o coração das pessoas (14).

Se abandonarmos uma visão ética para arriscar uma hipótese teológica, podemos dizer que Xavier, mesmo se com limites, vê o apostolado como a revelação e a expressão do amor de Deus na humanidade do amor do missionário (15). A nossa visão actual é subtilmente diversa. Nós continuamos a missão de Cristo num modo que reconhece abertamente a dignidade de cada ser humano(16); se afirmamos com Xavier que não há verdadeira evangelização sem a proclamação da fé em Jesus Cristo, ao mesmo tempo sabemos que esta missão deve ter em consideração as circunstâncias. Há tantas, diversas modalidades de exercer a missão mas as diferenças "dentro da única missão da Igreja nascem não de razões intrínsecas à própria missão mas das diversas circunstâncias em que ela se desenvolve"(17). Entre estas circunstâncias, reconhecemos o valor do diálogo inter-religioso: "entendido como método e meio para um conhecimento e enriquecimento recíprocos, ele não se contrapõe à missão ad gentes, aliás tem vínculos especiais com ela e é uma sua expressão"(18).

 ... O segundo aspecto que os trechos da Redemptoris missio sobre a espiritualidade missionária recordam é a necessidade de "uma comunhão íntima com Cristo"(23); sem esta conformação com Cristo não pode haver missão alguma. Desta orientação, a encíclica elenca uma série de comportamentos que tornam esta referência decisiva e concreta. A citação do texto de 1 Cor 9, 22-23, com o seu radical convite a "fazer-se tudo em todos para salvar alguém", remete não só para um agir mas para aquela mesma "presença confortadora de Cristo" que, enquanto acompanha o missionário em cada momento da sua vida, "o espera no coração de cada homem"(24).

 Estes temas são facilmente documentáveis na pessoa de Xavier que, quase espontaneamente, os encontra na espiritualidade que rege a sua acção missionária: a glória de Deus, o amor pascal de Cristo crucificado, a salvação das almas são os elementos que guiam a sua personalidade apostólica. Longe das escolhas molinistas, que mais tarde os jesuítas abraçarão, Xavier coloca-se na tradição agostiniano-tomista que vê Deus como o único autor de todos os bens; disto tira tanto uma lição de humildade, porque sabe que é apenas um instrumento nas mãos de Deus, quer um total abandono ao seu Senhor.

Este último aspecto toca a mística porque a confiança radical no Deus amor leva Xavier, à semelhança do seu Senhor, a viver de amor e, portanto, a sentir no próprio coração o pecado da humanidade como um tormento. Para alcançar o coração dos homens, sabe que deve entrar nesta miséria e sabe que não o pode fazer sem o apoio de Deus. Isto leva-o à comunhão com Cristo, à sua oração contínua, ao seu natural passar do amor de Deus ao amor pelo homem. Só assim, só aceitando amar como ama o seu Deus, livre e gratuitamente, ele alcança o segredo último da vida missionária; trata-se do mistério da encarnação e da Páscoa: só ao preço da kénosis, só ao preço de um seu total despojamento, Xavier sente com os sentimentos de Deus e, reencontrando o amor que Deus já derramou sobre as suas criaturas, dele tira o compromisso necessário para o fazer resplandecer. Penso que não se possa, ainda hoje, não estar de acordo com esta orientação e com a antropologia que ela supõe. Mesmo se uma tradição teológica, devedora da heresia ariana(25), falou de uma criatura humana que só num segundo momento entra em relação com Cristo, a valorização plena do amor cristão salvífico do Senhor Jesus comporta uma plena correspondência da pessoa a este dom. No amor com que Deus constitui a pessoa humana como destinatária da sua vida, o homem encontra-se contemporaneamente na sua diferença criatural e na sua semelhança participada com Deus. Se a liberdade criada exprime ambas, ambas estão interpeladas pelo Evangelho de Cristo.

 Desejo concluir esta reflexão com uma última observação que se refere ao amor profundo de Xavier pela Igreja. Xavier era uma personalidade eclesial no sentido mais profundo e nobre da palavra: isto é, sentia pela Igreja a mesma atitude de Jesus Cristo que "amou a Igreja e se entregou por ela"(29). É quanto desenvolve o extracto de Redemptoris missio que escolhemos como guia; o n. 89 recorda de facto que "só um amor profundo pela Igreja pode amparar o zelo do missionário". Dado que a sua preocupação quotidiana é "a preocupação por todas as Igrejas" assim escreve Paulo em 2 Cor 11, 28 está chamado a encher de sensibilidade católica todos os momentos.

Transformado pelo amor divino, cheio de zelo pelas almas, o missionário está cheio de amor pela Igreja. Xavier foi homem de Igreja de modo sincero e profundo. Deixai que me dirija a vós, estudantes provenientes das Igrejas dos vários continentes, para vos exortar e encorajar a cultivar este profundo sentido eclesial. 

O aperfeiçoamento dos vossos estudos aqui, em Roma, nesta universidade católica única na Igreja Católica pelo seu carácter missionário, tem este significado: apaixonar-vos pela Igreja. Aqui, onde Pedro e Paulo derramaram o seu sangue pelo Senhor, aqui onde Xavier recebeu a sua obediência, aqui onde surgiu a Congregação de Propaganda Fide para animar a obra missionária da Igreja, aqui onde é quase natural raciocinar com respiro católico, aqui espero de vós as mesmas palavras ricas de fé e de docilidade eclesial com que Francisco Xavier respondeu a Inácio quando lhe propôs a missão. "Pues, sus, hème aqui": pois bem, eis-mepronto. Este espírito eclesial permitirvos-á reviver o espírito de Xavier, juntamente com uma profunda, renovada preparação intelectual e humana, e fará que sejais capazes de realizar aquela primavera missionária que, hoje, a Igreja e a humanidade esperam.