terça-feira, 1 de novembro de 2016

Carta nº 34 de Inácio de Loyola AO PE. FRANCISCO XAVIER1 

Roma, 31 de Janeiro de 1552 (Ep. IV, 128)

 Jesus. A suma graça e o amor eterno de Cristo Nosso Senhor estejam sempre em nosso favor e ajuda contínua. 

Caríssimo Irmão em Nosso Senhor. Não temos recebido aqui este ano as vossas cartas, que sabemos ter escrito do Japão, pois ficaram retidas em Portugal. Apesar disso, alegramo-nos muito no Senhor por terdes chegado com saúde e por se terem aberto as portas à pregação do Evangelho nessa região. Praza Àquele que as abriu faça sair da infidelidade e entrar no conhecimento de Jesus Cristo, salvação nossa e redenção das suas almas, a essas gentes. Amen. 

As coisas da Companhia, graças unicamente à bondade de Deus, vão em progresso e contínuo aumento em todas as regiões da cristandade. Serve-se destes seus mínimos instrumentos Aquele que sem eles ou com eles é o autor de todo o bem. Sobre notícias em particular remeto-me a Mestre Polanco para que saibais que estou vivo na miséria desta triste vida. Praza Àquele que é a vida eterna de todos os viventes verdadeiros, dar-nos sua copiosa graça para que sempre conheçamos sua santíssima vontade e inteiramente a cumpramos.

 De Roma, 31 de Janeiro de 1552. Todo e sempre vosso no Senhor nosso2.

Inácio.

 1 Francisco Xavier, tendo partido para a Índia em 1541, desembarca no Japão em 1549. As suas cartas ficaram retidas em Portugal, mas Inácio alegra-se da sua chegada são e salvo dessa missão, e das suas esperanças do reino de Deus, que este facto significa. No fim do ano de 1552, Xavier morria solitário à vista da China, imensa região ainda fechada.

 

Carta 66 de Inácio de Loyola destinada  AO PE. FRANCISCO XAVIER1 


1 Esta carta chama para perto de Inácio aquele a quem o Japão acaba de se abrir. Seria que o fundador queria preparar um sucessor para si? É possível, mas os motivos do pedido para vir não o esclarecem. Evocam simplesmente a necessidade de alargar o campo do apostolado, a importância de informações precisas para a Santa Sé, que poderá tomar decisões com conhecimento de causa, a maior facilidade de recrutar pessoalmente missionários, sobretudo na Província de Portugal; e por fim a influência salutar que provocaria junto do rei D. João III a presença de Xavier. Inácio previne a objecção que poderia apresentar à ordem que ele dá e apresenta a consideração de um bem universal cada vez mais amplo que este chamamento significa (Dumeige, Lettres, 309-310).

Roma, 28 de Junho de 1553 (Ep. V, 148-151)
 Numa carta anterior, Inácio tinha comunicado a Xavier o desejo de o ver. Nesta, manda em virtude da santa obediência, que regresse à Europa, deixando qualquer tarefa que tenha entre mãos. As razões que lhe dá para tomar tão séria resolução, como diz na carta, são a conveniência de informar exactamente o rei de Portugal e a Santa Sé, para que possam tomar as medidas mais convenientes para a evangelização; dar um impulso ao envio de missionários, pois muitos com a sua presença se sentiriam animados a ir; poder seleccionar melhor as pessoas, conhecendo as qualidades que se requerem. Inácio ignorava, quando escrevia esta carta, que há mais de meio ano, Dezembro de 1552, Xavier tinha falecido.
 A suma graça e amor eterno de Cristo N. Senhor esteja sempre em nossa ajuda e favor.


 Caríssimo Irmão no Senhor nosso, Recebemos as vossas cartas de 28 de Janeiro de 52, mais tarde do que seria natural, por causa da dificuldade do envio de Portugal para Roma. Por este motivo não recebestes resposta tão depressa como eu desejaria2. Soubemos que Deus N. Senhor abriu as portas ao anúncio do Evangelho e conversão dos pagãos no Japão e na China por vosso ministério3. Consolámo-nos muito em sua Divina Majestade e esperamos que o seu conhecimento e glória se estenda cada dia mais e se possa perpetuar e progredir o rebanho dessas gentes com o favor divino. Pareceu-me também um acerto ter enviado à China Mestre Gaspar Berceo e outros4. E se vós mesmo fostes à China (aonde vos animais a ir), se não vos estorvam os assuntos da Índia, eu o considerarei bem feito, pois estou persuadido que é a Sabedoria divina que vos guia. Contudo, quanto aqui se pode pensar, julgo eu que será maior serviço de Deus para a vossa pessoa, se ficardes na Índia, enviando outros e orientando-os para que realizem o que vós realizaríeis, porque desta maneira fareis em muitas partes o que vossa pessoa faria numa. Acrescento mais: olhando para o maior serviço de Deus Nosso Senhor e auxílio das almas nessas regiões, e ao quanto depende de Portugal o bem delas, determinei mandar-vos em virtude da santa obediência que, entre tantos caminhos, empreendais este de Portugal, na primeira oportunidade de boa viagem; isto vos mando em nome de Cristo Nosso Senhor, embora seja para voltar depressa à Índia. Para que lá possais persuadir os que quereriam deter-vos para o bem das Índias, dir-vos-ei as razões que a isto me movem, olhando por outro lado ao bem delas5. Em primeiro lugar, já sabeis quanto importa para a conservação e aumento da cristandade nessas partes, na Guiné e no Brasil, a boa ordem que o rei de Portugal, quando informado de quem conhece, por experiência, os assuntos dessas terras, tão bem como vós, podeis pensar que se moverá a realizar muitas propostas vossas para o serviço de Deus N. Senhor e auxílio dessas regiões. Depois importa muito que a Sé Apostólica tenha informações certas e completas do estado das Índias, de pessoa fiável para ela. Pois deve tomar decisões sobre meios necessários ou muito importantes para o bem dessa cristandade nova e dos cristãos antigos que aí vivem. Também para isto vós sois mais indicado do que qualquer outro dos que aí se encontram, pelo conhecimento que tendes do país e do que se tem aqui da vossa pessoa. Igualmente sabeis quanto importa, para o bem das Índias, estarem lá os homens idôneos, para o fim que se pretende nessas e noutras regiões. A vossa vinda a Portugal e a Roma será grandemente útil para esta finalidade. Porque não somente se moverão muitos mais a desejarem ir para aí, mas ainda, dos candidatos vereis os que são mais aptos para ir ou não ir, os que são mais para um país ou para outro. Julgareis vós mesmo quanto importa o acerto neste ponto. Não basta o que escreveis de lá para nos dar ideia exata, se vós mesmo não tratais e conheceis os que se hão-de enviar6.
 Independentemente dessas razões, todas para o bem das Índias, penso que inflamareis o rei para o problema da Etiópia. Há tantos anos que se está para executar e não se acaba de concluir. O mesmo sucede no caso do Congo e do Brasil; podereis de Portugal ajudar muito, o que não podeis conseguir na Índia, por falta de comunicação. Se aí parecer que é importante para o governo a vossa presença, podeis governar não menos de Portugal do que do Japão ou da China; antes muito melhor. Numerosas e bem mais longas ausências tivestes de sofrer. Ajuntai esta, deixando aí os reitores que vos parecer e alguém encarregado do cargo geral de tudo, com os consultores que julgardes mais aptos. Deus N. Senhor estará com eles. Sobre outros assuntos, remeto-me a Mestre Polanco. Encomendo-me muito de coração às vossas orações e rogo à divina e suma bondade queira dar a sua inteira graça para sentirmos e perfeitamente cumprirmos a sua santíssima vontade.

 De Roma, 28 de Junho de 1553.

Vindo a Portugal, estareis à obediência do rei que disporá da vossa pessoa para glória de Deus N. Senhor. Todo vosso no Senhor nosso.
INÁCIO

Notas:
 2 Esta carta vai encontrar Xavier já falecido desde o início de Dezembro de 1552. Só em Outubro de 1555 se veio a saber na Europa essa notícia.
3 O anúncio do Evangelho no Japão, desde 15 de Agosto de 1549, já era uma realidade. Xavier detivera-se aqui mais de dois anos. O anúncio na China era só projecto. Às suas portas, na ilha de Sanchoão, a 10 km da costa, morria o Apóstolo na noite de 2 a 3 de Dezembro de 1552.
4 Grande missionário de Ormuz e da Índia.
5 Segue um modelo de discernimento pelo 3º tempo (EE. 177).
6 Xavier teve de remeter para Portugal vários que não eram aptos para a Índia.