quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

São Francisco Xavier zeloso missionário de Cristo


AMOR A DEUS, AO PRÓXIMO E A SI MESMO


«Julgou bem aquele que, desejando compreender a admirável vida do grande Apóstolo das Índias, disse que ele foi todo de Deus, ao zelar pela glória do Pai, tudo do próximo, ao procurar a salvação deste, e tudo de si mesmo, ao trabalhar pela própria santificação.
A santidade tem por fundamento o amor a Deus, sendo este o primeiro e o maior dos preceitos, a chama vivificante da vida cristã. E se na terra houver santo que tenha rivalizado com os mais elevados Serafins, sem dúvida é São Francisco Xavier. Desde o dia de sua conversão até o último de sua existência, cresceu continuamente na caridade, chegando quase a ser consumido por ela, com apenas 42 anos de idade. Nô-lo dizem seus êxtases, seus arrebatamentos, sua contínua união com Deus, suas incessantes fadigas para tornar conhecido e amado Nosso Senhor Jesus Cristo, seu contínuo aspirar a coisas sempre maiores.
E com o amor a Deus, crescia sempre mais nele, o amor aos irmãos. Queria reconduzir à casa do Pai Celeste todos os que se desviaram do caminho e conquistar, para o Evangelho, todos os pagãos. Por isso, abandona a Pátria, aventurando-se em longas viagens por terra e mar e percorre, palmo a palmo, imensas terras, para anunciar a todo mundo a Boa Nova. Os perigos de todo tipo, as perseguições, as privações, as fadigas, as intempéries, as dores físicas e morais, ao invés de resfriarem, acendem mais seu zelo. Aliás, perante este feixe de cruzes, exultante repete, com santa alegria: Plura, Domine, plura! – Mais, Senhor, ainda mais! Tudo isso nos dá conta da fecundidade de seu apostolado, que conquistou para o Evangelho milhões de almas, como dons  extraordinários com que o Senhor quis honrar seu servo, para chancelar, junto aos povos, a missão deste.
E, enquanto trabalhava continuamente pela salvação das almas, nada perdia de sua união com Deus. Em meio às mais graves e variadas dificuldades, encontrava tempo para todas as obras de piedade, com vistas a alimentar o espírito. Delas, aliás, retirava continuamente a força e a energia para sempre novas labutas visando a salvação dos irmãos e novas ascensões na perfeição cristã.
Inspiremo-nos nos exemplos de Xavier e lembremos sempre que, se quisermos ser dignos apóstolos do Evangelho, também devemos ser todos de Deus, do próximo, de nós mesmos. Somente deste modo poderemos dar a Deus toda a glória que lhe é devida.»
Enquanto missionava pelo Oriente, contavam-se muitas histórias a seu respeito, e dizia-se que Francisco era capaz de prever o futuro, ver acontecimentos que se desenrolavam à distância e acalmar as tempestades marítimas com boas palavras. A imagem de São Francisco Xavier surge geralmente associada a um símbolo composto com um caranguejo com um crucifixo nas tenazes. Este símbolo relaciona-se com um dos milagres que lhe é atribuído.
Segundo a tradição, esse milagre deu-se certo dia, quando São Francisco Xavier navegava ao largo das ilhas Molucas, em que rebentou um temporal medonho. Os marinheiros, aflitíssimos, julgando que chegara o último dia das suas vidas, gritavam em altas vozes pedindo a Deus misericórdia. Como de costume, São Francisco manteve a serenidade, pegou no crucifixo de madeira que sempre trazia consigo e mergulhou-o nas águas revoltas. Os vagalhões desfizeram-se logo e o crucifixo desapareceu no mar. Quando o navio chegou à praia e os tripulantes desembarcaram, viram sair das ondas um enorme caranguejo que trazia o crucifixo perdido para o devolver ao dono. São Francisco Xavier recolheu-o sem dizer palavra e o caranguejo voltou para o mar.


São Guido Conforti era devoto de São Francisco Xavier


Como Guido M. Conforti o conheceu e o propôs a nós.

Além do fascínio pelo Cristo Crucificado, há um segundo, que caracteriza a vida e a ação de Guido M. Conforti, e é aquele relacionado à pessoa de Francisco Xavier. Tanto nos escritos quanto na pregação, com muitíssima freqüência, refere-se a ele espontâneamente, de quem fala como de um amigo, de quem conhece e lembra de cor a virtude e a ação, podendo discorrer sobre ele sem necessidade de um texto preparado2. Suas intervenções neste assunto traçam lineamentos precisos e pontuais, de modo a oferecer claramente “um Xavier segundo Conforti”.
Para Conforti «o Xavier», como ele costumava dizer, é o homem que soube se deixar ransformar pelas Palavras do Evangelho, soube vivê-lo, empregando toda sua força de vontade. Configurouse, assim, a Jesus Cristo, como sua cópia fiel, assumindo-lhe a fisionomia, mediante a contemplação e a realização da caridade, na oração e na união com Deus, até se tornar apóstolo obediente.


O sonho e a bênção do bispo de Parma e fundador dos Xaverianos
«E agora, como vosso Bispo, seja-me permitido expressar um ardente voto: o de que, entre nossa exuberante juventude, surjam imitadores da vida apostólica de Francisco Xavier; como daquela Parma de seus dias, que viu a ele acorrer Antônio Criminali, para ser seu companheiro nas lutas e triunfos, e que, poucos anos mais tarde, derramava seu sangue pela Fé, tornando-se o primeiro mártir da nobre Companhia de Jesus.
Nesta nossa cidade surge um Instituto que recebe o nome e a inspiração de Xavier e já acolhe, de todos os cantos da Itália, uma bela turma de jovens animados, desejosos de participar das pacíficas conquistas da fé. Eu gostaria que, nesta nobre turma, fosse maior do que é o número dos filhos desta terra sempre sensível a tudo o que é belo e grande. Deposito esse voto ardente aos pés do altar do sublime Apóstolo das Índias, para que o apresente ao Rei imortal dos séculos. Que, pelos merecimentos de tal Intercessor, o torne fecundo, com aquela bênção que move os apóstolos.»

São Francisco Xavier: apóstolo obediente


« Os Santos que alcançaram os mais altos cumes da perfeição não se dão, porém, por satisfeitos com isso: eles experimentam o sublime êxtase do sofrer; com o Apóstolo Paulo, exclamam: Superabundamos de alegria em todos os sofrimentos!7. Eles, juntamente com Xavier, à chegada das provas mais difíceis, generosamente dizem a Deus: “Mais, Senhor, ainda mais!”. Isso, porque são animados pela mais pura e ardente caridade, que os leva a procurar, em tudo, a aprovação de Deus, e a se tornar um em Jesus Cristo. Compreenderam a santa loucura da cruz, em toda a sua extensão, que o mundo, envolto nos prazeres dos sentidos, nunca poderá compreender.»

«Então teremos por eles (os Superiores) e por sua obra todo o devido respeito. Uma palavra deles, um desejo, um voto, todo o complexo de sua orientação será, para nós, como uma ordem. Assim agia São Francisco Xavier que, a um gesto de seu pai, Santo Inácio, teria abandonado, sem duvidar, todos seus grandiosos projetos de conquistas cristãs, até mesmo afastando-se para sempre do campo do apostolado. Assim fizeram outros Santos que, nas ordens de seus Superiores, reconheciam a vontade de Deus e as amorosas disposições de sua Providência. Imitemo-los, se quisermos nos salvaguardar das sutis insídias do amor próprio, que nos impelem sempre a antepor nossa vontade à de Deus, com perda do merecimento que poderíamos adquirir a seus olhos.»

Xavier “formado segundo o Cristo” nas dificuldades e nos sofrimentos
«Todos os que são compelidos por esta fome e sede (de justiça) serão saciados porque, no caminho da perfeição cristã, Deus lhes estenderá a mão, os confortará, os atrairá a si por caminhos admiráveis, e satisfará todas as aspirações de seu grande coração. Acontecerá, com eles, o que escreve o Salmista Real, isto é, que a alma percorre, com passos de gigante, o caminho dos preceitos divinos, quando Deus o amplia com o sopro de sua graça: Viam mandatorum tuorum cucurri cum dilatasti cor meum.
Xavier também viveu essa experiência e, no meio das dificuldades do apostolado, experimentava uma superabundância de felicidade, que o obrigava a dizer a Deus: Satis, Domine, satis, satis! – basta, Senhor, basta!”.»

São F. Xavier contemplativo na caridade, na oração e na união com Deus



«A santidade tem por base o amor a Deus, sendo este o primeiro e o maior dos preceitos, a chama vivificante da vida cristã. E se na terra houver santo que tenha se equiparado aos mais elevados Serafins, ele é, sem dúvida, São Francisco Xavier. Desde o dia de sua conversão até o último dia de existência, cresceu continuamente na caridade, por ela quase chegando a ser consumido quando contava somente 42 anos de vida. Nô-lo dizem seus êxtases, seus arrebatamentos, sua contínua união com Deus, sua incessante labuta para tornar Nosso Senhor Jesus Cristo conhecido e amado, seu contínuo aspirar a coisas sempre maiores. E, com o amor a Deus, ia crescendo, sempre mais nele, o amor aos irmãos.»
«Francisco Xavier, quando não conseguia, com a pregação, a conversão de alguma alma perdida, acrescentava noites de oração e a mortificação da própria carne, sempre alcançando os mais belos triunfos sobre as mentes pervertidas e sobre os corações corruptos. Como bem podeis ver, aqueles mais generosos pagam as dívidas dos que têm menos; nossos sacrifícios, nossas orações, conseguem maravilhas de graças, nossas penas passageiras preparam, para muitos, as eternas felicidades do céu.»

São Francisco Xavier: cópia fiel de Jesus Cristo


«A minha vida é Cristo, dizia o Apóstolo: mihi vivere Christus est3. Nesta palavra está contido o segredo da santidade. A santidade consiste em viver da vida de Cristo. Alguns são a imagem de seu poder, outros, de sua humildade, alguns, de sua mansidão e  utros, de sua fortaleza. O Cristão é um outro Cristo. E isso nós percebemos claramente também em nosso celebrado Protetor, São Francisco Xavier.
Façamos uma comparação entre ele e Cristo, modelo dos predestinados, e veremos que foi cópia fiel do Mestre. Cristo viveu desapegado de todas as coisas terrenas. Francisco Xavier, por meio de uma máxima do Evangelho, descobriu o nada, desapegando-se de tudo - da família, da pátria, das riquezas -, e abraçando a pobreza de Cristo.
A vida de Cristo encontra-se resumida naquelas palavras por Ele pronunciadas: in iis quae patris mei sunt oportet me esse4; Francisco toma, como palavra de ordem de sua vida: ad majorem Dei gloriam5. Não procura que uma coisa, a glória de Deus, torná-lo conhecido entre aqueles que jazem nas trevas; para isso, enfrenta viagens, perigos, as intempéries, e as perseguições do inimigo do nome Cristão.
Nós também, como quer o Apóstolo, temos de crescer em Jesus Cristo ut crescamus in illum6. Com o Batismo ele nos transmite sua vida, com a Crisma, a aperfeiçoa, com a Comunhão, a alimenta, com a Penitência, cura a enfermidade e acrescenta novo vigor. Cristo cresce a cada dia, a cada hora nas almas santas. Toda boa obra, todo ato virtuoso faz Cristo crescer em nós, mas as artérias pelas quais a vida de Cristo se transfunde em nós e se aperfeiçoa são a oração e os Sacramentos. [...]
Francisco Xavier precedeu-vos com seu exemplo: imitai-o e ireis fazer parte da glória imortal que agora o circunda no céu.»

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

A Ordem Religiosa de São Francisco Xavier

Desde o início das atividades da Ordem, os jesuítas demonstraram que vieram para contra-atacar a heresia existente.  O grupo fundador conseguiu harmonizar a formação espiritual e intelectual, de tal forma que conciliou a resistência física necessária ao desempenho das missões em terras longínquas e carentes de tudo, com a habilidade de estudar e conviver com as autoridades locais e colonizadores. Todos receberam noções de política, administração e finanças. Com grande capacidade de inculturação, estavam sujeitos a doenças desconhecidas resultantes de alimentos estranhos.  Carentes de transporte e estradas, adentravam pelas matas e sertões percorrendo trechos intermináveis, geralmente a pé enxuto, atravessando pântanos e rios em busca de nativos e colonos dispersos.  Em um só dia eram capazes de caminhar até quarenta quilômetros. Seguindo a orientação do provincial, concentravam esforços em primeiro educar os filhos dos nativos e os colonizadores portugueses ignorantes nas regiões do Oriente, bem como silvícolas, mamelucos e escravos na colônia do Brasil.  Estavam  convictos que a educação permitiria desenvolver a fé. Foram incansáveis nas missões.
Cultos por excelência, esforçavam-se em dominar a língua nativa e souberam incomodar as autoridades, implantando pacificamente, o medo e, através do poder da cultura, sobrepor a intolerância do poder.  Apesar de humildes, sobressaíam na intelectualidade de um Valentin Stansel, estudioso do Brasil através de suas publicações Mercurius Brasilius e Uranophilus Caelestis Peregrinus.
Conscientes de que o conhecimento os conduzia à fé, já tinham no colégio em Salvador, uma biblioteca que ultrapassava 3500 volumes no fim do século XVII, onde poderia ser encontrado publicações do alemão, jesuíta e matemático Cristóvão Clávius cujos importantes trabalhos tais como a reformação do calendário gregoriano e a descoberta da segunda maior cratera da Lua, o fêz ser considerado o Euclides do século XVI.  Nem mesmo o mecanismo de circulação sanguínea escapou de seus estudos conforme pode ser encontrado nos trabalhos do jesuíta português Francisco Soares Lusitano. Dos colégios jesuíticos da colônia saíram os melhores   artífices e construtores da época.
Colaboração: Ubirajara de Carvalho

S. Francisco Xavier e os Paravás: um caso de amor

Os Paravás, um caso de amor

Situado a cerca de mil quilômetros ao sul do Sri Lanka, disperso desde o Camorim até a Ilha de Manar, Xavier encontrou um povo esquecido que vivia de promessas desde quando receberam o batismo acreditando ter, a partir de então, a proteção dos portugueses contra os árabes e hindus, o que nunca aconteceu até a chegada de Xavier. Habitando a Costa da Pescaria, tão inóspita e pobre, os paravás eram uma subcasta tão abandonada que nenhum português ou espanhol conseguiu se fixar lá.  Evangelizá-los, corretamente, só foi possível com a chegada do jesuíta Francisco Xavier.
Ele encontrou um povo sem instrução, dócil e cheio de medo, dominado pelos rajás do interior e explorados pelos atravessadores maometanos chegados do mar e pela elite hindu do interior. O jesuíta sentiu o jogo de interesses reinante, tal como encontramos hoje o nosso Brasil.  Com certa frequência tomou conhecimento da matança que acontecia, por vezes, quando um pescador revoltado sequestrava e matava um explorador. A vingança era imediata, matavam os pescadores, mulher e filhos, obrigando outros a fugirem para se salvar. Felizmente, Xavier com sua doçura e carisma, foi conquistando a todos, especialmente as crianças que não resistiam aos seus encantamentos e, por extensão, os adultos que se aproximavam por medo da vingança árabe. Na época da colheita nos bancos de ostras, juntavam cerca de 7.000 pescadores.  Desenvolviam um trabalho de alto risco, mergulhando a mais de 10 metros de profundidade. Tampavam os ouvidos e as narinas com cera, uma pedra atada no pescoço, uma cesta na cintura e uma faca nos dentes. Mergulhavam cerca de 50 vezes ao dia, permanecendo três minutos para voltar à superfície sem ar, muitos expelindo sangue e alguns com espasmos para morrerem a seguir. No pico da estação de pesca a fiscalização apertava, pois além do tributo ao rei, apareciam os gananciosos intermediários que sobretaxavam os pobres pescadores. O trabalho de Xavier fez os paravás abandonarem as tradições hindus e uma massificação da fé ocorreu.
O missionário conseguiu o impossível, criando uma comunidade sólida na fé, abrangendo todos os povoados. Sentindo a aceitação dos ensinamentos de Cristo mesmo sem falar a língua nativa, tratou de traduzir o catecismo para a língua nativa (tâmil), o que resultou em sucesso total, pois celebrava na língua nativa, abandonando o idioma latino. Batizou cerca de 40.000 nativos, deixando cristãos espalhados por toda a Costa da Pescaria.
Entretanto, conquistar os paravás não foi tão fácil assim, pois Xavier caminhava descalço, de aldeia em aldeia e com os pés e as pernas inchadas e narinas cheias de pó.  Alimentava-se mal, uma única vez ao dia de pão e água ou um punhado de arroz sem tempero.  Eventualmente, ofereciam um peixe assado ou cozido e a sua chegada em cada vilarejo era um acontecimento.
Na Costa da Pescaria, Xavier proporcionou saúde a muitos moribundos e ressuscitou vários mortos. A qualquer boato ou notícia firme de ataque dos badegás contra os paravás, Xavier revoltado clamava …  Ó Jesus, acuda meus queridos paravás. Arriscou a vida inúmeras vezes na defesa desse povo.  Ele ergueu choupanas com um tosco altar chamadas cabanas capelas onde orava fervorosamente. Ao retornar para Goa levou consigo vários paravás que desejavam tornar-se sacerdotes.
Colaboração: Ubirajara de Carvalho

Os "filhos" de São Francisco Xavier firmes na fé

costa da pescaria

Os paravás[1] batizados e evangelizados pelo missionário Francisco Xavier na Costa da Pescaria[2] tinham verdadeira paixão pelo jesuíta. Eles foram os que mais conservaram a fé dentre todos os povos indianos. Quando os holandeses assumiram a Costa da Pescaria auxiliados pela ação maléfica do Marques de Pombal, os missionários cristãos embrenharam-se nas florestas e, ocultamente, continuaram a exercer seu ministério cristão atendendo os paravás.  Eles compareciam em massa todos os domingos na floresta para assistirem a santa missa às ocultas.
Convencidos de que ganhariam os paravás, e preocupados com a ausência de plateia nas pregações, os novos colonizadores mandaram vir um ministro protestante da Batávia[3] tido como de grande eloquência. O chefe dos paravás ouviu humildemente a fala do holandês que por três horas seguidas expos  as vantagens da sua doutrina. No final e já fatigado, perguntou ao nativo sobre o que pensava do exposto e recebeu a resposta:
–  A fé que nós professamos foi-nos pregada pelo grande padre Francisco Xavier que operava tantos milagres quantas palavras proferia. Se vós quereis fazer-nos crer a vossa doutrina, tente superar maior número de milagres do que ele fez.
A seguir começou a enumerá-los:
_  Ele ressuscitou três mortos aquí e curou muitos dos doentes na Costa da Pescaria e em Travancor. Lá em Malaca, dizem e confirmam que, logo após seu corpo chegar na cidade, a peste parou. Citam que mais de 800 milagres ocorreram por lá no ano seguinte.  Faça mais do que ele fez para eu acreditar em ti.
O missionário holandês sentindo que perdia o seu tempo, agradeceu e embarcou de regresso.

[1] Povos da Índia
[2]  “Costa de Pescaria”, na costa este do Sul da Índia, a norte do Cabo Comorim, território dos paravás.
[3] A Batávia é uma região histórica nos Países Baixos.
Colaboração: Ubirajara de Carvalho

Sâo Francisco Xavier: O dom de línguas no Reino de Travancor nas Índias

Em fins de junho de 1544 Xavier chegava a Coimbatur e falava ao povo quando vieram trazer ao sacerdote as más notícias sobre os queridos paravás. Os badegás do reino de Visnagar invadiram mais uma vez a Costa da Pescaria, parte meridional do reino de Travancor, e trucidaram vários pescadores paravás e suas famílias. Os badegás espoliavam  os paravás no comércio de pérolas, não concordavam com a matança de peixes por motivos religiosos e perseguiam, constantemente, os pescadores e mergulhadores da Costa.  Muitos conseguiram fugir para a floresta e poucos entraram nas cavernas.  Incontinente, Xavier escreveu ao rei de Travancor, implorando suspender a matança generalizada. Conhecendo a missão de Xavier, o rei atendeu o sacerdote mas não foi obedecido por seus súditos integralmente. Depois de muitas dificuldades Xavier, acompanhado de Vaz Fernandes (cristão do Malabar) entrou no reino convencido que seria massacrado. Iriam se deparar com uma multidão em guerra contra os habitantes da Costa da Pescaria, armados até os dentes. Entretanto, Francisco Xavier lembrou-se  de Jesus em Lc 21,13-15 “Esta será a  ocasião em que testemunhareis a vossa fé. Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; porque eu vos darei palavras tão acertadas que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater”.

A população guerreira cercou o sacerdote para trucidá-lo mas decidiram ouvi-lo no que tinha a dizer. A língua não tinha semelhança com aquelas já conhecidas pelo santo homem. Entretanto, guiado pelo Espírito Santo, ele conseguiu compreender a fala do povo e o protesto;  falou e se expressou na língua local com desenvoltura e conquistou a  todos. Sua fala conseguiu transformar o povo de inimigo em aliado. Aos poucos foram deixando cair suas lanças e escudos e, rapidamente,  toda a Costa de Travancor  foi sendo transformada e evangelizada.  Ele conseguiu  erigir quarenta e cinco igrejas e batizar dez mil pagãos em um mês. Um gigante a serviço de Deus. Aliás, ele foi o gigante português nascido no reino de Navarra e, quando  o Brasil, foi colonizado já era considerado o santo do reino de Portugal e Algarves.
Colaboração: Ubirajara de Carvalho 

Vida e obra de São Francisco Xavier

Francisco Xavier nasce perto de Pamplona, Espanha, a 7 de Abril de 1506, quinto filho de D. João de Jassu, Senhor de Xavier e Ydocin, e de Dona Maria de Azpilcueta e Xavier. Aos 19 anos está em Paris, instalado no Colégio de Santa Bárbara, a estudar Humanidades. Forma-se depois em Filosofia e Teologia pela Sorbonne.
Aí conhece Inácio de Loyola que viria a ser fundador da Companhia de Jesus. Torna-se seu amigo e seguidor.
A 15 de Agosto de 1534, na Capela de Montmartre, faz votos de pobreza e castidade perpétua. Recebe as Ordens Sacras em Veneza a 24 de Junho de 1537, seguindo depois para Roma onde se põe à disposição do Papa para o serviço da Igreja. A 15 de Março de 1540 parte de Roma com destino a Lisboa, onde chega três meses depois.
Enviado pelo Papa Paulo III, era a resposta de Roma aos apelos veementes do Rei de Portugal, D. JoãoIII, preocupado com a evangelização da Índia e a dilatação da Fé no Oriente.
 De Portugal para o Oriente
Chegado a Lisboa, o Pe. Francisco Xavier refugia-se no Hospital de Todos-os-Santos onde de imediato se dedica aos enfermos e ao ensino da doutrina cristã. Ganha em pouco tempo a percepção do universalismo dos portugueses e de Lisboa larga, a 7 de Abril de 1541, na armada das índias, para ser Apóstolo e Santo. Antes da partida, o Rei D. João III entrega-lhe o Breve Papal nomeando-o Núncio Apostólico nas Partes da índia, com amplos poderes para estabelecer e manter a Fé em todo o Oriente.
Depois de uma breve passagem em Moçambique, chega a Goa a 6 de Maio de 1542. Logo se apresta a ir oferecer os seus serviços a D. João de Albuquerque que pastoreia a Diocese de Goa, na altura a mais dilatada da Cristandade. Rapidamente se apercebe de uma vida religiosa local muito precária, e carenciada de assistência. Os pouco mais de dez anos que se seguem até à sua morte, vai vivê-los de forma febril, andando por terra e por mar, sem nunca parar, num frenesim constante a espalhar a palavra Divina, a levar a Boa Nova.
Logo em Outubro de 1542 parte para o Sul da índia a evangelizar os pescadores da Costa da Pescaria. Visita Comorim, Manapar e Tuticorim. Em Outubro de 1543 regressa a Goa. Fundada canonicamente a Companhia de Jesus, o Padre Francisco Xavier é nomeado Superior de toda a Missão da índia Oriental, desde o Cabo da Boa Esperança até à China. Volta à Costa da Pescaria. Visita depois Cochim, Malaca, as Molucas, Macassare, Ceilão. Ensina, baptiza, e concilia príncipes desavindos.
 Morte em Sanchoão
A 15 de Agosto de 1549, via Cochim e Malaca e navegando pelos mares da China, chega a Kagochima, na costa meridional do Japão. De regresso a Cochim envia cartas ao Rei D. João III. Solicita-lhe reforços missionários. Tentando a missionação na China, para lá se dirige a bordo da nau Santa Cruz. Em Singapura volta a escrever a D. João III. Em Setembro de 1552 desembarca na Ilha de Sanchoão, a dez léguas da Ilha de Macau, na China.
Aí adoece gravemente. Sofrendo vertigens e convulsões, minado por febres devoradoras, cheio de privações, morre só e pobre na noite de 2 para 3 de Dezembro de 1552. Havia percorrido milhares de quilómetros, cruzado várias vezes os mares do Índico e do Pacífico, visitado mais de cinco dezenas de reinos, fundado Igrejas, reorganizado as missões.
Exemplo de humildade e de solidariedade cristã, de amor ao próximo e de evangélica pobreza, era venerado por milhões de pessoas de todas as condições sociais, de todas as idades, de todas as etnias. A fama de Santo, o "Santo de Goa", tinha chegado a toda a parte, as suas virtudes eram exaltadas.
Em 17 de Fevereiro de 1553 o seu corpo é removido e levado para Malaca e daqui para Goa, onde chega a 16 de Março de 1554. A recebê-lo, numa impressionante manifestação de Fé, estão o Vice-Rei, o Clero, a Nobreza e o imenso Povo.
 A subida aos altares
A devoção de que já gozava em vida vai crescer extraordinariamente depois da morte. Os seus milagres tornam-se conhecidos.
A 25 de Outubro de 1605 Francisco Xavier é beatificado por Paulo V e Gregório XV canoniza-o a 12 de Março de 1622. A
24 de Fevereiro de 1748 Bento XIV proclama-o Padroeiro do Oriente.
Em 1904 Pio X coloca sob a sua protecção a Sagrada Congregação da Propagação da Fé. Em 1927, Pio XI constitui-o, com Santa Teresa do Menino Jesus, protector de todas as obras missionárias.
O seu corpo repousa numa riquíssima urna de prata, na Basílica do Bom Jesus, na Velha Goa.
Para lá se dirigem todos os anos milhares de peregrinos, crentes e mesmo não crentes, venerando o "Homem Bom", o Apóstolo incansável.
A Igreja festeja-o todos os anos no dia 3 de Dezembro.