terça-feira, 6 de setembro de 2016

"S.F. Xavier intercessor dos homens" - Carta nº 99 ao Rei de Portugal

Carta nº 99
A D. JOÃO III, REI DE PORTUGAL
Cochim, 31 de Janeiro 1552
Original ditado em português
Senhor!
D. João, rei de Portugal



















Recomenda os habitantes de Malaca que com pessoas e bens se dis­tinguiram na defesa da cidade cercada
1. Havendo respeito ao serviço de Deus e de Vossa Alteza, lhe farei lembrança de certas pessoas que é necessário saber V. A. os serviços que lhe têm feito, para que dê os agradecimentos e para que continuamente o sirvam. Porque os homens de cá, que o seu gastam em serviço de Vossa Alteza, nenhuma coisa tanto desejam como sa­berem que V. A. está ao cabo dos seus serviços, para que os honre escrevendo-lhes e dando-lhes os seus agradecimentos.


2. Todos os moradores de Malaca, neste cerco1 [à cidade], servi­ram muito a Vossa Alteza, com suas pessoas e fazenda. Escreva-lhes Vossa Alteza, dando-lhes os agradecimentos com algumas liberda­des para que tornem a enobrecer a destruída e perdida cidade de Malaca.
Apresenta várias pessoas que por seus méritos e serviços merecem gratidão e recompensa do Rei
3. Francisco Borges2 e Gaspar Mendes3 e Mateus de Brito4, ho­mens solteiros, gastaram muito neste cerco. São abastados e, o que lhes fica, guardam-no para servir Vossa Alteza. Vossa Alteza deve--lhes escrever, dando os agradecimentos a cada um deles, porque ser­viram muito. E, porque o Padre Francisco Pérez escreve (*na carta de 24/11/1551) longamente as coisas de Malaca5, as deixo de escrever.
4. D. Álvaro6 escreve a Vossa Alteza, pedindo-lhe certa mercê e, para mais o obrigar a servir e restaurar aquela terra, deve-lha fazer.
1 De 5 de Junho a 16 de Set/1551, em que Malaca foi cercada pelos reis de Malaia e Java aliados, sucumbiram no cerco cem portugueses. A parte dos indígenas foi incendiada, as redondezas foram devastadas e a própria Malaca mui­to destruída                     
 3 Gaspar Mendes, já em 1539 tinha combatido em Malaca. No cerco de 1551, saiu ao ataque da marinha do inimigo e foi ferido por uma seta. Foi na sua nau que em 1552 Xavier enviou de Sanchão as suas cartas para Malaca (Xavier-doc. 135,1).
4 De Mateus de Brito, sabemos apenas que em 1541 navegou com o Governa­dor ao Suez (Lendas da Índia IV 163).
6 D. Álvaro Ataíde da Gama, filho de Vasco da Gama, em 1541 embarcou com Xavier para a Índia e de novo em 1550, para suceder a seu irmão D. Pedro da Silva na capitania de Malaca. Desde 1551 era ali capitão-mor do mar. Com essas atribuições, sem ser ainda capitão da cidade, impediu Diogo Pereira de realizar a embaixada à China, deixando apenas seguir a nau com Xavier, retendo o embai­xador em Malaca. Por isso foi deposto dos cargos em 1554 e enviado sob prisão para Portugal.
5. Vossa Alteza, quanto ao que cumpre muito a seu serviço acerca das coisas da Índia, informar-se-á de Manuel de Sousa, que é ho­mem que as entende e de quem Vossa Alteza deve fazer muita conta, porque nestas partes muito bem o tem servido.
6. Grandes notícias acho dos cristãos do Cabo de Comorim, que são para dar muitos louvores a Deus. Do fruto que se faz, grande parte é [graças a] Manuel Rodrigues Coutinho8. Os cristãos e o Pa­dre Henrique Henriques escrevem a Vossa Alteza sobre ele e sobre algumas coisas que convêm para o serviço de Deus e de Vossa Alteza. Por amor de Deus, despache-as e, se quer cristandade naquelas par­tes, mande a Manuel Rodrigues Coutinho que esteja aí em sua vida. Em tempo está agora a Índia, em que Vossa Alteza tem necessidade de se assinalar nas coisas do serviço de Deus mais que nunca.
7. Lopo Vaz Coutinho9, homem fidalgo, tem muito servido e gastado em serviço de Vossa Alteza. É pobre e bom, como seu irmão Manuel Rodrigues Coutinho. D. João de Castro, por saber dos seus muitos serviços e também [de] se achar em Diu, mandou[-o] pedir a capitania de Maluco. Faça-lhe Vossa Alteza a mercê que lhe parecer, porque muito bem a merece.
8. D. Jorge de Castro10, Vasco da Cunha, Francisco Barreto12, são homens que servem muito Vossa Alteza. Têm boa fama na Ín­dia. Deve Vossa Alteza fazer muita conta deles.
9. Fernão Mendes13 tem servido a Vossa Alteza nestas partes e emprestou-me no Japão trezentos cruzados para fazer uma casa em Amanguche. Ele é homem rico. Tem dois irmãos, Álvaro Mendes14 e António Mendes15. Para os obrigar a gastar o que têm e [a] morrer em serviço de Vossa Alteza, me fará mercê de os receber por moços da câmara. Álvaro Mendes esteve no cerco de Malaca.
10. Guilherme Pereira16 e Diogo Pereira são dois irmãos, ho­mens muito ricos e abastados. Servem muito a Vossa Alteza com suas fazendas e suas pessoas. Escreva-lhes Vossa Alteza os agradecimentos e honre-os, para mais os obrigar a servi-lo. Eles são muito meus ami­gos. Eu, porém, não os encomendo por via da amizade, mas pelo que respeita ao serviço de Vossa Alteza. Diogo Pereira, no tempo de Simão de Melo18, muito gastou e pelejou em destruir os achens.
11. Pero Gonçalves, vigário de Cochim, serve muito a Vossa Alteza. Em tempos passados fez-lhe mercê de o tomar por capelão. Pede agora a Vossa Alteza que, tendo em consideração os serviços e gastos que faz pelos cristãos, lhe faça mercê de lhe mandar pagar moradia de capelão ou acrescentar o ordenado. Ele tem cá um so­brinho, por nome Pero Gonçalves, a quem Vossa alteza, há dias, por minha intercessão, fez mercê de um alvará de lembrança de moço de câmara, para quando voltasse a Portugal. Ele não vai de cá, pois é casado e serve cá a Vossa Alteza nas armadas. Faça-me a mercê de lhe mandar alvará de moço de câmara. E mais: atendendo aos seus serviços, faça-lhe mercê de escrivão da escrivaninha da pescaria do aljôfar, ou da escrivaninha de Coulão.

8 Manuel Rodrigues Coutinho servira já na Índia em 1529-1539, tendo sido em 1537 capitão da Pescaria. Em 1541 embarcou novamente com Xavier para Índia e 1548 uma terceira vez. Em 1552-1561, ainda que com algum intervalo em 1554, foi novamente capitão da Pescaria (SCHURHAMMER, Ceylon ). Obteve o título de «fidalgo da casa real».
9 Lopo Vaz Coutinho, filho de Vasco Rodrigues Castellobranco, fidalgo, via­jou para a Índia em 1537 e 1541; em 1546 comandou uma nau na batalha de Diu e em 1548 acompanhou o Governador a Cambaia; em 1549, Fr. António do Casal recomendou-o ao Rei.
10 D. Jorge de Castro, nascido por 1494, partiu em 1507 para a Índia, onde participou em batalhas no Malabar, Molucas, Diu, Baçaim e Ormuz. Em 1539--1544 foi capitão de Ternate (Molucas); exilado para Malaca em 1546 por D. João de Castro, à morte deste, abalou para Ceilão, donde foi obrigado a sair por se meter em guerras locais. Regressado à Índia, foi capitão de Cochim e depois de Chale, cuja fortaleza, assediada em 1571 pelo rei de Calicut, entregou ao inimigo; traição que pagou em Goa com a pena capital em 1574 (SCHURHAMMER, Ceylon).
12 Francisco Barreto, partiu para a Índia em 1548; em 1549-1552 foi ca­pitão de Baçaim, onde prestou ajuda eficaz aos missionários. Em 1545-1558, sendo Governador da Índia, por mandato do Rei começou a tratar da causa de canonização de Xavier. Morreu em 1573 na invasão do reino do Monomotapa (SCHURHAMMER, Ceylon 586; COUTO, Da Ásia 6,6,7; ).
13 Fernão Mendes Pinto, autor do célebre livro Peregrinação, nasceu por 1514 em Montemor-o-Velho (Coimbra). Partiu para a Índia em 1537 e, em 1539, para Malaca onde exerceu comércio com vários países do Extremo Oriente. Encon­trou-se com Xavier em Bungo (Japão) em 1551. Em 1554, sendo já um dos mer­cadores mais ricos de Malaca, ao ver como o cadáver de Xavier era triunfalmente levado de cidade em cidade para Goa, resolveu entrar na Companhia de Jesus. Como noviço jesuíta foi enviado com o P. Melchior Nunes Barreto a Bungo como legado do vice-rei da Índia. Lá mesmo, deixou a Companhia de Jesus, regressou a Portugal, casou e veio a morrer em Almada em 1583 (SCHURHAMMER, Mendes Pinto).
14 Morreu mártir em Bintang, perto de Malaca, por 1553 (SCHURHAM­MER, Quellen; Zwei ungedruckte Briefe).
15 Em 1557 foi testemunha em Malaca no processo para a canonização de Xavier (MX II 419-422).
16 Guilherme Pereira, estabeleceu-se primeiro em Malaca, depois mudou para Cochim em 1547, mais tarde exerceu comércio no Japão (1559) e finalmente ins­talou-se em Macau (1562) onde se mostrou amicíssimo da Companhia de Jesus.
18 Simão de Mello foi capitão de Malaca em 1545-1548.
12. João Álvares, deão da Sé de Goa, homem com trinta anos de serviço, vai aí. Que Vossa Alteza o envie [de novo] para cá, para o servir. Sirva-se aí dele, favoreça-o e faça-lhe mercê, porque o merece.
13. Pero Velho22, sobrinho de António Correa23, encontrei-o no Japão. É homem rico e abastado e de muito serviço. Não é de Vossa Alteza. Peço-lhe muito, por mercê, que o tome por seu moço de câma­ra, para mais o obrigar a servi-lo e a gastar o que tem em seu serviço.
14. António Correa24 e João Pereira25 servem muito a Vossa Alteza nestas partes, assim nas guerras como em carga da pimenta.
Console-os Vossa Alteza, escrevendo-lhes os agradecimentos de seus serviços.
15. Diogo Borges26 trabalhou e gastou de tal maneira com o rei das ilhas Maldivas que o fez cristão27. Tem servido a Vossa Alteza nas armadas e está pronto para o servir. Escreva-lhe Vossa Alteza os agradecimentos do que gastou em fazer cristão o rei das ilhas.
16. Gregório Cunha28 morreu aqui, na guerra de Cochim29, com Francisco da Silva30. Ficou-lhe uma mulher e uma filha pe­quena desamparadas. Faça-lhes mercê de algumas viagens para o casamento da filha.
17. Pero de Mesquita31 há muitos anos que serve Vossa Alteza na Índia: lembre-se dele.
18. Gonçalo Fernandes, patrão-mor da Índia, há muitos anos que serve Vossa Alteza. Em satisfação dos seus serviços pede-lhe, por mercê, que lhe confirme o seu ofício de ser patrão-mor em [toda a] sua vida.
19. Luís Álvares33, homem velho, grande piloto, de 27 anos de serviço, em sua velhice, em satisfação dos seus serviços, pede a Vossa Alteza que lhe faça mercê de piloto-mor em [toda a sua] vida; no que a mim me fará muita mercê, porque tenho recebido dele muitas amizades e honras.
20. Álvaro Fernandes34, que é pai dos cristãos35 de Coulão, pede a Vossa Alteza que lho confirme. Os Padres da Companhia estão contentes com ele, porque é bom homem. Faça-lhe Vossa Alteza mercê dalgum ordenado.
21. Álvaro Fogaça pede a Vossa Alteza que, tendo em conside­ração os seus serviços, lhe faça mercê de três anos de capitania das viagens às ilhas de Maldiva.
22. Mateus Gonçalves37, morador em Cochim, pede a Vossa Al­teza que lhe faça mercê da confirmação de meirinho do monte em [toda a] sua vida, ofício que, por ser aceite à cidade, o Vice-rei lhe confirmou. Há muito tempo que serve. Todos os Padres da Compa­nhia que estão em Cochim lhe devem muito. A ele e a nós fará Vossa Alteza mercê em lhe confirmar o ofício.
23. António Pereira38, casado e morador em Coulão, pede a Vos­sa Alteza que lhe faça mercê da escrivaninha de Coulão. Dom Leão informará Vossa Alteza dos seus serviços.

24. Grande desconsolação recebi em achar Cosme Anes tão vexa­do40. Sempre o conheci grande amigo do serviço de Vossa Alteza e esteio da nossa Companhia nestas partes da Índia. O que me consola é que Vossa Alteza saberá a verdade e, por derradeiro, lhe fará mercê [a ele] e, a nós todos, nos consolará em o prover com justiça e dar-lhe satisfação conforme a seus serviços.
Pede desculpa de tantos pedidos e deixa-os à liberdade do Rei
25. Por serviço de Deus, peço a Vossa Alteza que me perdoe por ser tão importuno com encomendas de tantas pessoas. Em tudo fará o que for maior serviço seu, porque eu não desejo senão servi-lo. Nosso Senhor guarde o estado da Índia e, a Vossa Alteza, muitos anos para o acrescentar.
De Cochim, a 31 de Janeiro de 1552 anos
(Por mão de Xavier): Servo inútil de Vossa Alteza, FRANCISCO


22 Pero Velho partiu para a Índia em 1524. Foi um dos que esteve com Xavier em Sanchão em 1552; veio a morrer em Macau mais tarde (MX II 474-475; 477--478).
23 Naquela época eram conhecidos seis com este nome na Índia.
24 António Correia, nasceu por 1498. Em 1528 partiu para a Índia onde com­bateu ao longo de dez anos na marinha portuguesa. Ferido em Diu, entrou noutras batalhas a expensas próprias em 1546. Em 1540-1542 foi feitor de Baçaim e desde 1547 feitor de Cochim onde lhe competia velar pelos carregamentos de pimenta para Portugal (SCHURHAMMER, .
25 João Pereira, filho de Diogo Pereira, foi nomeado capitão da fortaleza de Cranganor em 1545. Favoreceu notavelmente os missionários, os cristãos e o comércio de pimenta que exerciam os cristãos de S. Tomé. Morreu em 1564.
26 Diogo Borges partiu em 1548 para o Oriente com o cargo de alcaide-mor das Molucas (SCHURHAMMER, Quellen).
27 Hasan, rei das Maldivas, cercado por insurrectos, em fins de 1549-50 veio a Cochim pedir auxílio ao vice-rei da Índia. Instruído na fé por António de Heré­dia, recebeu o batismo com o nome de Manuel em Dez/1551 aos 25 anos de idade. No ano seguinte, casou ali mesmo com Eleonora de Ataíde e já não voltou ao reino, vindo a morrer pobre em Cochim em 1583.
28 Gregório da Cunha tinha partido em 1549 (Emmenta 431).
29 Guerra que o rei Tekkumkuren, chamado rei da pimenta, e seus aliados fizeram contra o rei de Cochim aliado dos portugueses (1550-1551) pela ilha de Bardela (Varutala) (CORREA, Lendas da Índia IV 723-724; SCHURHAM­MER,).
30 Francisco da Silva de Menezes, capitão de Cochim desde 1547 (cf. COR­REA, ib. 724;
31 Pero de Mesquita esteve em Goa em 1527 e em Chaul em 1528. Em 1547, embarcou de novo para a Índia como capitão duma nau e lá foram-lhe concedi­das, como favor, três viagens de negócios às Molucas (CORREA, Lendas da Índia III 135). 
33 Naquela época eram conhecidas na Índia várias pessoas com o mesmo nome.
34 Eram conhecidas várias pessoas com o mesmo nome (cf. SCHURHAM­MER, ib. 54-55).
35 Sobre o cargo «pai dos cristãos» recentemente instituído, cf. DALGADO, Glossário II 139-140.
37 Nada mais se conhece dele. Meirinho do monte é o mesmo que meirinho do campo (cf. MX II 374).
38 António Pereira, pelos vistos, obteve o cargo pedido, pois em 1562 assinou a carta que os habitantes de Coulão escreveram ao Rei. Não confundir com outros do mesmo nome.


40 Sobre as vexações sofridas por Cosme Anes. O Gov. Cabral, irreconciliável adversário dele, desterrou-o para Cochim.