domingo, 22 de maio de 2016

Enciclopédia livre (S.F. Xavier - resumo)

Francisco Xavier

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
São Francisco Xavier, S.J.
Estátua de São Francisco Xavier em Mittelbrücke Bensheim,Alemanha
Presbítero e Apóstolo do Oriente
Nascimento7 de abril de 1506 em Xavier
Morte3 de dezembro de 1552 (46 anos) emSanchoãoChina
Canonizaçãopor Papa Urbano VIII
Festa litúrgica3 de Dezembro
Gloriole.svg Portal dos Santos
São Francisco Xavier, nascido Francisco de Jasso Azpilicueta Atondo y Aznáres (Xavier7 de abril de 1506— Sanchoão3 de dezembro de 1552), foi um missionário católico do padroado português e apóstolo navarro. Pioneiro e cofundador da Companhia de Jesus. A Igreja Católica Romana considera que tenha convertido mais pessoas ao Cristianismo do que qualquer outro missionário desde São Paulo, merecendo o epíteto de "Apóstolo do Oriente". Ele exerceu a sua actividade missionária no Oriente, especialmente na Índia Portuguesa e noJapão. É o padroeiro dos missionários, da Diocese de Registro (SP), também um dos padroeiros da Diocese de Macau e e co-patrono de Navarra juntamente com São Firmino de Amiens.
Foi beatificado, com o nome Francisco de Xavier pelo Papa Paulo V a 25 de outubro de 1619 e canonizado peloPapa Gregório XV, a 12 de março de 1622, em simultâneo com Inácio de Loyola. Em 14 de dezembro de 1927 o Papa Pio XI proclamou Francisco Xavier, juntamente com Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeiro universal das missões. O seu dia festivo é 3 de dezembro.

Infância, Juventude e Início da Vida Religiosa


castelo da família em Xavier, província de Navarra, mais tarde adquirido e recuperado pelaCompanhia de Jesus
Francisco Xavier nasceu no castelo da família em Xavier, no Reino de Navarra, a 7 de Abril de 1506, segundo o registo mantido pela sua família. Filho de famílias aristocráticas navarras, era o filho mais novo de Juan de Jasso (ministro de Finanças da corte do Rei João III de Navarra) e de María Azpilcueta y Aznárez, senhora dos palácios e vilas de Azpilcueta e de Xavier, única herdeira de duas famílias nobres de Navarra. O seu nome é correctamente escrito Francisco de Xavier e não Francisco Xavier, já que Xavier provém do nome da terra da qual a família é originária. Nem Francisco Javier, já que essa é a grafia castelhana. Além disso, Francisco de Xavier desempenhou o seu apostolado em território português e essa é a pronúncia portuguesa da mesma palavra.[1]
Em 1512, tropas castelhanas e aragonesas, comandadas por Fadrique Álvarez de Toledo, 2º Duque de Alba, atacam o Reino de Navarra. A família de Francisco está do lado da resistência ao invasor estrangeiro, mas a conquista consolida-se em 1515, quando Francisco tem oito anos. Depois de uma tentativa de reconquista franco-navarra em 1516, na qual os irmãos de Francisco tomam parte, a muralha, os portões e duas torres do castelo da família são destruídos, assim como o fosso que é tapado, a altura da torre de menagem reduzida para metade e as propriedades da família confiscadas. Só a residência da família dentro do castelo é poupada. Os irmãos de Francisco são encarcerados nas masmorras e condenados à morte, tendo no entanto obtido uma amnistia e sido libertados.
Durante muito deste período conturbado, Francisco não se encontrava em casa. O pai de Francisco morrera quando este tinha apenas nove anos e sua mãe, querendo que o filho estudasse, procurara enviá-lo para a universidade. No entanto, apesar das boas universidades castelhanas, como a de Salamanca e a de Alcalá, a mãe de Francisco não desejara naturalmente instruí-lo nas escolas do invasor, pelo que, aos catorze anos, o enviara para o Colégio de Santa Bárbara, em Paris, dirigido pelo português Diogo de Gouveia.

Capela de Saint-Denis, em Montmartre, Paris
No Colégio de Santa Bárbara, Francisco de Xavier foi preparado para prestar provas de admissão à universidade, completando estudos em filosofia, literatura e humanidades. É ainda aqui, que aprende a dominar as línguas francesa, italiana e alemã. É lá que vive todo o período que passa em Paris, primeiro como aluno e mais tarde como professor de filosofia do Colégio de Beauvais. Consta que terá feito grande sucesso entre os colegas por ser um rapaz muito inteligente, de espírito vivo e conversa fácil, bem constituído e bonito. Há relatos de que numa competição entre estudantes na ilha do rio Sena ter-se-á consagrado como campeão do salto em altura.
É neste período que conhece Inácio de Loyola, que sonhava formar uma companhia de apóstolos para a defesa e propagação do cristianismo no mundo. No início a relação entre Inácio e Francisco Xavier não era nada fácil[2] , pois os dois tinham objetivos antagônicos [3] mas Inácio convenceu Francisco Xavier com a seguinte frase: "De que vale a um homem ganhar o mundo inteiro se perder sua alma?" (Mc 8, 36)[4] , que Francisco Xavier adotou como lema. Francisco Xavier aceita participar de exercícios espirituais orientados por Inácio e depois torna-se um dos cofundadores da Companhia de Jesus[5] [6] .
No dia 15 de agosto de 1534,[7] Inácio de Loyola, junto com Francisco Xavier, Pedro FabroAlfonso SalmeronDiego LaynezNicolau Bobedilla e Simão Rodrigues, fizeram votos de castidade e pobreza na Capela de Saint-Denis, em Montmartre, Paris, colocando-se a disposição do Papa, para serem enviados aonde houver maior necessidade, e desse modo estavam fundando, ainda sem saber, a Companhia de Jesus[8] , congregação religiosa destinada ao ensino, à conversão e à caridade.
Enquanto anseia o reconhecimento do Papa, que só acontecerá em 1541, o grupo parte para Veneza com o objectivo de alcançar a Terra Santa. É aí, a 24 de Junho de 1537, que Francisco de Xavier é ordenado padre. Não chegando a pisar a Terra Santa em virtude da guerra entre venezianos e turcos, o grupo parte para Roma, onde Francisco serve por um breve período.

Missionário do padroado português


Viagens de São Francisco Xavier na Ásia
Em Roma, Francisco de Xavier sente-se muito abalado pela conquista do Reino de Navarra pelo Reino de Castela. É nessa altura que Dom João III, Rei de Portugal, por intermédio do seu Embaixador Pedro Mascarenhas faz sucessivos apelos ao Papa Paulo III para que este lhe envie missionários para espalhar a fé cristã pelos territórios descobertos pelos portugueses. Dom João III é aconselhado entusiasticamente pelo director do Colégio de Santa Bárbara, Diogo de Gouveia, a chamar para os Reino de Portugal os jovens cultos e inteligentes da Companhia de Jesus e pede assim ao embaixador de Portugal em Roma que sonde o grupo. Inácio de Loyola escolhe Simão Rodrigues e Nicolau Bobadilla para essa missão, mas Bobadilla fica doente e Franciso é nomeado seu substituto[9] [10] e chega a Portugal em 1540.
Francisco de Xavier parte de Lisboa para a Índia no ano seguinte, a 7 de Abril, acompanhado de outros dois jesuítas, Francisco de Mansila e Paulo Camarate. Partem a bordo da nau Santiago, uma das cinco naus da frota comandada por Martim Afonso de Sousa, que ia tomar posse do cargo de governador na Índia.[11]
Em Agosto ancoraram junto da ilha de Moçambique. Nessa altura do ano, os ventos adversos impediram a continuação regular da viagem, tendo a nau invernado ali durante seis meses. Francisco dedicou o seu tempo ao auxílio e tratamento dos doentes. Tendo-se feito de novo ao mar, a nau voltou a aportar em Melinde. Aí, Francisco de Xavier conseguiu de imediato converter alguns africanos, e desejou por força lá permanecer, ao que não foi autorizado por Martim Afonso de Sousa, por essa decisão ser contrária às instruções do Rei.
A nau Santiago ancorou em Goa, a então capital do Estado Português da Índia, a 6 de Maio de 1542.

Goa

Sabe-se, através das cartas a Inácio de Loyola, que as primeiras impressões de Francisco Xavier sobre Goa foram muito favoráveis, tendo ficado entusiasmado com a quantidade de indianos que falavam português, com a quantidade de igrejas e de convertidos. No entanto, à medida que foi conhecendo melhor a cidade, apercebeu-se de que muitos dos convertidos praticavam ainda paralelamente cultos hindus e que muitos portugueses davam também eles mau exemplo, defendendo as virtudes cristãs mas não as praticando. Estrategicamente, decidiu assim dedicar-se numa primeira fase a reencaminhar os portugueses para a verdadeira fé, tendo só posteriormente iniciado o seu trabalho de conversão.
Quando iniciou as conversões, dedicou-se primeiramente às crianças e só depois aos adultos. Todo o tempo que lhe sobrava era dedicado a visitar as prisões, a tratar dos doentes no Hospital Real e dos leprosos no Hospital de São Lázaro. É aí que começa a escrever um catecismo que veio a ser traduzido para várias línguas asiáticas.

Primeira Missão

A 20 de setembro de 1543, parte na sua primeira acção missionária para a costa a que os portugueses chamavam “Costa de Pescaria”, na costa este do Sul da Índia, a norte do Cabo Comorim, território dos paravás. Nesta região, a prática da pesca era muito popular, prática essa que não era bem encarada pela religião hindu, que reprova a morte de animais. Os pescadores da região foram, portanto, muito receptivos à religião cristã, que não os criticava pela profissão que levavam, usava um peixe como um dos seus símbolos e cujos primeiros apóstolos eram pescadores de peixe tornados “pescadores de homens”.
Ficou a viver numa gruta nas rochas junto ao mar em Manapad, catequizando as crianças paravás intensivamente durante três meses em 1544. Concentrou-se então em converter o rei de Travancore ao Cristianismo, tendo visitando também o Ceilão (actual Sri Lanka). Insatisfeito com os resultados da sua actividade, partiu ainda mais para oriente em 1545, planejando uma viagem missionária a Macáçar, na ilha de Celebes (actual Indonésia). Francisco levou alguns destes paravás consigo até Goa, onde os pôs a estudar no seminário, tendo-se eles tornado por sua vez missionários.
Sendo o primeiro jesuíta na Índia, Francisco cometeu alguns erros que levaram a que as suas missões não fossem mais bem sucedidas. Não respeitando a religião hindu, não tentou fazer a transição desta para o Cristianismo de forma gradual, caindo na tentação de apostar em fazer uma conversão demasiado rápida e brusca.
Também não tentou converter primeiro as classes altas para depois chegar aos pobres. Pelo contrário, procurou converter os pobres directamente, como Jesus Cristo.

Malaca


Francisco Xavier. Retrato japonêsdo período Nanban.
Em outubro, aportou na também portuguesa Malaca. Tendo sido forçado a esperar três meses por um barco para Macáçar, desistiu desse objectivo e partiu de Malaca a 1 de janeiro de 1546 para as ilhas de Amboina, onde permaneceu até meados de junho.
Visitou, depois, outras das ilhas Molucas, incluindo Ternate e Morotai. Pouco depois da Páscoa de 1546, regressou às ilhas de Amboina e, posteriormente, a Malaca. Nesse período, frustrado pelas elites de Goa, São Francisco escreve ao Rei Dom João III de Portugal pedindo que fosse instalada em Goa uma Inquisição. Esta Inquisição, à qual o rei se mostrou resistente, como se mostrara à sua presença em Lisboa, viria a ser instalada só oito anos após a morte de Francisco de Xavier.
O trabalho de Francisco de Xavier inaugurou mudanças permanentes nas ilhas que configuram a Indonésia Oriental, tendo-se tornado conhecido como o “Apóstolo das Índias” quando, entre 1546 e 1547, trabalhou nas ilhas Molucas, cavando os alicerces para uma missão permanente. Baptizou milhares de pessoas. Depois de partir desta região, o seu trabalho foi continuado por outros, sendo que na década de 1590 já havia entre 50.000 e 60.000 católicos na região, sobretudo nas ilhas de Amboina.
Em dezembro de 1547, em Malaca, Francisco de Xavier conhece o aventureiro e futuro escritor Fernão Mendes Pinto, que regressava do Japão e trazia consigo um nobre japonês de nome Angiró, natural de Cagoxima. Angiró ouvira falar de Francisco em 1545 e viajara de Cagoxima para Málaca com o propósito de o conhecer. Angiró tinha sido acusado de assassínio e fugira do Japão. Abriu o seu coração a Francisco, confessando-lhe a vida que levara até ali, mas também os costumes e cultura da sua amada terra natal. Angiró é baptizado por Francisco Xavier e adopta o nome português de Paulo de Santa Fé. Angiró era samurai e, como tal, tornar-se-ia um valiosíssimo mediador e tradutor para uma missão ao Japão que assim se tornava cada vez mais próxima da realidade.
“Perguntei a Angiró se os japoneses se tornariam cristãos se eu fosse com ele ao seu país e ele respondeu-me que eles não o fariam imediatamente, mas que primeiro me fariam muitas perguntas para saberem o que eu sabia. Acima de tudo, que eles quereriam saber se a minha vida corresponderia ao meu ensinamento”.

Regresso à Índia

Regressado à Índia em janeiro de 1548, passa os quinze meses seguintes com variadas viagens e tomando medidas administrativas na Índia. Devido ao que considerou um estilo de vida não-cristão por parte de muitos portugueses, que lhe impedia o trabalho missionário, viajou para o sudeste. Partiu de Goa a 15 de abril de 1549, parou em Málaca e visitou Cantão, na China. Foi acompanhado por Angiró, pelo padre Cosme de Torres, pelo irmão João Fernandes e por outros dois homens japoneses que estudaram em Goa para servirem de intérpretes. Levou também consigo inúmeros presentes para o “rei do Japão”, já que tencionava apresentar-se perante ele como representante da cristandade.

Japão

Alcançaram o Japão a 27 de julho de 1549, mas só a 15 de agosto é que foram autorizados a aportar em Kagoshima, o principal porto da província de Satsuma, na ilha de Kiushu. Foi recebido amigavelmente e ficou hospedado pela família de Angiró até outubro de 1550. Entre outubro e dezembro desse ano, residiu emYamaguchi. Pouco antes do Natal, partiu para Quioto, mas não conseguiu autorização para visitar o imperador. Regressou a Yamaguchi em março de 1551, onde o daimio daquela província o autorizou a pregar. Contudo, faltando-lhe a fluência na língua japonesa, teve de se limitar a ler alto a tradução do catecismo feita com Angiró.
Francisco teve um forte impacto no Japão, tendo sido o primeiro jesuíta a lá ir em missão. Levou com ele pinturas da Virgem Maria e da Virgem com Jesus. Estas pinturas ajudaram-no a explicar o Cristianismo aos japoneses, já que a barreira de comunicação era enorme, visto o japonês ser uma língua diferente de todas as que os missionários tinham até aí encontrado.
Os japoneses não se revelaram pessoas facilmente conversíveis. Muitos eram já budistas. Francisco Xavier teve dificuldade em explicar-lhes um conceito de Deussegundo o qual Deus criara tudo o que existe. Aos seus olhos, Deus seria então responsável também pelo Mal e pelo pecado, algo que era para eles uma acção incompreensível da parte de Deus. O conceito de Inferno foi também difícil de explicar, pois os japoneses não aguentavam a concepção de que os seus antepassados podiam estar num Inferno eterno do qual era impossível libertá-los. Apesar das diferenças religiosas, Francisco de Xavier terá sentido que os japoneses eram um povo bom, como os povos europeus, e que por isso poderiam ser convertidos.
Xavier foi bem acolhido pelos monges da escola de Shingon, por ter usado a palavra “Dainichi” para descrever o Deus Cristão. Depois de ter aprendido mais sobre as nuances da palavra, Francisco passou a usar a palavra “Deusu”, da palavra latina e portuguesa “Deus”. Foi nesse momento que os monges se aperceberam que ele pregava uma religião rival. No entanto, Francisco sempre respeitou o povo que o acolheu, tendo aprendido japonês, deixado de comer carne e peixe, e cumprimentava os senhores com vénias profundas, tendo chegado em algumas circunstâncias a vestir-se com trajes japoneses, tudo para ser melhor aceite.
Com a passagem do tempo, a missão de Francisco Xavier no Japão pôde ser considerada muito frutuosa, tendo conseguido estabelecer congregações em Hirado, Yamaguchi e Bungo. Xavier continuou a trabalhar durante mais de dois anos no Japão, tendo escrito um livro em japonês sobre a criação do mundo e a vida de Cristo, até a chegada dos jesuítas que o vieram suceder, cujo estabelecimento supervisionou.

De novo na Índia


Francisco Xavier in Goa
É aí que decide regressar à Índia. Nessa viagem, uma tempestade força-o a parar numa ilha perto de Cantão, na China, onde já estivera. Encontra assim o rico mercador Diogo Pereira, um velho amigo de Cochim, que lhe mostra uma carta proveniente de portugueses mantidos prisioneiros em Cantão, pedindo um embaixador português que intercedesse a seu favor junto do Imperador.
Mais tarde durante a viagem, pára de novo em Malaca a 27 de Dezembro de 1551 e estava de volta a Goa em Janeiro de 1552.
É a 17 de Abril que parte com Diogo Pereira a bordo da nau Santa Cruz, a caminho da China. Apresenta-se como representante da cristandade e Pereira como embaixador do Rei de Portugal. É pouco depois que se apercebe que se esquecera das suas certidões que o confirmavam como representante da Igreja Católica na Ásia. De novo em Malaca, é confrontado pelo Capitão Álvaro de Ataíde de Gama que tinha agora controlo total do porto e se recusa a reconhecê-lo como representante da Igreja Católica e que exige a Pereira que resigne ao seu título de embaixador. O Capitão nomeia então uma nova tripulação para a nau e ordena que os presentes para o Imperador sejam deixados em Malaca.
De volta a Goa, Xavier não baixou os braços, ocupando-se em enviar para várias regiões da Índia os muitos grupos de novos jesuítas recém-chegados à Índia, com o objectivo de fundarem missões. Ocupou-se também com a direcção do Colégio de São Paulo em Goa, que formava catequistas e padres asiáticos, promovendo ainda a tradução de livros religiosos para as línguas locais.
Apesar da intensa actividade, Francisco Xavier acalentava o sonho de ir missionar na China, onde era proibida a entrada de estrangeiros. Parte a 14 de Abril de 1552, convencido de que conseguiria infiltrar-se secretamente e cativar chineses para o cristianismo. Desembarcou na ilha de Sanchoão e, quando se encontrava em negociações com um mercador chinês que prometera levá-lo consigo, foi atacado por febres violentas.

Caixão de São Francisco Xavier na Basílica do Bom Jesus de Goa

Morte

São Francisco Xavier morre a 3 de dezembro de 1552, numa humilde esteira de vimes, abraçado ao crucifixo que o velho amigo Inácio de Loyola, um dia, lhe tinha oferecido.
Foi primeiramente sepultado em Sanchoão, mas, em fevereiro de 1553, os seus restos mortais, encontrados incorruptos, foram transportados da ilha e, temporariamente, sepultados na Igreja de São Paulo em Malaca. Uma campa aberta na igreja mostra ainda hoje o lugar onde São Francisco Xavier esteve sepultado. Depois de 15 de abril de 1553, Diogo Pereira vem de Goa, remove o corpo de Xavier e, a 11 de dezembro desse ano, o corpo de Xavier é levado para Goa. O seu corpo está hoje na Basílica do Bom Jesus de Goa, onde foi colocado numa caixa de vidro e prata, a 2 de dezembro de 1637, e se tornou lugar de peregrinação.

Úmero de São Francisco Xavier.Igreja de São José (Macau).
Um osso do úmero direito de Xavier foi levado para Macau, onde é mantido num relicário de prata. Esta relíquia destinava-se ao Japão, mas a perseguição religiosa na região levou a que fosse mantida na Igreja da Madre de Deus em Macau, cujas ruínas são actualmente conhecidas como Ruínas de São Paulo. Hoje em dia, é na Igreja de São José, em Macau, que está depositada essa relíquia sagrada de São Francisco Xavier.
Muitas igrejas foram desde então erguidas em honra de Xavier, muitas delas fundadas por jesuítas. Um parente seu, João de Azpilcueta Navarro, foi um famoso missionário jesuíta no Brasil. São Francisco Xavier figura no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa.

Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, onde é homenageado São Francisco Xavier, ao lado dos descobridores.

Beatificação e Canonização[editar | editar código-fonte]

Francisco Xavier é um santo católico. Foi beatificado pelo Papa Paulo V a 25 de outubro de 1619 e canonizado pelo Papa Gregório XV, a 12 de março de 1622, em simultâneo com Inácio de Loyola. É o santo patrono dos missionários. O seu dia festivo é 3 de dezembro.

Notas e referências[editar | editar código-fonte]

  1. Ir para cima Saint François Xavier sj (1506 – 3 déc. 1552) (em francêsCitação:(traduzida): "Xavier é atualmente um prenome. Originalmente era o nome de uma localidade. A ortografia levou muito tempo para finalmente resolver colocar nos mapas turísticos o nome de "Javier" (foi "Saviero", "Xabier", "Xavier", etc). O castelo em Javier foi dado no século XIII por Teobaldo IVConde de Champagne aos antepassados de Francisco, os Azpilcueta, em reconhecimento aos serviços prestados. O sobrenome Azpilcueta foi retirado do nome da mãe de Francisco, quando esta casou-se com Dom Juan de Jasso, o ministro de Finanças do rei de Navarra, que fez incluir no nome do pai de Francisco, o sobrenome "Xavier" de seu brasão de família. Esta outorga, porém, foi acompanhada de uma cláusula: que o último filho de Don Juan e Maria herdasse o título "Xavier". O último filho foi Francisco e e por isso que ele se chamou "Francisco de Xavier". Com o passar do tempo, Francisco de Xavier passou a ser Francisco Xavier."
  2. Ir para cima Posteriormente Inácio chegou a afirmar que Francisco Xavier fora "a argila mais rebelde que teve a oportunidade de moldar" (É o Senhor quem faz a diferença, acesso em 07 de abril de 2013)
  3. Ir para cima Francisco Xavier sonhava em se tornar um intelectual, um jurista ou um homem de armas para obter uma posição de relevo em cidade natal, e elevar o status social de sua família, humilhada por batalhas políticas (É o Senhor quem faz a diferença, acesso em 07 de abril de 2013).
  4. Ir para cima Trata-se de uma frase pronunciada por Jesus, a qual Inácio acrescentou que: "Ao passo que, perdendo a vida no seguimento de Cristo, o homem se tornará rico em Cristo..." (É o Senhor quem faz a diferença, acesso em 07 de abril de 2013).
  5. Ir para cima São Francisco Xavier, Confessor, acesso em 07 de abril de 2013.
  6. Ir para cima É o Senhor quem faz a diferença, acesso em 07 de abril de 2013.
  7. Ir para cima Miguel Servet Pesquisa Página da Web que contém o manuscrito da Universidade de Paris, que mostra seis dos sete jesuítas originais, e Miguel de Villanueva ("Servet")
  8. Ir para cima Pobreza, castidade e obediência, acesso em 07 de abril de 2013.
  9. Ir para cima De Rosa 2006, p. 96.
  10. Ir para cima Brodrick 1952, p. 77.
  11. Ir para cima "Martim Affonso, nomeado governador, não se esquecendo da sua capitanía, deu varias providencias, e se fez de vela a 7 de abril de 1541 em uma armada de cinconáos, levando comsigo os primeiros jesuitas, que vieram a Portugal e foram áIndia, incluindo o Mestre Francisco Xavier" «Diário da Navegação da Armada que foi à Terra do Brasil em 1530 - Pedro Lopes de Souza, pág xij». Francisco Adolfo de Varnhagen -1839. Consultado em 27 de maio de 2013.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons possui uma categoriacontendo imagens e outros ficheiros sobre Francisco Xavier

fotos slide de São Francisco Xavier

sábado, 21 de maio de 2016

Corpo incorrupto de S. Francisco Xavier

O corpo incorrupto do Padre Francisco Xavier          
Francisco Xavier faleceu em 03 de dezembro de 1552, na ilha chinesa de Sancião.

A noticia da morte do santo Padre tão amado, todos os portugueses da Santa-Cruz romperam em soluços.
Os marinheiros desembarcaram com todo o pessoal do navio; todos queriam ver e venerar o corpo do grande apóstolo, todos queriam beijar-lhe os pés e as mãos, recomendarem-se às suas orações, e testemunhar-lhe o amor e o reconhecimento que ele havia grangeado de todos os corações!

O santo corpo foi conservado até ao terceiro dia, domingo, estendido sobre a esteira que cobria o solo da cabana.
Jorge Álvares, Francisco de Aguiar, Cristóvão e Antônio de Santa-Fé, tiraram-lhe a sua pobre batina da qual repartiram entre si os preciosos pedaços, acharam sobre o seu peito uma pequena boquete contendo a assinatura de santo Inácio, os nomes dos Padres com os quais o nosso Santo tinha vivido em Roma, a fórmula dos seus votos, e uma parcela de osso do apóstolo S. Tomé, sob cuja proteção ele pusera o seu apostolado das Índias.
Revestido o corpo de seus hábitos sacerdotais, foi posto num esquife que se encheu de cal viva, a fim de que a carne fosse consumida logo e os ossos pudessem ser removidos na volta da nau Santa-Cruz.
Os portugueses tinham erigido uma cruz num prado, na base da colina que domina o porto; foi ao pé daquela cruz que Jorge Álvares fez depositar o esquife. Levantou-se um montículo de pedras ao lado da cabeça e um outro aos pés, e isto foi tudo!...
Francisco Xavier tinha previsto esses tristes funerais... Para ele, o sacrifício devia ir mesmo além da morte! Deus nada lhe poupara! Mas bem depressa também nada poupará para manifestar a glória do imortal apóstolo.
Dispondo-se Luís de Almeida a fazer-se à vela para as Índias, depois dos grandes frios, suplicou-lhe Jorge Álvares que não deixasse o corpo de Xavier em Sancião, assegurando-lhe que ele podia encarregar-se de o conduzir, por isso que pelas precauções tomadas só teriam de transportar os ossos já despojados da carne pela cal.
O capitão enviou dois dos seus homens com ordem de abrir o esquife e verificar o seu conteúdo. Esta abertura fez-se a 17 de Fevereiro de 1553, dois meses e meio depois da morte de Francisco Xavier.
Encontrou-se o seu rosto fresco, corado, sereno... o Santo parecia dormir. Os ornamentos não estavam alterados. Examinando o corpo, ele parece cheio de vida. Um dos homens corta um fragmento de carne, acima do joelho... o sangue salta! Correm ao navio, e levam a preciosa relíquia ao capitão; ele quer julgar por si próprio... cai de joelhos diante daquela grande maravilha, correm-lhe as lágrimas, não pode crer no que vê!
Em alguns instantes toda a equipagem da Santa-Cruz havia corrido para o prado e rendia homenagem ao corpo venerando do santo Padre. Todos se aproximaram, beijaram-lhe os pés e as mãos, e certificaram-se de que se exalava deste santo corpo um perfume que não tinha nada com que se comparasse sobre a terra.
Deitou-se de novo no esquife a cal que se tinha retirado, levaram religiosamente aqueles restos maravilhosos para bordo da Santa-Cruz, e pouco depois, fez-se à vela para Malaca, onde chegou a 22 de Março, com a mais bonançosa viagem.
Estava sendo aquela cidade de novo infestada de todos os horrores da fome e da peste, e os Padres da Companhia de Jesus não se achavam ali para prodigalizarem às vítimas desses destruidores flagelos os tesouros do seu santo ministério e da sua sublime dedicação. O capitão da Santa-Cruz, tendo expedido a chalupa para anunciar à cidade a chegada do santo corpo, a clerezia, a nobreza e o povo, vieram de tochas na mão, recebê-lo ao porto, não obstante a disposição de ódio do governador, e conduziram-no processionalmente à igreja de Santa Maria do Monte, que pertencia. à Companhia de Jesus.
Os pagãos e os maometanos incorporaram-se espontaneamente na multidão para renderem homenagem àqueles restos venerandos; Diogo Pereira parecia acompanhar os de seu pai; a sua dor era dilacerante!
- Qual é a causa deste lúgubre motim? perguntou D. Álvaro, deixando uma mesa de logo e abrindo uma janela que deitava para a praça do governo.
- É, provavelmente, respondeu-lhe um dos jogadores, o funeral do Padre Xavier, pois que o seu corpo devia chegar hoje.
- Que fanáticos! Eles verão bem depressa as honras que eu reservo ao seu santo Padre!
Depois das cerimônias religiosas, foi retirado o Santo do esquife que o encerrava; levaram-no para o cemitério dos pobres, lançaram-no numa cova muito pequena, forçando-o muito para ali entrar, e calcaram aquela terra "com pesadas alavancas" - diz o catequista do Santo, testemunha ocular-, e lhe abriram e achataram o nariz no estado em que vós o vistes em Goa, e quebraram-lhe o costado direito!... Eram aquelas, sem dúvida, as honras que o sacrílego governador havia prometido prestar a Xavier.
Naquele mesmo dia, cessava a peste em toda a cidade, os doentes viam-se milagrosamente curados, e embarcações carregadas de víveres, ancoravam no porto e vinham pôr termo à fome. O grande apóstolo recompensava assim as provas de veneração que os habitantes de Malaca acabavam de lhe prestar, a despeito da culpável governador, cuja malvadez tinha atraído sobre eles os castigos do Céu.
O corpo de São Francisco Xavier, retirado do seu esquife, ficou assim indignamente enterrado na terra, na imundície!... E desgraçado daquele que tivesse ousado subtrai-lo àquela profanação...
Por aquele tempo o Padre João da Beira, voltando às Molucas, por ordem de Xavier, com o Irmão Manuel de Távora, chegou a Malaca no correr do mês de Agosto, e não pôde resolver-se a embarcar para o seu destino, sem ter visto o que restava do seu amado superior. Por seu lado, Diogo Pereira desejava desde muito tempo poder prestar ao seu Santo amigo as honras merecidas pela sua incomparável vida; mas o terrível governador estava ali. O Padre João da Beira insistia, contudo:
- Somente vê-lo! dizia ele a Diogo; em seguida o tornaremos a enterrar e Deus saberá um dia mudar as circunstâncias de maneira que nos dará a consolação de prestar ao seu santo apóstolo as honras que merece.
- Pois bem! meu Padre, lá iremos pelo meio da noite, a fim de não sermos surpreendidos, respondeu-lhe Diogo Pereira.
Na noite de 15 de Agosto de 1553, dirigiram-se eles para o lugar em número de seis: o Padre Beira, o Irmão Manuel de Távora, Diogo e Guilherme Pereira e dois outros portugueses. Descobriram o precioso corpo e acharam-no tão fresco como se a vida, o não tivesse deixado; o lenço branco que cobria o belo rosto de Xavier estava molhado com o seu sangue!... Os amigos do nosso Santo prostraram-se diante daquele prodígio, e derramaram lágrimas de sentimento pela profanação de que eram testemunhas.
- "Levêmo-lo! levêmo-lo! disseram eles em voz baixa e todos ao mesmo tempo: a Providência nos protegerá."
E tomando nos braços o querido e venerando corpo, removeram-no para uma pequena ermida que Diogo Pereira possuía fora da cidade, convencionando conservá-lo ali até que Deus lhes permitisse fazê-lo transferir convenientemente para Goa. Diogo Pereira fez-lhe construir uma de madeira preciosa e forrada de damasco; colocou-se uma almofada de brocado por baixo da cabeça do Santo, cobriu-se-lhe com um pano de tecido de ouro, e pôs-se uma tocha acesa na câmara. Esta tocha devia ter uma duração de dezoito horas; ardendo, porém, noite e dia durou dezoito dias!
Nessa ocasião estando um barco prestes a fazer-se à vela para as Molucas, julgou o Padre Beira dever deixar o Irmão Távora junto do corpo de que se via forçado a separar; encarregou-o da vigia e guarda daquele querido depósito e de o acompanhar a Goa logo que se oferecesse ocasião, e partiu ardendo mais que nunca em zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas. Dizia-se que parecia que o espírito do grande Xavier passara para ele.
Logo depois da sua partida, o Padre Alcáçova, vindo do Japão, desembarcava em Malaca, onde devia esperar que algum navio se fizesse à vela para Goa; reuniu-se a Manuel de Távora para honrar a santa relíquia do seu Padre tão amado, na morada solitária de Diogo Pereira, pedindo todos os dias a Deus ocasião de a transportar com segurança para a metrópole das Índias portuguesas, onde a veneração pública o esperava impacientemente
               
02 - CASTIGO DO GOVERNADOR - TRASLADAÇÃO DO CORPO - CHEGA FINALMENTE A GOA   
Num dos primeiros dias do mês de Fevereiro de 1554, antes do nascer do sol, um navio de guerra lançava âncora no porto de Malaca. Era numerosa a sua equipagem, formidável o seu armamento. O desembarque efetuou-se sem delonga e no maior silêncio; havia mistério e solenidade naquele aparato.
As portas da cidade abrem-se... O capitão, os oficiais e um destacamento de tropa apresentam-se, parlamentara por alguns instantes, entram na cidade e vão diretamente ao palácio do governador.
Os soldados cercam o palácio e tomam todas as saídas; os oficiais, entre os quais se distingue um personagem cuja autoridade superior se adivinha pelo respeito que se lhe testemunha, penetram no interior.
Bem depressa se manifesta grande agitação nas ruas de Malaca, á nova do misterioso desembarque e da entrada silenciosa de um grande personagem cercado de oficiais e de homens de guerra. É geral a ansiedade para que o acontecimento seja conhecido; uns vão, outros vêm e todos procuram informações...
Finalmente sabe-se que a hora da justiça de Deus soara para o grande culpado; que D. Antônio de Noronha acabava de chegar para o substituir na qualidade de governador da cidade e de Intendente Marítimo, e que trazia a missão de o prender e de o enviar a Goa com boa e segura guarda.
Poucos dias depois, D. Álvaro de Ataíde, declarado criminoso de estado, atravessava as ruas de Malaca, escoltado por soldados e oficiais encarregados de guardar a sua pessoa, e é obrigado a embarcar para Goa, donde o vice-rei o mandou para Portugal para ali ser julgado pelo tribunal real.
Reconhecido criminoso de alta traição para coro a Igreja e para com o Estado, foi condenado a cisco perpétua, sendo confiscados todos os seus bens.
Passados alguns anos, o seu corpo cobriu-se de úlceras, viu-o desfazer-se aos bocados e reconheceu que a justiça de Deus o fulminava; acredita-se que este grande pecador apelou para a sua misericórdia e que morreu arrependido.
Diogo Pereira, cumulado de honras pela corte, foi generosamente indenizado pelo rei das perdas que lhe havia feito sofrer a invejosa cobiça do seu inimigo; ficou assim, pois, cumprida a dupla predição do nosso Santo.
Ia largar para Goa o capitão Lopes de Noronha; o Padre Alcágova e o Irmão Távora, fizeram embarcar no seu navio o mais precioso tesouro das Índias, e embarcaram-se também com ele a bordo do navio Santa-Ana.
Este velho navio oferecia tão pouca segurança, que ninguém se atrevia a tomar passagem nele; porém logo que se espalhou a notícia de que ele levava o corpo do santo Padre, os passageiros apresentavam-se á, porfia; disputava-se a felicidade de fazer aquela viagem tão junto de quem era já honrado publicamente desde que se deixou de temer a cólera do sacrílego governador.
Porém, uma tempestade das mais violentas vera bem depressa experimentar a fé dos confiantes passageiros. O navio é lanceado sobre um banco de areia e a quilha enterra-se tão profundamente, que todos os esforços de manobra são infrutíferos para o desembaraçar.
- Santo Padre, gritam todos, desembaraçai-nos! vós estais aqui, o navio não pode perder-se!
No mesmo instante, um golpe de vento eleva a quilha, o navio sobe, e volta a flutuar por si mesmo... Estava salvo!
No estreito de Ceilão, um novo perigo mais aterrador se apresenta ainda. A embarcação choca contra um rochedo, o leme foi arrebatado, o navio fica encalhado, e não se compreende como ele se não reduziu a pedaços pela violência do choquei Corta-se a mastreação, procura-se aligeirar o peso, vão-se lançar as mercadorias ao mar.
- Não! não! o santo Padre há de nos salvar! dizem os passageiros cheios de confiança no precioso tesouro que possuem.
O capitão faz conduzir para a ponte a uma do apóstolo das Índias; todos caem de joelhos à roda daquele protetor tão querido; falam-lhe como quando ele se achava cheio de vida e que com uma palavra ou sinal aplacava as tempestades. Um ruído terrível se deixou imediatamente ouvir, o Santa-Ana deslisa-se ligeiramente entre dois rochedos e sai ao largo. O rochedo acabava de se abrir para o desencalhar!
Chegam, finalmente, ao ancoradouro de Cochim. Todos os habitantes da cidade correm a prestar homenagem de veneração e de saudades àquele a quem eles queriam como a um pai, e de quem se consideravam os primeiros filhos. Tocam o porto de Baticala; ali o mesmo entusiasmo, os mesmos sentimentos de dor e saudades, o mesmo amor.
A esposa de Antônio Rodrigues, oficial do rei, doente desde muito tempo, assegura que ficará curada se a levarem para o navio, para junto da uma venerada. Cedem às suas instâncias, e ela recupera a saúde.
A vinte léguas de Goa o vento torna-se contrário e o navio não pode prosseguir. O capitão Lopes de Noronha embarca na chalupa, chega à cidade à força de remos, vai' anunciar ao Colégio a chegada dos restos mortais do Santo Provincial, e narra os perigos por que passaram durante a viagem e dos quais o Santo apóstolo os salvou duma maneira tão milagrosa. Deixemos agora falar o Padre Blandoni então em Goa. Ele escrevia à Companhia de Jesus, em data de 24 de Dezembro do mesmo ano de 1554:
               "Melchior Nunes correu a casa do vice-rei a pedir-lhe um bote de dois remos para ir em demanda do navio retido por ventos contrários, e receber a bordo o precioso depósito que conduzia. O vice-rei mandou imediatamente aprestar uma fusta. O capitão Lopes viu fazerem-se aquelas disposições com vivo pesar. Ele rogava e pedia, como uma graça especial, que não tiras sem do seu navio aquele poderoso sustentáculo que o tinha milagrosamente salvado dos maiores perigos; mas Belchior e todos os nossos Irmãos ardiam num vivo desejo de Padre, o mais cedo possível, os restos venerandos do seu Padre, e não cederam aos rogos do capitão. Embarcaram sem demora com três dos nossos Irmãos, quatro jovens discípulos da casa, e Mendes Pinto, negociante português que vivera em intimidade com Xavier durante a sua estada no Japão.
O vice-rei pediu a Melchior, quando partia, que não entrasse na cidade sem o prevenir da sua chegada.
Depois de terem navegado durante quatro dias e quatro noites encontraram finalmente os nossos Padres o navio de Lopes de Noronha próximo de Baticala; subiram imediatamente para bordo e fizeram transportar para a sua embarcação a uma de Xavier com todos os ornamentos. Durante aquele tempo, as crianças, coroadas de flores e levando ramos de oliveira, cantavam o Gloria in excelsis, seguido do cântico Benedictus. Os marinheiros empavesavam o navio, disparavam a artilharia e faziam ouvir as suas aclamações.
A sobrepeliz que revestia o santo corpo, conquanto tivesse estado enterrado perto de três meses em cal viva conservava uma alvura admirável; estava tão perfeitamente conservada que Melchior teve desde aquele momento a idéia de a reservar para dela se revestir quando fosse apresentar-se ao imperador do Japão.
O rosto de Xavier estava coberto; as mãos estavam cruzadas sobre o peito; a cor da fita que as trazia ligadas estava tão viva como se naquele momento saísse das mãos do obreiro; seus pés estavam calçados com sandálias.
Melchior veio desembarcar com o seu precioso depósito em Ribandar, distante da cidade meia légua aproximadamente, e o depôs numa ermida consagrada à Santíssima Virgem [Igreja Paroquial], passando ali a noite com os seus companheiros.
Apesar de se estar na Quaresma os nossos Irmãos fizeram decorar os altares e ornar a igreja. Muitas pessoas queriam que se pusessem em movimento todos os sinos da cidade, mas os nossos Padres opuseram-se a isso e julgaram mais conveniente que se tocasse duas vezes somente como para um serviço fúnebre.
Na manhã seguinte [A 16 de Março de 1554, sexta-feira da semana da Paixão.], o vice-rei, o cabido, a confraria da misericórdia, a nobreza, os altos funcionários, os magistrados, nós todos, finalmente, e uma imensa multidão de povo, saímos processionalmente ao encontro do corpo, que fomos esperar ao cais.
As ruas estavam empavezadas em todo o percurso, e tão cheias de espectadores de todas as classes, que mal se podia abrir uma passagem para o cortejo; todas as janelas e telhados estavam atulhados de gente que fazia cair uma chuva de flores sobre o corpo do Santo, à medida que ele passava.
Noventa meninos de sobrepeliz, e levando cada um uma tocha, abriam o cortejo; queimavam-se perfumes em todas as ruas do trânsito; dois incensadores de cada lado da uma envolviam-na numa ligeira nuvem de fumo. Chegados à nossa igreja, o corpo conservou-se coberto; a afluência do povo era tão grande que não se podia expor sem inconveniente. O vice-rei, não obstante o seu ardente desejo de o contemplar, não pôde satisfazer a sua devoção por este motivo.
Tendo, finalmente, a multidão perdido a esperança de o ver, ia-se retirando a pouco e pouco, não ficando senão um pequeno número de pessoas que suplicavam com lágrimas que lhes dessem a consolação de verem o seu bom Padre, e protestavam que não se retirariam sem ter tido aquela felicidade.
Melchior Nunes não pôde resistir às suas instâncias. Fez colocar uma barreira à entrada da capela-mor, e cada um pôde ver o corpo sem dele se aproximar. Todos estavam comovidos de surpresa e admiração, reconhecendo as suas feições: "E contudo, diziam eles, já lá vão seis meses que ele morreu! É isto crível?"
Apenas eles saíram da igreja, toda a cidade foi sabedora do prodígio de que haviam sido testemunhas, e uma grande multidão se dirigiu para a nossa casa com uma brevidade e um interesse inexprimíveis; era uma massa prodigiosa de assaltantes à qual foi impossível resistir. Durante quatro dias e quatro - noites a igreja esteve constantemente cheia. Aqueles que o tinham já visto queriam tornar a vê-lo ainda, e depois ainda outra vez!
Melchior Nunes, julgando finalmente ter feito muito para a satisfação do público, fez colocar a caixa junto do altar-mor e mandou pôr uma barreira em frente para a defender contra a invasão dos fiéis.
Quanto a nós, se experimentamos uma grande alegria por possuirmos o corpo de Francisco Xavier, experimentamos outra, maior ainda, só pela idéia de que ele nos protege e intercede por nós no Céu [o Padre Blandoni tendo sido testemunha dos fatos que conta julgamos dever dar preferências à sua narração, que difere em alguns pormenores dá do Padre Bouhours]".      
Os quatro dias concedidos pelo Padre provincial, às solicitações dos habitantes de Goa fizeram a glória do apóstolo do Oriente, mesmo além do que se esperava. Desde logo os doentes que se haviam feito conduzir para as ruas do trânsito no dia da sua entrada triunfal naquela cidade, que lhe fora tão querida, tinham todos recobrado milagrosamente a saúde.
Uma pobre mãe, cuja filha estava nas agonias da morte, abre a janela no momento em que o cortejo passava por diante de sua casa, chama. em altos gritos o santo Padre suplicando-lhe que não passe sem curar sua filha, que vai morrer, e o santo Padre atende-a e restitui-lhe a filha, que se levanta cheia de saúde.
Colocaram o corpo em ponto elevado e em posição tal que o povo o pudesse contemplar de todos os lados da igreja, o que impedia a desordem e satisfazia completamente a multidão. Concorriam de todos os pontos da cidade e das circunvizinhanças os doentes e achacados, e todos voltavam curados! Os paralíticos andavam, os cegos viam, e isto parecia mostrar que o santo Padre nada podia recusar aos seus filhos de Goa! A exaltação do amor e do reconhecimento, subiu a tal ponto entre os fiéis que haviam merecido aquela abundância de graças e bênçãos, que até os leprosos puderam vir misturar-se na multidão e pedir ao seu arnado Padre que se recordasse dos ternos cuidados e das carícias paternais que ele lhes prodigalizava durante a sua vida! Ninguém se lembrou de os afastar, nem de se afastar deles. Pelo contrário, todos lhe davam ânimo, dizendo:
"Ide, o santo Padre vos curará! ele curou tanta gente!"
E os leprosos viam desaparecer a sua lepra!
O Capitulo cantou a missa da Cruz, na Sexta-feira, na igreja do colégio; os religiosos franciscanos aí cantaram a da Santíssima Virgem, no sábado; ninguém pensou em celebrar um ofício fúnebre pelo apóstolo que havia propagado por todos os países do Oriente a fama dos seus milagres, e que operava tão brilhantes prodígios depois da sua morte.
A nau Santa-Ana abriu-se por si mesma, logo que terminou o desembarque dos passageiros e das mercadorias, e submergiu-se nas águas de Goa, sem que ficasse o menor fragmento!...
No mesmo ano de 1554, chegava a Goa, uma carta dirigida ao Padre-mestre Francisco; esta carta era de Santo Inácio, e chamava o nosso Santo para a Europa. O Padre Polanco, então secretário do célebre fundador da Companhia de Jesus, assegura que Santo Inácio chamava São Francisco Xavier com a intenção de abdicar nele o titulo e as funções de geral da Companhia...
Esta carta chegava já muito tarde.
relíquia do Braço de São Francisco Xavier
Basílica de Goa, onde se conserva o corpo incorruto de Xavier
O ilustre gigante-havia terminado o seu curso, tinha chegado ao fim. Em dez anos somente, tinha ele transposto espaços tão consideráveis que, segundo os cálculos feitos, se reconheceu que as imensas distâncias percorridas pelo grande apóstolo, bastavam, reunidas umas às outras, para fazer muitas vezes o giro ao globo! [Calcula-se que no decurso do seu apostolado, desde a sua partida de Paris para Veneza, até à morte, o nosso Santo percorrera mais de trinta e cinco mil léguas! Isto é equivalente a 210.000 km].
Em dez anos somente, levou ele a fé a povos cuja extensão era de mais de três mil léguas, e plantara a cruz tão sòlidamente naqueles países, que milhões de cristãos arriscaram a vida pela sua defesa. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Sao Francisco Xaviee e Portugal

São Francisco Xavier. Confessor, nascido de nobre família, apóstolo das Índias e do Japão, Padroeiro especial de todas as missões. Século XVI. Na biografia de São Francisco Xavier de Daurignac, encontra-se o seguinte trecho de uma carta a D. João III, rei de Portugal, escrita pelo santo: “Senhor, deveis temer que quando Deus citar Vossa Alteza a comparecer perante Si, o que acontecerá infalivelmente e talvez em um momento em que menos espereis, e quando não haja razões ou esperança de declinar aquele tribunal, deveis temer, grande príncipe, que aquele Juiz, irritado, vos dirija essas terríveis palavras de acusação: Por que não tendes procedido com rigor contra vossos ministros, contra os vossos vassalos que nas Índias conspiravam contra Mim, e não receavam declarar-se em estado de rebelião? Por que razão a vossa severidade não pode feri-los senão quando eles eram negligentes na arrecadação dos impostos e na administração das vossas finanças? “Senhor, ignoro que valor poderão ter as vossas escusas quando responderdes: Senhor, eu escrevia todos os anos para aqueles países e todos os anos recomendava o maior zelo, os maiores trabalhos pela Vossa glória e pelo literal cumprimento de Vossos preceitos. Não vos responderá então Deus: Pois bem, mas vós deixáveis impunes todos aqueles que se mostravam indiferentes a essas ordens”.  Dom João III, Rei de Portugal (1502-1557) É um belíssimo trecho de carta. Realmente, o que se estava dando, como os Srs. acabam de ver, era isso: o rei de Portugal possuía importantes terras na Índia, em direção a Macau e próximo da China, e ele recomendava, em cartas anuais, que os seus servidores, naquelas regiões, fizessem tudo para promover a fé. Entretanto, São Francisco Xavier, que exercia ali seu apostolado, verificava que isso não ocorria e que aqueles homens até conspiravam para impedir que a fé católica se desenvolvesse. Era, muito provavelmente, cúpula podre opondo uma ação subreptícia, oculta, por debaixo do pano, aos desígnios do rei de Portugal. Então, São Francisco Xavier escreve a ele e diz a ele: Vós mandais cartas para aquela gente, mas por que vós não punis aquela gente? Não basta mandar, mas é preciso punir quem desobedece, porque a simples ordem desacompanhada de punição é uma veleidade sem valor, que não pode ser alegada perante Deus como cumprimento de dever. Vós tínheis a obrigação de, sendo desobedecido, punir. Tanto mais quanto no que diz respeito a arrecadamento dos impostos, quando não andam bem, vós punis. Se vós punis em matéria de imposto e não punis em matéria de religião, é – em última análise – porque amais mais os impostos do que a religião. É o que está insinuado na carta e, aliás, é o que está na evidência dos fatos. E acrescenta: Quando Deus vos chamar, o que é que deveis alegar? Lembrai-vos que Deus vos pode chamar de um momento para outro; e logo de uma vez em condições tais, que não tenhais esperança, nem possibilidade alguma de conservar a vossa vida. Realmente, uma doença tão grave, um ferimento tão grave, um atentado, um desastre, uma coisa qualquer, que não haja mais possibilidade de viver. O rei vê que vai morrer, daqui a pouco comparecerá perante Deus. O que dizer a Deus a respeito do uso que ele fez do seu poder? O uso do poder deve ser antes para a fé, do que para o dinheiro. E não há efetivo uso do poder da parte de quem apenas manda e depois não pune a quem desobedece.  Soberbo relicário com o antebraço direito de São Francisco Xavier, destacado do corpo do Santo pelo Geral da Companhia de Jesus Padre Cláudio Acquaviva, em 1614. Igreja do Gesù, Roma Esses são os dois grandes princípios que estão subjacentes na carta, em virtude dos quais o santo se dirige assim ao rei. Observem os Srs. com que liberdade um grande santo se dirige a um grande rei, a um dos potentados da terra naquele tempo e como o desempenho do mandato apostólico leva a pessoa a ter uma franqueza, a ter um denodo que antigamente tinha um lindo nome. Quando se referia a essa franqueza desabrida utilizada pelos que falavam em nome de Deus, dizia-se a “franqueza apostólica”. É a franqueza do apóstolo, a franqueza de quem representa a Deus e tem o direito de falar assim. E, portanto, tem o direito de dizer as coisas mais desagradáveis e tem o direito de ser ouvido. E fazendo uso disso, São Francisco Xavier falava ao rei e obtinha provavelmente ao menos alguma inflexão na linha de conduta real. Mas ainda que não obtivesse, não vem ao caso. As brasas estavam acesas sobre a cabeça do rei e quando ele morresse, teria que prestar contas a Deus. Os Srs. vêem como tudo isso é lógico, como tudo isso é belo... como tudo isso está envelhecido! Envelhecido não por uma senectude, por uma velhice intrínseca, não porque em si mesmas essas coisas tenham envelhecido. Mas é porque os homens decaíram de tal maneira que não aceitam esses princípios e não querem mais ouvir essa linguagem. E afirmam caluniosamente que é desalmado, sem caridade, sem espírito católico quem fala assim. Ora, aqui está a linguagem de um dos maiores santos da Igreja Católica que foi – sem dúvida – São Francisco Xavier. Esta era a linguagem dos santos e não essa linguagem adocicada de ecumenismo falso, de irenismo, de quantas outras coisas que assim haja.  Urna com o corpo de São Francisco Xavier na igreja do Bom Jesus de Goa, Índia _____________________________________________________ [O trecho abaixo foi acrescentado por este site] Da Carta Apostólica “Meditantibus Nobis” em homenagem a Santo Ignácio de Loyola e São Francisco Xavier no 3º centenário de sua canonização (3 de dezembro de 1922), afirma o Papa Pio XI: “(São Francisco) Xavier vivia todo entregue às vaidades da glória humana quando (Santo) Inácio (de Loyola) o encontrou. Por sua disciplina, ele o transformou ao ponto de torná-lo rapidamente um valoroso pregador do Evangelho e, consequentemente, um apóstolo para o Extremo Oriente. “Esta maravilhosa transformação deve ser justamente atribuída à virtude dos Exercícios (Espirituais). Se, mais de uma vez, ele percorreu imensas extensões pela terra e pelo mar; se foi o primeiro a levar o nome de Cristo ao Japão, o qual era chamado com razão de “ilha dos mártires”; se afrontou grandes perigos e realizou trabalhos incríveis; se derramou a água sagrada do Batismo em incontáveis multidões; se, além disso, realizou prodígios infinitos de toda espécie, isto se deve ao pai de sua alma, como ele chamava a Inácio, a quem Francisco em suas cartas afirmava lhe ser devedor – depois de Deus –, Inácio que no retiro espiritual dos Exercícios lhe imbuiu a fundo o conhecimento e o amor a Nosso Senhor Jesus Cristo” (cfr. Actes de S. S. Pie XI, Tome I, Maison de la Bonne Presse, Paris, pag. 125).