sábado, 10 de dezembro de 2016

Carta nº 60 de Xavier a Inácio, 1548

Em 20 de janeiro de 1548, (uma semana após chegar na India, em regresso a missão das Molucas ) Xavier escreveu um conjunto de 05 cartas (59 a 63). Destas, 04 foram encaminhadas para a Companhia de Jesus na Europa e ao Império Português. As cartas remetidas à Europa haviam sido escritas há 1 ano e 8 meses, em maio de 1546.  

Na carta 60 a Inácio, { 01.Já que não pode tratar da sua vida espiritual com Inácio, pede que mande algum Padre espiritual que o ajude a ele e aos outros jesuítas.}
Xavier mostra nas primeiras linhas todo seu afeto a Inácio de Loyola. Ao regressar das longínquas Molucas, no Extremo Oriente, parece confortar-se com a diminuição da distância de seu amado Pai Espiritual. Xavier diz: Deus me é testemunha, pai caríssimo, de quão intensamente lhe peço para vos ver ainda nesta vida, para convosco falar de muitas coisas que requerem a vossa ajuda e remédio, pois nenhuma distân­cia se opõe à obediência1.” 
Inácio, é para Xavier, a figura paternal, aquele que cuida, que zela pelo bem espiritual dos filhos e, com isso, Francisco dirige um pedido muito nobre a Inácio. Pedido este, não para si somente, mas em preocupação pelo numero crescente de irmãos jesuítas nas missões das Índias.“Vejo que nestas paragens há muitos da Companhia2,... Eram 17 ao todo: Xavier, micer Paulo, Mansilhas, Beira, Criminali, Lan­cillotto, e os que chegaram em 1547 (Francisco Henriques, Henrique Henriques, Pérez, Ribeiro, Cipriano, Moraes júnior, Adão Francisco, Baltasar Nunes, Nico­lau Nunes), mais dois que foram admitidos na Companhia em 1547 (Alcáçova e António Vaz). 
...e vejo igualmente que necessitamos médico das nossas almas. Pelo Senhor Jesus vos rogo e suplico, pai boníssimo, que olheis também por estes vossos filhos que estamos na Índia, e envieis uma pessoa eminente em virtude e santidade, cuja firmeza e alento sacuda o meu torpor. Tenho grande esperança de que, pois vedes tão segura e sobrenaturalmente as afeições das nossas almas, poreis diligentemente mãos à obra, para que a virtude já lânguida de todos nós se anime com mais entusiasmo ao desejo de perfeição3.”
 A humildade  de Xavier não fê-lo perceber que, no entendimento de Inácio (Superior Jesuita) a dita ‘pessoa eminente em virtude e santidade’ era o próprio Xavier. Quanto a isso, Inácio não havia o que se preocupar. O homem santo como pediu Xavier para zelo dos demais irmãos missionários era ele próprio. Mas então o que faltava? Talvez Xavier não se visse como regente, superior dos demais jesuítas na Índia, tendo em vista, que alguns dos novos missionários chegados á India, ainda não tinha se encontrado com o Ilustre Xavier. As missões não permitiam essa confraternização. Cada um, logo tinha um destino a zelar na messe e isso, era mais sublime, mais ocupante e, não sobravam tempo. Xavier se via como mais um servo apesar de ter ganhado a função de Nuncio Apostolico na sua partida para as Indias. Francisco Xavier, espera que Inácio envie alguém, de sua estima, para o zelo espiritual e paternal dos jesuítas nas Indias, já que , pela distancia, emanam pouco dos cuidados de Inácio, a não ser pelas poucas e demoradas cartas e por suas orações.

Para os portugueses, pede bons pregadores; para os gentios, missionários seguros
2. “Nenhuma coisa mais deseja, esta terra, da nossa Companhia, que pregadores4. Entre os que Mestre Simão enviou a estas partes, não há, que eu saiba, nenhum pregador. Os portugueses que vi­vem na Índia, pelo seu grande amor e benevolência para connosco, desejam grandemente pregadores da nossa Companhia. Portanto, rogo-vos, por Deus e seu serviço, que, em vista de tão piedoso e justo pedido, envieis a estas terras alguns padres aptos para este ministério, que mostra aos que andam desviados o caminho recto da salvação. Além disso, os que enviardes da Companhia para percorrer os luga­res dos gentios, para pregar-lhes o Evangelho, convém que sejam de tão assinalada virtude que possam ir com segurança, acompanhados ou sós5, aonde quer que os reclame a causa cristã: seja a Maluco, à China ou ao Japão. Pela descrição da China e do Japão e das suas gentes, que vos envio dentro desta carta, entendereis facilmente que classe de pessoas requer este assunto6.”
Aqui Xavier tem duas intenções distintas, conforme a realidade cultural na India. Pede a Inácio que envie pregadores, homens culto, letrados para cuidar da manutenção da fé dos colonos portugueses tão numerosos na India, especialmente nas cidades portuárias. Mas também pede missionários que devam ter mais vigor físico, menos idade e com boa saúde, mesmo que poucos instruídos na doutrina, para empreenderam a missão entre os pagãos. Para estes, de fato, não era preciso tanta eloquência ou experiência religiosa pois a missão evangelizadora entre os pagãos servia-se, especialmente dos princípios básicos da doutrina, tais como ensinar as orações e seus significados, administrar os sacramentos aos convertidos, responder as indagações curiosas sobre a natureza, céu, inferno, pecado, etc. e organizar pequenas comunidades “ruralizadas”. Xavier era muito detalhista, repare que mesmo entre os “pagãos” (orientais) haviem culturas mais avançadas, cultas e para isso, requer também outras qualidades de missionários, ou seja, mais pregador e também com vigor físico para a jornada.
Urge as indulgências e faculdades já pedidas e desiste de mudanças da Quaresma
Também aqui, Xavier trata de dois assuntos, mais teológicos. Manten-se firme no pedido de Indulgencias para reavivar a devoção e respeito pela fé  que, facilmente, ficava em desvredito, segundo plano, as praticas devocionais e sacramentais. Refere , especialmente à tibieza dos portugueses que faziam pouco caso da prática religiosa e privilegiavam os lucros do comércio e dos cargos na realeza imperial. 3. “Ainda estamos esperando, com incrível ânsia, as indulgências pontifícias e o privilégio do altar privilegiado para o nosso colégio, e a faculdade de os sacerdotes poderem confirmar os povos em vez do Bispo: de tudo isso vos escrevi em anos anteriores7”. 
Quanto ao outro pedido , mais para favorecer os neoconvertidos, pescadores, que na época da pascoa estavam em alto mar na temporada trienal da pesca, mas Xavier, mesmo percebe que tantos nas diversas partes das Indias como em Malaca e Molucas, este período varia, e assim, não é possível privilegiar a participação de todos esses povos. Mas repare que Xavier não cita esses povos, mas sim os portugueses colonos, como estratégia, pois na realidade europeia, a missão entre os pagãos era coisa desconhecida. A Europa só teve contato e evangelizou os pagãos que adentraram seus territórios, os Bárbaros, dos reinos do Norte da Europa que se fixaram no Antigo Imperio Romano. Com Xavier foi a Igreja que foi em direção aos pagãos e não os pagãos que foram em direção a Igreja.  Ou seja, Xavier entende que as autoridades da Igreja não fariam tamanha mudança (logo, a Pascoa) apenas em beneficio dos pagãos. “Pelo que toca à Quaresma, a experiência me ensinou que não é necessário mudar nada8. Uma vez que os portugueses da Índia vivem tão separados entre si, olhando ao bem comum, não há necessidade de mudança nenhuma. Porque nem o Inverno é ao mesmo tempo em todas as cidades e povoações onde há portugueses. Por isso, tendo em conta o bem comum, julgo preferível que nada de novo se decida sobre isto, embora veja que não falta quem pense o contrário.”

Irá ao Japão ele ou outros, e deixa superiores locais em todos os grupos de jesuítas
Por fim, nesta curta carta, dirigida estritamente a Inácio para assuntos mais particulares, pois na mesa data escreveu carta direcionada a todos os jesuítas em Roma, o que Inclui Inácio. A ansiedade por uma nova “grande viagem missionária” a do Japão, faz Xavier, ainda  sem conhecer essa nova missão, pois ouvira do Japão no seu retorno das Molucas, algo novo ainda, a citar para Inácio que regressaria para terras mais distantes, totalmente pagã. 4. “Ainda não resolvi definitivamente se eu mesmo irei ao Japão, com um ou dois da Companhia, daqui a ano e meio, ou enviarei adiante dois dos nossos: o certo é que ou irei eu ou enviarei a outros. Actualmente estou inclinado a ir eu mesmo. Peço a Deus que me inspire, com toda a clareza, o que for mais do seu agrado. Dos três da Companhia que foram para Maluco, pareceu-me bem eleger um que fosse superior dos outros, e assim elegi João da Beira, a quem obedecessem os outros como a vós. A ordem agradou-lhes muito. O mesmo penso fazer no Cabo de Comorim e nos restantes lugares onde haja vários da Companhia. Desejo que vós e os vossos devo­tos nos obtenhais graças celestiais para os que andamos entre estas gentes bárbaras. Para que façais isto com mais fervor, rogo a Deus imortal que vos faça ver sobrenaturalmente quanto necessito do vos­so favor e ajuda.”
Xavier conclui a carta, conciliando com Inácio no modo de administrar seus irmãos nas diversas missões. Ele preza pela obediência e subdivide sua função provincial de administrar. Rege grupos pequenos com um líder, a quem remeterá cartas e informes das missões.
De Cochim, a 20 de Janeiro de 1548, FRANCISCO