sábado, 30 de dezembro de 2017

São Francisco Xavier: Apóstolo do Oriente

Francisco Xavier: Apóstolo do Oriente
Por: DANIEL CEREZO, Missionário Comboniano

Em 3 de Dezembro de 1552, São Francisco Xavier morria às portas da China, o seu grande sonho como evangelizador. Volvidos quatro séculos e meio, olhamos para a espantosa actividade missionária que consumiu a última década da sua vida e detectamos os sinais de uma modernidade que continua a interpelar-nos. Ao celebrarmos o 450º aniversário da morte de São Francisco Xavier e ao abordarmos esta figura missionária do Oriente, vale a pena sublinhar alguns aspectos da sua experiência missionária. Impressiona-nos o seu zelo apostólico, a sua capacidade de vencer as dificuldades e a sua criatividade missionária. Tudo isto, evidentemente, impregnado de uma admirável dose de fé. Mas fascina-me ainda mais constatar que, através das suas experiências e contextos missionários, se vai produzindo nele um processo de crescimento e transformação a nível humano, espiritual e missionário. A missão modifica Xavier, fá-lo crescer e amadurecer como missionário. E diante da mudança, não só não se amedronta como revela uma criatividade evangelizadora e uma audácia missionária dignas de encómio no contexto da sua época. Apóstolo na Índia Xavier inicia a sua actividade missionária ao ser solicitado e destinado pelo rei de Portugal D. João III para evangelizar os povos das Índias do Oriente, para onde embarca em 1541. Nos seus primeiros meses em Goa, Xavier serve-se de um método evangelizador em consonância com o ambiente colonial em voga. Não fora obra do acaso ter sido enviado com o beneplácito do rei. Tocava uma sineta pelas ruas e convidava as crianças para a catequese. Na ânsia de atrair todos a Cristo, durante os três anos que esteve na Índia realizou numerosas conversões. Nesta primeira etapa da sua vida sobressai a figura do apóstolo, caracterizada por uma actividade missionária frenética, com manifesto cariz sacramental.

Embora a Índia vivesse num contexto de profunda religiosidade, concretizada de forma especial na tradição hindu, pouco se ligava a esse mundo. A finalidade era baptizar. De facto, ele fora enviado para evangelizar os «infiéis», estratégia missionária própria dessa época e da teologia então em voga, que fazia tábua rasa de todos os vestígios da cultura local, sobretudo das crenças religiosas. Baptizar era a meta e esta tinha de ser atingida a qualquer preço. Neste primeiro período da sua vida, Xavier concentra as suas energias na expansão do cristianismo, indiferente às realidades culturais e religiosas dos convertidos e da população entre a qual desenvolvia a sua actividade missionária. Mas bem cedo Xavier teve de enfrentar as dificuldades, tensões e perseguições dos reizetes locais, que perseguiam os recém-convertidos, e dos soldados portugueses, que, em vez de lhe serem de ajuda nas contendas, causavam mais problemas à actividade evangelizadora com os seus costumes depravados. Xavier apercebia-se das injustiças a que os povos indígenas eram submetidos e não tardou em se distanciar do poder colonial ou, pelo menos, levantar a voz diante dessa situação, dirigindo-se por carta ao rei de Portugal com palavras duras. Em Malaca e nas ilhas Molucas também consegue abundantes frutos apostólicos. Em Malaca teve um significativo encontro, em 1547, com um japonês chamado Anjiro.

Depois disso, Xavier começa a sentir um grande interesse pelo Japão e sente desejo de aí levar a palavra de Deus. Ao sair da Índia, deixa a população católica entregue a outros missionários jesuítas. Nos seus primeiros passos no «sai da tua terra», a actividade missionária de Xavier ficou marcada pelo cariz colonial típico da época, não apenas na sua maneira de ver a missão, cuja finalidade era que «as almas dos infiéis se salvem do Inferno», mas também pelo facto de ter sido enviado com a protecção e beneplácito do poder mundano, representado pelo rei de Portugal. Discípulo no Japão Chegou ao Japão em 1549 com alguns jesuítas e os três primeiros japoneses baptizados em Goa. Um deles era Anjiro, fugido do seu país onde fora acusado de assassínio, e que se tornará a peça-chave na mudança do método e atitude evangelizadora de Xavier. Anjiro abrir-lhe-á os olhos diante da realidade de um mundo novo e diferente, onde os métodos missionários aplicados na Índia e em Goa não podiam ser usados. Xavier, longe de ignorar a cultura local e a religião xintoísta do Japão, não só mostra interesse como também desejo de aprender. É a época onde a figura do discípulo prevalece sobre a do apóstolo. Xavier mostra a sua admiração pelo Japão. É já um passo qualitativo na forma de ser missionário, em contraste com a mentalidade de então. É o tempo em que sobressai a figura do discípulo, que não sente só a necessidade de converter, mas primeiramente de abrir os olhos, escutar e aprender no contexto missionário em que vive. Dedica um ano inteiro ao estudo do japonês e a traduzir, pouco a pouco, com a ajuda de Anjiro, os trechos fundamentais da fé cristã, que depois lhe servirão para catequizar. Depois do estudo da língua começou a pregar e conseguiu algumas conversões, mas a hostilidade dos bonzos, que viam em Xavier um perigo e uma séria concorrência às suas alternativas religiosas, levou-o a abandonar a cidade. Dirigiu-se para o Centro do Japão e para algumas cidades do Sul, onde prosseguiu a pregação do Evangelho, formando pequenas comunidades cristãs. Após dois anos de permanência no país, outros missionários vieram prosseguir a sua acção evangelizadora. A passagem pelo Japão contribuiu para a mudança de estratégia e opções missionárias, descortinando aspectos que até então lhe eram desconhecidos. Descobre progressivamente ingredientes sem os quais seria impossível levar a cabo uma actividade missionária significativa e que 450 anos após a sua morte ainda permanecem actuais, ou seja: a paciência, uma vez que os resultados não apareciam com a mesma intensidade e rapidez que na Índia; a escuta e, portanto, o diálogo diante das perguntas que lhe faziam durante as lições de catequese e da necessidade de compreender a cultura local e de aprender a língua, coisa a que não estava acostumado na etapa anterior; e o testemunho de vida, que já havia manifestado na Índia, onde condenava os maus exemplos dos soldados portugueses, por se tornarem um entrave à sua acção apostólica. Místico na China Regressou a Goa e o seu pensamento começa a dirigir-se para a China, aonde planeia uma expedição com alguns dos seus colaboradores. No seu período japonês, ouvira falar do Império do Meio e convenceu-se de que o caminho para chegar ao coração do povo do Japão seria através da China, uma vez que o Japão, na sua maneira de ver, dependia culturalmente da China. Com o título de embaixador, outorgado pelo vice-rei da Índia, única forma de ter acesso à China, iniciou os preparativos. Mas a oposição de muita gente a tal desígnio, sobretudo por parte dos portugueses, fará com que a ideia pouco ultrapasse as intenções. Contudo, e apesar das advertências de que, se chegasse a entrar na China, o esperaria uma rigorosa prisão, Xavier não desiste da sua ideia. As dificuldades surgiram de todos os lados e o círculo dos seus colaboradores reduziu-se a um pequeno grupo, ou seja, aqueles que depois o enterraram na ilha de Sanchoão, às portas da China, aonde conseguiram aportar num pequeno barco. Enquanto planeava a sua viagem para entrar no continente chinês, sobreveio uma doença da qual morreu. Nesta terceira etapa, Xavier encarna, talvez inconscientemente, a figura do místico: quase abandonado por todos, mas com uma visão que não chega a concretizar, por ter morrido: anunciar a Cristo na grande China. Xavier é o Moisés que avista a Terra Prometida sem a poder pisar. A sua visão de chegar às portas da realização do seu sonho é o legado de impulso, de audácia e vitalidade missionária que deixou à posteridade. Um zelo quase inimaginável Xavier é o marco de uma forma de ser missionário em que sobressaem: * O zelo missionário de se consumir pelo Evangelho. Num curto período de dez anos visita países e catequiza em tantas nações, que se torna quase impossível imaginar tal mobilidade nessa altura. Este zelo missionário manifesta-se particularmente intenso nos momentos de adversidade, diante dos quais não se verga, enfrentando-os com uma visão de fé que se torna motivo de reflexão para a Igreja missionária de hoje. * O processo de crescimento espiritual e missionário de Xavier, segundo os contextos e a realidade missionária com que depara. A sua formação intelectual europeia não o ajudava certamente a entender o mundo oriental, mas será a realidade, os sinais dos tempos, que a irão transformando. Demonstra grande capacidade de adaptação a novas situações, de iniciativa e criatividade, procurando novas formas para partilhar a mensagem evangélica, sobretudo no Japão. Para já não falar na sua capacidade de animador missionário, que Xavier exerceu na sua vida mediante cartas aos companheiros e a jovens, inflamando-os com o espírito missionário. Falámos nas três etapas da sua vida: apóstolo, discípulo e místico. Se bem que não estejam perfeitamente delimitadas no tempo, creio, ainda assim, que marcam cada uma das etapas da sua vida. Não seria exagero considerar São Francisco Xavier como apóstolo do Oriente, porque de facto aí desenvolveu uma actividade pioneira, abrindo caminhos. Embora sejamos tentados a deixar-nos levar pela auréola de santidade, que a história e os exageros do costume tornam inevitáveis, acho ser de toda a justiça realçar na sua vida o crescimento e o amadurecimento missionários através de múltiplas experiências, a identificação com Cristo e a sua entrega qualificada e total ao serviço da missão.