Na Espanha: a família e o castelo (1506-1524)

O CASTELO DE XAVIER - NOBREZA DA FAMÍLIA - XAVIER E SUA MÃE

O Castelo de Xavier - 1 Na extremidade oriental da Navarra espanhola, não longe da pequena cidade de Sanguese e no vale de Aibar, eleva-se majestosamente um escarpado rochedo cercado por uma fortaleza cuja origem remonta aos primeiros tempos do feudalismo. 2 Abrigada pelos Pirinéus e colocada como sentinela avançada sobre os confins da Navarra, parece guardar a entrada e desafiar o Aragão a transpor os limites da sua fronteira.

Capela do Castelo de Xavier





3 As ameias, cuja plataforma é cercada, as besteiras das suas fortes muralhas, as seteiras em rocha dura que formam as suas trincheiras, atestam ainda hoje os assaltos que teve de sustentar no tempo em que cada um dos diversos soberanos que reinavam na velha Espanha estavam continuamente em guerra com os seus vizinhos, cujos direitos contestavam.
4 Este antigo solar ali situado como um ninho de águias, era somente acessível por uma rampa natural que ia terminar ao primeiro andar, cuja porta era guarnecida de grossas barras de ferro.
5 Do lado oposto descia-se pelo andar inferior, para um vale onde uma igreja e algumas habitações, em muito pequeno número, formam a aldeia dependente da jurisdição do castelo.
6 Esta antiga fortaleza é o castelo de Xavier.
7 No começo do século XV a única herdeira da família de Aznarez y Xavier, descendente dos primeiros soberanos da Navarra [, levou este feudo para a casa de Azpilcueta pelo seu casamento com D. Martinho, único descendente daquela nobre família e que ocupava um dos primeiros cargos na corte. 8 Na sua morte, não deixou D. Martinho de Azpilcueta outros herdeiros do seu nome além de um filho dedicado às ordens sacras, e uma filha que reunia em si todas as qualidades desejáveis para poder honrar todos os títulos e feudos de, seus pais.

Casamento de seus pais - 9 O rei de Navarra, João III , tomando o lugar de pai da bela e rica herdeira Maria de Azpilcueta de Aznarez y Xavier, que reconhecia como sua parente, 10 escolheu, de entre os fidalgos da sua corte, aquele que julgou mais digno de uma tal aliança, e deu-lhe por esposo João de Jasso, senhor de Idochim, que ele estimava com afeição e ternura.
11 João era um dos homens mais distintos da sua época, presidira, por longo tempo, o Conselho do seu soberano; exercera o cargo de seu embaixador extraordinário junto dos reis católicos Fernando e Isabel; 12 gozava de grande reputação nas letras, e o seu talento, a sua inteligência e integridade nos negócios públicos, a completa lealdade do seu caráter e a solidez das suas virtudes, granjearam-lhe a estima e a afeição de todos os cortesãos.
13 Não querendo o rei de Navarro que se extinguissem, na pessoa de Maria, as nobres famílias de que era única descendente, determinou que João de Jasso acrescentasse, ao seu nome e às suas armas os nomes e as armas dos Azpilcuetas e dos Xavieres.
14 Convencionou-se, além disso, e foi uma das condições do contrato, que se deste casamento proviessem muitos filhos, 15 o último adotaria o apelido e as armas dos Xavieres com o fim de conservar, pela descendência deste, a recordação da mercê que o rei Thibaud I fizera, 250 anos antes, à família de Aznarez, da casa-forte, e das terras de Xavier, em remuneração dos bons e leais serviços que ela havia prestado à coroa.

Vocações na família de Xavier - 16 Deus abençoou generosamente a união de João e Maria, não somente pelos numerosos filhos que lhes deu, mas também pela graça que aprouve conceder a dois de entre eles. 17 Todos os sues filhos, a exceção do último, seguiram a carreira das armas na qual se haviam nobilitado seus avôs, e todos se distinguiram nela, tanto pelas suas virtudes como pelo seu valor a talento.
18 Uma só filha concedeu Deus aos votos de D. João e D. Maria, feitos desde os primeiros anos da sua união. 19 Bela e virtuosa, como sua mãe, adquirira Madalena a confiança e a afeição da rainha Isabel, que a chamou para junto de si na qualidade de sua dama de honor a sua favorita.
20 Não podia, porém, Madalena, no meio do bulício a dos prazeres da corte, dedicar-se, como desejava, as obras de caridade a às orações, com fervorosa devoção Crescia-lhe de dia em dia o amor de Deus, e a sua posição na corte absorvia-lhe todo o tempo que desejava consagrar a religião. 21 Todos os seus desejos eram entregar-se inteiramente a Deus, porém via-se forçada a distrair-se, e isto lhe se tornava intolerável. 22 Finalmente, o seu tédio pelas grandezas a prazeres do mundo cresceram a tal ponto, que abandonou a corte e retirou-se para onde Deus a chamava.

Santidade de Madalena irmã de Xavier - 23 As santas religiosas que a guerra forçara a abandonar a Franca, vieram refugiar-se na Espanha, próximo de Valença, na pequena cidade de Gandia, a ali viviam sob a rigorosa severidade da sua ordem.
24 O mosteiro de Santa Clara de Gandia gozava do credito do mais austero da Espanha, a foi sem dúvida por isso que D. Madalena de Azpilcueta o escolheu e preferiu, 25 e era certamente para ali que Deus a chamava, porque desde o começo do seu noviciado causou a sua santidade, tida como um prodígio, a maior admiração, há poucos anos depois foi ela escolhida para suceder a abadessa que falecera.
26 Deus fazia conhecer muitas vezes os seus desígnios à devota Madalena. Revelou-lhe um dia que a morte que lhe destinava seria serena e tranqüila como o sono da inocência; 27 porém fez-lhe conhecer, ao mesmo tempo, uma das suas religiosas, anunciando-lhe a morte mais tormentosa da natureza.
28 A caridosa abadessa empenhou-se desde logo para com Deus, suplicando para si aquela morte de tormentos, e que a divina Bondade reservasse e concedesse à sua religiosa a que fosse mais amena. 29 Conheceu, por inspiração divina, que a sua súplica seria atendida e bem depressa teve a prova.
30 A religiosa que a abadessa vira na sua revelação, morreu, pouco depois,, sem sofrimento algum e parecendo gozar antecipadamente das alegrias celestes e que fazem a felicidade eterna. 31 E mais tarde, em 1532, Madalena adoeceu, a gangrena corroeu o seu corpo extinguindo-o lentamente, e baixou à sepultura sofrendo todos os horrores que produzem essas humilhantes decomposições e as cruéis dores que as acompanham. 32 Mil vezes mais pesarosa com os sofrimentos da alma do que com os do corpo, suportou este longo martírio com uma coragem e resignação heróicas, e expirou bendizendo a Misericórdia infinita que se comprazem em purificá-la assim nesta vida.

Nascimento e destino de Francisco - 33 Francisco, era o último filho de D. João e D. Maria. Nascido a 7 de Abril de 1506, no castelo de Xavier, cujo feudo se lhe destinava, tomou dele o nome; 34 porém tendo mostrado desde a infância a mais verdadeira dedicação pelo estudo, a ponto de seus pais conhecerem logo que ele tinha uma decidida vocação pela vida eclesiástica, 35 quiseram que seu irmão imediato, anterior na idade, também adotasse o apelido de Xavier, que desejavam conservar e perpetuar na sua descendência.
36 Francisco cresceu e à medida que a sua robusta inteligência e talento se desenvolvia, a sua dedicação pelo estudo tornava-se em paixão profetizadora de ditoso futuro.
37 Os outros seus irmãos só aspiravam às distinções na profissão das armas; 38 Francisco, conquanto possuísse todos os predicados para nela brilhar com todo o esplendor, não tinha por aquela carreira inclinação alguma, e fácil era prever-se que não seguiria senão a das ciências.
39 Cursou tudo quanto se lhe podia ensinar em Navarra, com a maior brevidade e admirável distinção; e como uma tal facilidade e tais progressos não podiam deixar seus pais em dúvida sobre a resolução que tinham a tomar, 40 resignaram-se estes a secundar as suas prodigiosas disposições, mandando-o para a Universidade de Paris. Este sacrifício era imenso. Já os filhos mais velhos se achavam apartados da família, prometendo tornarem-se dignos do seu nome.
41 Madalena entrara, alguns anos antes, para o mosteiro de Santa Clara, e desta numerosa família, o último filho, aquele que recebera ás últimas carícias prodigalizadas à infância, o único que ficava e fazia as delícias do lar paterno pelos amáveis dotes do seu espírito, ia apartar-se também e para muito mais longe! 42 Mas os interesses do seu futuro assim o reclamavam, e seus pais souberam ser generosos para com este seu filho muito amado.

43 Francisco tinha então dezoito anos, havia já concluído os seus estudos preparatórios e desejava completar o curso de filosofia; partiu, pois, em seguida, e logo que chegou a Paris entrou no colégio de Santa Bárbara.





Imagem do Cristo Sorridente na capela do Castelo de Xavier
o adolescente Francisco Xavier contemplava-a (local de oração)